segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Política como decisão.
Brasil, Ufla (Lavras, MG), Prof. Celso Vallin (Dep. Educação), 2015-1

GDE116 – Escola e Currículo, Política e Planejamento Educacional


1. Reflexões iniciais - O objetivo dessa sequência de atividades é o desenvolvimento do tema política, como forma de decisão de interesses coletivos, sociais, e da percepção de que a história é construída por nós, sujeitos sociais, dando ênfase aos papéis da educação na contínua reconstrução social. Com isso queremos provocar reflexões críticas e problematizar temas que serão estudados na disciplina.

Pelo dicionário Michaellis (http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/) política é a arte ou ciência de governar, de organizar, dirigir e administrar nações ou instituições. Se entendemos que todas as pessoas devem ser sujeitos das decisões que lhes tocam, pensamos na democracia participativa e no diálogo democrático como base dessa política, ou como base da arte de governar, administrar. Políticas, podem ser princípios e medidas postos em prática por instituições governamentais e outras, para a equacionamento de desafios sociais. Dessa forma as políticas podem ser colocadas em forma de lei. Por isso estudaremos leis e movimentos sociais relativos à educação.

DEPENDE DE NÓS (anterior a 1997; 3 min)
– de Ivan Lins (RJ, 1945) e Vitor Martins (Ituverava, SP, 1944)

Depende de nós
Quem já foi ou ainda é criança
Que acredita ou tem esperança
Quem faz tudo pra um mundo melhor

Depende de nós
Que o circo esteja armado
Que o palhaço esteja engraçado
Que o riso esteja no ar
Sem que a gente precise sonhar


Que os ventos cantem nos galhos
Que as folhas bebam orvalhos
Que o sol descortine mais as manhãs

Depende de nós
Se esse mundo ainda tem jeito
Apesar do que o homem tem feito
Se a vida sobreviverá
Para escutar entre em <http://letras.mus.br/ivan-lins/46434/>

TRAB3 - Um desenho 
2. Questões propostas:
Quem manda na sociedade brasileira? Como manda?
Como as principais questões do coletivo da sociedade são decididas?
Quais são e como funcionam as instituições de decisão sobre as principais questões de nossa vida em sociedade?
Quais são as principais características de funcionamento e formas de ingresso nos locais de poder de nossa sociedade?

Estratégia de trabalho:
Cada estudante ou dupla deverá criar um desenho, com símbolos, nomes, flechas e ligações procurando explicar e ilustrar as questões acima.


3. Troca de ideias 
Dividindo a turma em 4 grupos, cada pessoa ou dupla apresenta seu desenho e explica.


4. Síntese coletiva 
Construir um desenho e explicação coletivos. Uma pessoa de cada um dos 4 grupos apresenta ao coletivo e explica.

TRAB4-  Anotações, memória
Para uma reorganização mental individual, rever e organizar anotações, e para ter uma memória do que cada estudante entende que seja o principal, tratado nas discussões e estudos. As anotações devem ser entregues (1 página).

Para saber mais:
FLORESTAN, 2004 (Você torce para o Brasil? Como você torce? Torce pela educação? Como?)
TV CULTURA, 2013


REFERÊNCIAS

EM BUSCA DA TERRA SEM VENENO. Documentário com direção de Noilton Nunes. Produção: Regina Abreu e Pedro Sol. Realização: Imagine Filmes. Ano: 2011. Duração: 39 minutos. Vídeo. A partir da palestra de João Pedro Stédile, líder do MST - Movimento dos Sem Terra, durante a 37a. Jornada Internacional de Cinema da Bahia em 2010. Disponível em <http://youtu.be/-u3_D-d5sAw>. Acesso em 2014.08.14
FLORESTAN Fernandes – o Mestre. Documentário. 46min. Direção, edição e pesquisa: Roberto Reis Stefanelli. TV Camara. Fev/2004. Disponível em <http://youtu.be/iJxJd0jXuWw>. Acesso em 2014.08.16.
TV CULTURA. Programa Provocações (com entrevistas feitas por Antônio Abujamra) com o líder do MST João Pedro Stédile - 08/01/2013. 25 minutos. Disponível em <http://youtu.be/rf_oVhMBtx8>. Acesso em 2014.08.12.





domingo, 4 de maio de 2014

O_problema_da_autoria.

Celso Vallin, 2005


Será que é importante colocar o autor e a fonte como quando mostramos um texto a alguém?

E como fazer se também recebemos esse texto de outra pessoa que não colocou nenhuma referência?

Dá para acreditar no que se recebe pela internet?

Como saber se uma informação é séria, e até que ponto podemos confiar?

Nestes dias recebi uma mensagem bonitinha pela internet. O título chamava a atenção: “A idiotice é vital para a felicidade”.

Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz! A vida já é um caos, por que fazermos dela, [...] um tratado? [...]

Se você fizer uma busca na internet usando a primeira expressão (“Gente chata essa que quer ser séria”) encontrará centenas de endereços que contém esse texto. É uma mensagem positiva, que pretende animar as pessoas.

Embaixo da mensagem que recebi estava escrito “Arnaldo Jabor”, como se ele fosse o autor. Olhando depois em outros endereços pela web, conclui que este texto não deve ter sido escrito por ele. A maioria dos endereços que vi atribui a autoria a Ailin Aleixo, colunista da revista Vip.

E se eu tivesse passado a mensagem adiante, a alguns amigos? Estaria transmitindo uma mentira sobre a autoria do texto. E saiba que o texto me foi enviado por uma grande amiga, diretora de escola, muito séria e competente. Ela não é novata na internet, e caiu nessa armadilha.

Como saber se alguma coisa que recebemos pela internet é verdadeira ou falsa?

Muitas vezes quem passa adiante sem questionar a fonte, está contribuindo para uma cadeia de boatos, mentiras, que pode causar transtornos e mal entendidos.

Depois disso, encontrei uma coisa mais curiosa ainda. É um texto do próprio Jabor, reclamando sobre a falsa autoria.

Toda hora, alguém me pára na rua: “Adorei a sua ‘bunda’!” “Que bunda, cara?” — digo, fingindo que não sei o que é. Não dá outra: “Aquele texto seu, que idéias, que ironias..”, me responde. Fico louco, porque estou sendo elogiado justamente pelo que não fiz. (texto publicado no jornal O Globo, em 31/08/2004, e também disponível em http://www.bobflash.com.br/franquias/recife/colunas/coluna_show.php?materia=455)

Há outro artigo semelhante, publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, em que Arnaldo Jabor também fala do “bunda dura”.

...descobri na internet que sou uma besta quadrada mesmo ... Ando pela rua e as pessoas me abordam: “Adorei o seu artigo ...” Pergunto, já com medo: “Que artigo?” “Esse texto genial que você escreveu e que todo mundo me mandou. Chama-se Bunda Dura.” ... mas respondo: “Não fui eu quem escreveu esse texto!” ... sou amado pelo que não sou. (Arnaldo Jabor - Caderno 2 [20/07/2004]. Disponível em http://www.estadao.com.br/ecolunistas/jabor/04/07/jabor040720.htm)

Estas informações são boas para se provocar uma discussão sobre a autoria e as estratégias que temos para saber em quem confiar.

Há quem diga que o que nos deixa inseguros e vulneráveis é a internet. Mas, e se fosse para selecionar um texto que encontrássemos numa banca de revistas? Seria diferente? E se a mensagem tivesse chegado em papel, trazida pelo correio? Faria alguma diferença?

Veja em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult513u153.shtml
No artigo “Já sei namorar“, publicado na Folha On Line em 05/06/2004, o articulista fala de um texto recebido de uma leitora dele, que é “um pensamento enviado por outra amiga [...], que é equivocadamente atribuído a Mario Quintana, mas que na verdade é de autoria de Marta Medeiros.

Que confusão. Não é?

Pode conferir. Procure por
Promessas Matrimoniais” + “Mário Quintana”
e encontrará mais de vinte endereços.
Mas, se procurar por
Promessas Matrimoniais” + “Martha Medeiros”
encontrará este texto em mais de sessenta endereços. Em geral trata-se de blogs, ou seja, anotações pessoais compartilhadas. Um deles parece ter sido escrito pela própria Medeiros.
http://www.rainhadam.com.br/marthamedeiros1.html

Se olhar em
http://www.rainhadam.com.br/marthamedeiros4.html
encontrará a “Crônica sobre a Desinformação” em que a própria Martha Medeiros (13out03) reclamava das “clonagens literárias: textos que circulam pela Internet com a autoria trocada”.

Por aqui se pode ver que não é de hoje que há pessoas queixando-se dos problemas da autoria. Mas, será importante mesmo saber se o texto é de Quintana ou de Medeiros? Será importante saber se é um texto contemporâneo ou se foi escrito há 20 anos?

Consigo ver pelo menos duas coisas em jogo, aqui. A primeira é a confiabilidade. A confiança no que estamos lendo. Conforme conhecemos pessoas, empresas ou instituições, começamos a acreditar nelas, ou também passamos a desconfiar do que dizem. Queremos educar pessoas para serem críticas. Queremos também que sejam responsáveis, solidárias, justas, amigas... Mas críticas! Ser crítico é o contrário de ser inocente. É saber perceber mensagens e intenções que estão nas entrelinhas. É não se deixar enganar facilmente.

A leitura ainda é uma das bases de informação de quem quer entender o mundo, e se articular dentro dele.

Mas será que quando recebemos a informação falada, e não pela leitura, as coisas são diferentes? Podemos acreditar em tudo o que vemos na TV, ouvimos no rádio, ou escutamos da boca de conhecidos?

Muitas vezes confiamos em informações sem questionar. Acreditamos e pronto.

É verdade que é mais confortável e à primeira vista, mas gostoso, acreditar e pronto. O problema é que não dá certo. A mentira ou as meias verdades acabam provocando incoerências e não se mantêm. Levam-nos à confusão e ao erro.

Apesar de a internet ser uma novidade e gerar insegurança, podemos usar os mesmos critérios que usamos para confiar e desconfiar dos textos escritos em papel, ou do verbo falado (na TV, no rádio, ou da boca de conhecidos). Muitas vezes a aparente perfeição estética dos textos da internet ilude o leitor. Parecem acima de qualquer suspeita. Poderíamos dizer: se está escrito com letras bonitas e aparece na telinha é confiável. Mas não é assim. Não se pode confiar sem questionar, nem nas letras bonitas, nem nas falas bonitas.

Como confiar desconfiando?

A primeira coisa que se vai aprendendo é que cada pessoa ou instituição tem uma história. O jornal “O Estado de São Paulo”, que publica os artigos de Arnaldo Jabor, tem uma história e com ela construiu uma confiabilidade. O mesmo pode ser dito da “Folha de São Paulo”, da rede Globo de TV, e assim de tantas outras instituições. Quem assina, faz história. Quem tem história, cuida do que faz e diz.

Não que estes não errem. Todos podem errar. E erram. Mas existem cuidados e critérios. A confiança não quer dizer certeza. Deve-se lembrar que nada é absoluto, e nem definitivo. Sempre é possível encontrar mais de um ponto de vista. Mesmo assim, podemos ter alguma confiança, devido à história do autor, quando a conhecemos.

Então... O primeiro critério é saber quem está escrevendo, e conhecer um pouco de sua história, que logo nos dará alguma confiabilidade. Ou não! Mas pelo menos paramos para saber com quem estamos “falando”.

O que mais pode nos dar confiabilidade?
O cruzamento de informações é um critério possível. Se pegarmos informações coerentes em fontes diferentes e independentes, isso também nos aumenta a segurança.

A realidade é outra coisa que ajuda a ter confiança. Palavras são como teorias. São idéias. Quando procuramos aplicar as idéias a situações conhecidas, de lembrança, ou em ensaios, isso também nos leva à segurança. A articulação entre teoria e prática é um fator de confronto. As boas idéias vão dando certo com as práticas. Outras idéias vão se incompatibilizando com as situações reais.

Mas, quando questionei a importância da autoria, disse que via pelo menos duas coisas em jogo. A outra é que hoje em dia a escola deseja que o aluno seja autor.

Não desejamos um aluno que seja simplesmente disciplinado e obediente, e que repita e reproduza coisas ensinadas. Queremos mais. Queremos um aluno com opinião e atitude, assumindo e desenvolvendo seus potenciais humanos.

Ser autor é assinar embaixo (ou em cima, hahaha!). É assumir o que está fazendo. É importar-se com o que está produzindo. Ser autor é sentir-se responsável pelo que está sendo criado: um texto, uma apresentação falada, gravada ou não, uma foto, uma seqüência de slides, ou qualquer tipo de áudio-visual.

Por isso, o educador que quer um aluno autor, precisa discutir a questão da autoria. Precisa incentivar seus alunos a assinarem o que produzem e precisa valorizar e ensinar a dar valor ao registro da autoria, e às fontes de referência. Seja na internet, ou não. A questão é a mesma.

O assunto não se esgota aqui. Mas acredito que está claro que há alguma coisa na autoria, que deve ser olhada. Colocar e ler o nome do autor nunca mais será só um detalhe, ou uma formalidade. Por trás daquela observação estará alguém, com seu jeito de olhar o mundo. Aquela paradinha para saber com quem estamos “falando” ajudará a estabelecer relações entre as novas informações e toda a rede de conhecimentos que já temos.

Quer fazer uma brincadeira? Procure por este texto na internet: "A idade vai chegando e com o passar do tempo, nossas prioridades na vida vão mudando" e tente descobrir se a autoria é mesmo de Mario Quintana. Discuta com seus amigos sobre os critérios que o levam a confiar ou a desconfiar dessas informações. Entre os endereços encontrados quais são mais confiáveis? Por que?

Para finalizar, aqui vai um adendo. A NBR6023/2002 é a norma que regulamenta as referências. Referência é um conjunto de elementos, retirados de um documento, que permite sua identificação no todo ou em parte, impresso ou registrado em outro tipo de suporte. Uma explicação simples sobre como fazer referência bibliográfica a um documento pode ser vista em:
http://www.quatrocantos.com/tec_web/refere/5DCONV.HTM

Uma explicação mais completa pode ser vista em http://www.bu.ufsc.br/home982.html

Ou em http://www.cdcc.sc.usp.br/cda/sessao-astronomia/sessao-astronomia-padrao/referencia-bibliografica-ufrgs.htm


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

VALLIN, 2005 - artigo - O eterno problema da FALTA de tempo
(São 8 páginas - por isso é melhor imprimir e ler em papel!)

O eterno problema da FALTA de tempo

Celso Vallin, 2005

-Olá como vai.
-Eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro
-Me perdoe a pressa.
-É a alma dos nossos negócios.
-O sinal...
-Eu espero você.
-Vai abrir...
Paulinho da Viola fez música com a angústia da falta de tempo, entre dois amigos que se encontravam num cruzamento de trânsito, enquanto viviam aqueles segundos de espera do semáforo abrir.
Salvador Dali pintou relógios que escorrem eternizando suas impressões sobre o tempo.
Arroyo estuda a escola brasileira e a vida do educador e conclui: “o tempo aparece cada vez com maior destaque como uma categoria que exige nossa atenção profissional” (Arroyo, 2004, p.23).
Mesmo quem vive a realidade do chamado ‘primeiro mundo’ aponta a falta de tempo como um empecilho aos avanços da escola.
Este é um tema de importância, a se levar em conta que, cada vez mais, temos exemplos, a partir dos esforços de reforma de todo o mundo, de que a falta de tempo é o maior impedimento à aprendizagem dos docentes e à melhoria da escola. (Hernández, 2004, p. 13)
Hoje é comum que as pessoas sintam falta de tempo e pode-se discutir como organizar melhor o uso do tempo. A idéia é que a pessoa organize melhor sua vida, de maneira a “ganhar tempo”. Mas o que seria organizar melhor o nosso tempo?
Num primeiro olhar sobre o eterno problema da falta de tempo, nossos impulsos e nossa racionalidade nos indicam que devemos aproveitar melhor os minutos, fazer nossas atividades de forma mais rápida e objetiva, e talvez aumentar o tempo dedicado às atividades “produtivas”. Não é difícil encontrar manuais, dicas e até cursos que exploram essa linha de pensamento, recomendando até o uso de planilha, no computador ou no papel mesmo, de modo a racionalizar o uso do tempo. Muitas vezes dedicamos muito tempo a questões que consideramos de pouca importância, e acabamos sem tempo para questões essenciais. Assim, cuidar da maneira como usamos nosso tempo pode nos trazer alguns benefícios importantes.
Mas é preciso aprender a cumprir os compromissos de tempo mas também se manter livre, sem se afogar nas demandas de urgência do cotidiano. É preciso aprender a ser dono de nosso próprio tempo.
Observações mais filosóficas nos remetem a outros pensamentos.
[...] o aprendiz é como um viajante que se detém o tempo que for necessário nos lugares de seu interesse, que desfruta do encontro inesperado e que se sente atraído mais pela intensidade da experiência do que pela quantidade de postais que acumula. (Hernández, 2004, p. 13)
Será que o tempo existe mesmo? Não seria só uma criação cultural? Tudo não passaria de uma questão de estabelecimento de prioridades e significados?
Muitos esquemas de pensamento, de trabalho, e de organização na escola são emprestados do mundo dos negócios. Alguns deles vêm para ajudar, mas outros podem distorcer as verdadeiras funções da escola.
Algumas pessoas agem de forma semelhante à de um ‘patrão’, mesmo na escola. Em geral são diretores, coordenadores, supervisores, dirigentes e até ‘professores diante de seus alunos’. Outros acabam ficando em posição semelhante à de ‘empregados’. Também na escola são vividas relações semelhantes às de patrão e empregado. Mas, como na sociedade em geral, muitos estão como ‘patrão’ numa situação e ao mesmo tempo como ‘empregado’ em outra. Algumas vezes a pessoa que está no papel de patrão age de modo a “tirar o suco” de outras pessoas com quem tem algum vínculo no trabalho, aqueles que sente como “seus” empregados, ou seja, procura fazer com que os outros rendam o máximo. Essa relação entre as pessoas, quando se sentem na obrigação de se comportar como patrão e empregados, essa assunção de papéis, gera um clima de pressão e de incomodação. Tira a paz e alegria das pessoas. Elas acabam sentindo-se exploradas, ou sempre em dívida com o sistema. Existe ai também uma auto-imposição por metas de “produtividade”, e isso acontece até na escola. Esse é um dos fatores que cria a sensação de falta de tempo. Mesmo pessoas que estão em cargos de gestão sentem-se cobradas e sofrem dessa “falta de tempo” real ou psicológica. Sentem que deveriam fazer mais!
As relações trabalhistas vêm sofrendo mudanças e temos cada vez mais pessoas ‘contratadas para prestar serviços’ e não como empregados (de carteira assinada). Esse é outro fator de pressão e de instabilidade. Ajuda as instituições a aproveitarem o máximo das pessoas, e colabora para que elas sintam-se em dívida, ou com falta de tempo. Mais pessoas trabalham por contrato, e as relações de trabalho são cada vez mais temporárias e instáveis. Por receio de ficar sem trabalho, ou sem dinheiro, as pessoas acabam aceitando mais responsabilidades do que gostariam, ou poderiam, e ficam sobrecarregadas. Por outro lado, quando limitam adequadamente o volume de trabalho contratado, correm o risco de ficar alguns períodos sem trabalho ou com pouco trabalho, o que também gera estresse.
As pessoas estressadas costumam se renovar nas férias, mas quem presta serviços por contratos (escritos ou verbais) não costuma contratar períodos de férias. Mesmo quando estão sem contratos, ainda que sejam por pequenos períodos (um ou dois meses), não se sentem em paz para viver como se estivessem em férias. Ocupam o tempo e a mente buscando novos contratos e vivem a insegurança financeira.
Por serem mal remunerados, ou pelo receio de ficar com pouco trabalho (aulas ou outros trabalhos) há, muitos profissionais de educação que assumem mais responsabilidades do que gostariam (aulas, atribuições de gestão, e outras), às vezes em mais de um endereço, e acabam sem tempo para os necessários trabalhos de planejamento, reflexão e estudo, nos planos pessoal e coletivo. Essa situação, aliada às dificuldades naturais do magistério também gera estresse.
Empregados ou prestadores de serviços, ambos acabam na mesma situação. Sentem-se sempre em dívida.
Quando se trabalha a serviço de outros seres humanos, cercado por expectativas difusas, culpa e frustração tornam-se parte do serviço. Eis as palavras de um dos professores que participou do estudo sobre o tempo de preparação: “Ensinar é uma profissão que, quando você vai para casa, sempre leva material em que pensar. Você pensa ‘deveria estar fazendo tal coisa’. Sinto-me culpado por sentar-me durante meia hora.” Estas expectativas tão absurdamente elevadas, muitas delas auto-impostas [...] reforçam o individualismo. (Fullan e Hargreaves, 2000, p. 61)
O estresse não é sempre ruim. Um pouco de estresse, pode ajudar a superar limitações pessoais, e até tirar as pessoas do marasmo e desânimo das rotinas. Mas as pessoas precisam saber se cuidar e estabelecer limites entre o estresse leve e produtivo, daquele que destrói vidas: a do estressado e a de quem convive com ele. A escola não é uma instituição que visa o lucro e a competitividade, e nela o melhor a ser feito nem sempre é resultado de uma ponderação de ordem simplesmente racional. Deve ser um ambiente com espaço e compreensão para o erro e acerto, para diferentes ritmos, investigações e experimentações – tudo isso vai contra algumas idéias empresariais de racionalização do tempo. Nos ambientes de aprendizagem deve haver paz nas relações de modo a permitir perdas, ineficiências e reflexões pessoais e coletivas. Na escola pode-se lidar com situações de algum estresse e cobrança, mas sempre de olho no processo de aprendizagem de cada um e do coletivo.
Tanto em relações de emprego, como em relações de prestação de serviços, a competitividade favorece que uns desqualifiquem o trabalho dos outros. Muitas vezes isso acontece de forma velada. Esses comportamentos desfavorecem a articulação de trabalhos cooperativos e a formação de equipes e de coletivos. Se essa falta de companheirismo e solidariedade no trabalho já é ruim na empresa, na escola é mais grave.
Tentar resolver o problema da falta de tempo imitando soluções empresariais pode estar reforçando os esquemas rígidos em que a escola está tradicionalmente estruturada.
Enfrentar o tempo escolar requer não esquecer que aqueles que pensaram o ‘dever ser’ da escola no início do século XX optaram pela carta da racionalização, entendida como ‘a organização da vida por meio da divisão e da coordenação das atividades fundamentada em um estudo exato das relações dos homens entre si, com suas ferramentas e seu ambiente, objetivando alcançar maior eficácia e produtividade’. (Hernández, 2004, p. 13)
Não buscamos desenvolver a autonomia dos educandos? Desenvolvimento de autonomia requer oportunidades de experimentação, com possibilidade para acertos e erros. A otimização do tempo não estaria contribuindo para um modo de agir dentro de critérios e padrões rígidos demais para um ambiente de escola?
É a lógica “transmissiva”, que organiza todos os tempos e os espaços tanto do professor quanto do aluno, em torno dos “conteúdos” a serem transmitidos. Uma suposta lógica dos conteúdos a serem transmitidos constitui o eixo vertebrador da organização dos graus, séries, disciplinas, grades, avaliações, recuperações, aprovações ou reprovações. (Arroyo, 2004, p. 193)
Conseguimos tempos de formação e planejamento, mas como libertá-los dos tempos de aula, da rigidez curricular, dos rituais das provas...? Uma professora destacou que as primeiras vítimas dessa máquina do tempo ou dessa lógica temporal férrea são as professoras e os professores. Os depoimentos foram mostrando como estamos tão acostumados com essa lógica temporal instituída que nem a questionamos e até a defendemos como se fizesse parte de nosso ritmo temporal docente e humano. Não percebemos que muitos dos problemas de nosso trabalho têm sua origem na lógica temporal a que está submetida nossa docência. Se nossos tempos fossem organizados de outra maneira não seríamos mais livres? (Arroyo, 2004, p. 195)
Escola cidadã é aquela que contribui para que educandos e educadores encontrem e desenvolvam seu potencial humano. O ambiente ajuda as pessoas a serem mais gente. Ajuda a aprender a conviver consigo mesmo, com o semelhante e com a natureza. A otimização dos tempos não estaria acorrentando as pessoas aos processos já estabelecidos? Não estaria dificultando o jeito humano de ser, criativo, crítico, autoral?
Assim é que, enquanto a prática bancária, como enfatizamos, implica uma espécie de anestesia, inibindo o poder criador dos educandos, a educação problematizadora, de caráter autenticamente reflexivo, implica um constante ato de desvelamento da realidade. A primeira pretende manter a imersão; a segunda, pelo contrário, busca a emersão das consciências, de que resulte sua inserção crítica na realidade. (Freire, 1987, p. 70, grifos do autor)
Sendo assim, o uso do tempo não deveria estar sendo discutido e flexibilizado conforme as necessidades locais e cotidianas? Como se deve lidar com as estruturas de convivência e de ensino-aprendizagem? Como lidar com o tempo para permitir o trabalho com projetos pessoais e grupais na escola? Para Hernández (2004, p. 13), para desenvolver projetos na escola é preciso superar a dicotomia entre o tempo prescrito e os tempos escolhidos.
Falta de tempo gera pressa, falta de paciência, e falta de gentileza. Essa falta de gentileza, quase involuntária, meio doentia, pode ser vista mais facilmente no trânsito das grandes cidades, mas se expressa também na maneira como o professor trata seus conteúdos e seus alunos, às vezes involuntariamente. O mesmo acontece nas reuniões pedagógicas e em outras relações dentro da escola. Falta tempo, falta paciência, acaba faltando alegria e humanidade.
A ideologia produtivista e competitiva leva a escola para a aula transmissiva, o professor que cobra do aluno, o aluno e pais que querem um professor objetivo e servil, e todos acabam tendendo a relações tecnicistas (desumanizadas) e com poucas oportunidades para cada um descobrir-se e desenvolver-se como criativo, sensível, solidário.
Assmann (1998) propõe que se pense em dois tempos diferentes: o kairos (kairológico) e o krono (cronológico).
O tempo cronológico de que fala é aquele do relógio, cada vez mais presente na vida das pessoas, rígido, ditador. Assmann fala da obsessão pelo tempo exato e a racionalidade instrumental (1998, p. 207).
Suspeito que hoje, mais que o relógio digital, é o relógio atômico que continua provocando a secreta volúpia de estar chegando perto do pleno domínio do tempo. O domínio do tempo sempre esteve ligado de alguma forma, com o loteamento da eternidade [...] Creio que nossa reconciliação com os avanços científico-tecnológicos deve acontecer sem susto, num saboreamento existencial profundo, mas também sem cegueira. O desejo de exatidão total na medição do tempo não estará camuflando uma soberba ilimitada da razão instrumental, que sonha com um controle onipotente de tudo, alcançando até o coração da matéria? (Assmann, 1998, p. 208)
Saboreamento existencial! O tempo kairológico é aquele mais ligado às nossas vontades, à maneira como saboreamos cada momento.
Cada um de nós certamente pode identificar situações que tomaram longos espaços de tempo cronológico de suas vidas, mas que em sua recordação ocupam apenas uma lembrança vaga como se fossem poucos segundos, porque pouco valeram. Por outro lado, algumas vivências que aconteceram em curtos tempos cronológicos são lembradas em detalhes, sob muitos aspectos, cheias de nuances e sentimentos. Foram situações intensamente vividas em que o tempo kairológico foi muito maior do que o cronológico. Também no presente essas diferenças acontecem.
Quando experimentamos dor ou prazer, os instantes se tornam subjetivamente assimétricos. Na dor o instante é um sufoco interminável, na espera ele parece estagnar-se e no prazer ele dispara e se esvai. São muitas as formas de percepção que comprovam que o tempo, para nós, está de alguma forma supeditado [subordinado] àquilo que experimentamos. (Assmann, 1998, p. 216, 217)
Assmann fala de relação entre o controle exato e rígido do tempo e o poder e a ambição das pessoas e organizações. Relaciona as idéias empresariais de “just-in-time” e “qualidade total”, com o tempo.
A produção e circulação se propõe chegar à sincronização cronológica entre oferta e procura (just-in-time, estoque zero). Nisso tudo emerge uma nova noção do tempo, impregnando aos poucos todo o sistema. Um novo conceito de tempo, e não só do cronológico, já faz parte da concepção de qualidade. Qualidade total significa também compactação temporal da eficiência. (Assmann, 1998, p. 209)
Quando se fala em interdisciplinaridade o jeito de olhar o tempo é importante. Interdisciplinaridade implica em integração das várias áreas de conhecimento, no trabalho cooperativo entre professores de diferentes disciplinas. Interdisciplinaridade requer a flexibilidade dos papéis, tempos, enturmações e arranjos. Requer entrosamento e desprendimento de interesses pessoais em função do coletivo. As idéias de interdisciplinaridade de Fazenda (1985) já apontavam para a necessidade de se ter um tempo “folgado” nas relações escolares, ao contrário da ideologia produtivista.
Numa sala de aula interdisciplinar existe sempre um ritual de encontro no início, no meio e no fim. [...] Todos se percebem e gradativamente se tornam parceiros. [...] Difere da comum desde a organização do espaço arquitetônico à organização do tempo. [...] Predomina [a premissa] do respeito ao modo de ser de cada um, ao caminho que cada um empreende em busca de sua autonomia – portanto [...] decorre mais do encontro entre indivíduos do que entre disciplinas. (Fazenda, 1985, p. 86)
[...] o projeto interdisciplinar pressupõe a presença de projetos pessoais de vida; o processo de desvelamento de um processo pessoal de vida é lento, exige uma espera adequada. (Fazenda, 1985, p. 87)
As aulas e projetos de que fala pressupõem parcerias, diálogos de idas e vindas entre teorias e práticas, subjetividade com objetividade, a ousadia da busca, e uma bibliografia “sempre provisória, nunca definitiva”. (Fazenda, 1985, p. 87)
Para Garcia (2000):
Exercer a interdisciplinaridade é ‘tecer’ um ambiente interativo, onde os participantes estão ‘entrelaçados’ pelos saberes que são capazes de produzir coletivamente. [...] Mas a complexa tarefa de ‘tecer’ kairos e assim engendrar uma oportunidade, requer uma visão de totalidade [...] é uma arte intuitiva, onde se exerce mais sensibilidade do que algum tipo de racionalidade. (GARCIA, 2000, p. 108)
Tecer kairos é uma arte intuitiva.
Há algumas décadas até os filmes passaram a ser mais rápidos e frenéticos. Filmes para crianças, como os desenhos de Walt Disney, passaram a ter uma dinâmica em que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo e tudo se passa muito rapidamente. A indústria cinematográfica faz filmes com dinâmica mais rápida para agradar o público, e o público vai na onda. Mesmo nas novelas brasileiras as coisas começaram a acontecer de forma mais rápida. Chegamos num ponto em que não tínhamos mais programas para assistir que nos permitissem descansar ou apreciá-los de forma descontraída. Essas coisas mostram um movimento da sociedade, que pode ser sentido na escola. Professores, gestores educacionais, alunos e pais foram se pressionando para ter mais coisas em menos tempo e para que cada instante pudesse ser mais interessante. Desejava-se que o instante seguinte trouxesse sempre mais uma novidade. Mas precisamos reencontrar um ponto de equilíbrio. Não queremos voltar ao passado, nem ser saudosistas. Mas é preciso curar esse sentimento de falta de tempo que muitos sentem e voltar a viver em paz, mesmo que seja com períodos de leve estresse.
[...] a mídia se interessa por espectadores, enquanto que a escola deve interessar-se em sujeitos ativos do conhecimento. É por isso que um bom aproveitamento do tempo escolar exige a transformação dele em tempo pedagógico, ou seja, tempo vivencial da alegria de estar aprendendo. (Assmann, 1998, p. 233,234)
E os professores e gestores nas horas de reunião, ou de planejamento e educação continuada, devem também viver a alegria de estar aprendendo, com tempo e paz nas relações. Ainda Assmann nos aponta algumas conclusões sobre como lidar com as pressões produtivistas, de necessidade de otimização do tempo e de processos compactados e superficialmente vividos, e ao mesmo tempo lidar com as necessidades da escola com seu tempo pedagógico.
Em si não há nada de novo em constatar que cada sociedade e cultura sempre está lidando com um número plural de temporalidades – cronológicas e kairológicas, tempos de relógio e tempos vivenciais – ao dar formas organizadas às relações sociais. A fixação do conceito de tempo em seu aspecto mensurável era condizente com um determinado conceito de ciência e com a ânsia de controle máximo dos tempos políticos e dos tempos produtivos. A expansão de uma ideologia produtivista tornou cruelmente seletiva a valorização dos tempos humanos, dividindo-os em tempos que valem (muito ou pouco) e tempos que nada valem, desde o ponto de vista econômico-produtivista. O novo desafio consiste em perceber que essa lógica moderna de valorização e/ou desvalorização do tempo está entrando em colapso no interior do próprio sistema produtivo. (Assmann, 1998, p. 215)
Porque aqueles tempos nada valem?
Em síntese, eu diria que a própria organização da economia, mas sobretudo a organização plurivalórica da sociedade pós-moderna, está mostrando a necessidade de pensar conjuntamente chrónos e kairós tempo-do-relógio e tempo das vivências, tempo natural e tempo histórico. (p. 216)
O objetivo do tempo pedagógico não é apenas um ensino bem estruturado, mas a configuração dessa parte instrucional da pedagogia em função da construção personalizada e da celebração do conhecimento como descoberta prazerosa.
A dimensão temporal do processo de aprendizagem não se refere apenas ao tempo cronológico (horários), mas a uma pluralidade de tempos que estão em jogo, conjuntamente na educação: horário escolar, tempo da informação, instrucional, tempo de leitura e estudo, tempo de auto-expressão construtiva, tempo do erro como parte da conjectura e da busca, tempo da inovação curricular criativa, tempo de gestos e interações, tempo do brinquedo e do jogo, tempo para desenvolver auto-estima, tempo de dizer sim à vida, tempo de organizar esperanças.
O entrelaçamento e direcionamento dessas múltiplas temporalidades sobre a flecha do tempo cronológico não acontece pelo mero transcurso dos dias letivos. Requer investimento intenso de energias humanas para que o aspecto árduo e disciplinado do ensino e da aprendizagem apontem a vivificação dos tempos pessoais de todos os envolvidos. (Assmann, 1998, p. 232, 233)
Sabendo disso, podemos recorrer a Alves (1993) para entender melhor porque na escola as coisas são diferentes. Ele nos diz:
[...] toda a educação, as aprendizagens, dependem da linguagem. A criação de sentidos não depende só de nós com a natureza. Depende dos outros que nos ensinarão.
O comportamento humano, individual e coletivo, se processa concomitantemente com uma série de explicações intelectuais do mesmo, explicações que pretendem ser racionais mas que, no fundo, são ilusões ou ideologias. A verdade, entretanto, é que o verdadeiro motor do comportamento não se encontra na razão, mas em níveis obscurecidos pela pseudo-racionalidade que elaboramos. A tarefa, portanto, é desmistificar esta pseudo-racionalidade a fim de descobrir a lógica dos fatores que realmente determinam o comportamento. (Alves, 1993, p. 90)
[...] enquanto a crítica das ilusões e das ideologias não for levada a cabo estaremos condenados a ser prisioneiros de forças irracionais que não conhecemos e que não desejamos conhecer. [...] Podemos começar substituindo as afirmações pelas interrogações. Os dogmas têm que ser transformados em dúvidas [...] os pontos de chegada em pontos de partida. (Alves, 1993, p. 90)
Alves, citando Freud e Marx, afirma que é o amor que decide a batalha (1993, p. 92).
A “verdade” não tem o poder para moldar o comportamento: o comportamento emerge das emoções. [...] Não é a idéia que gera o comportamento mas sim o interesse. As idéias nada mais são do que trilhos nos quais o interesse corre. (Alves, 1993, p. 91)
Daí a necessidade do afeto e respeito, além da necessidade do clima democrático e de diálogo e negociação que precisam acontecer em todas as situações que se deseje sejam educativas: na aula, na reunião de professores, na cantina ou em qualquer outra dentro da escola. Quem recebe ou desenvolve atividades em situações frias, ou naquelas em que o controle dos tempos e resultados é imperativo, não entra em vibração natural, não vê nascer seus potenciais, e não dedica memórias nobres em suas construções mentais.
Entre 2001 e 2003 desenvolvi pesquisa junto a três escolas públicas. Desde o início se ouvia falar, e mais do que isso, se sentia a falta de tempo das pessoas. Faltava tempo para a reflexão. Faltava tempo para o planejamento e organização das ações educativas. As carências e urgências tomavam conta dos tempos dos educadores (professores, gestores...). E em função dessa precariedade, as relações entre as pessoas perdiam muito de seu potencial educativo: nas reuniões de professores, nos horários de aula, nos intervalos...
No projeto CER, falávamos em criar espaços para reflexão, e no princípio parecia impossível. Depois, como que de repente, esses espaços foram sendo instituídos, com facilidade. A diretora tinha esse poder na mão mas eu não sabia. De um momento para outro as diretoras assumiram que aconteceriam os Encontros e para isso conseguiram aprovação no nível da Diretoria de Ensino. (Vallin, 2004, p.174)
A grande conclusão a que cheguei é que, como insiste Freire (1996, p.58), precisamos tomar a história em nossas mãos. Numa situação em que as pessoas encontram-se destruídas, para que possam reconstruir-se,
[...] é importante que ultrapassem o estado de quase “coisas”. Não podem comparecer à luta como quase “coisas”, para depois serem homens. É radical esta exigência. A ultrapassagem deste estado, em que se destroem, para o de homens, em que se reconstroem, não é a posteriori. A luta por esta reconstrução começa no auto-reconhecimento de homens destruídos. [...] Não há outro caminho senão o da prática de uma pedagogia humanizadora [...]. ( Freire, , 1987, p. 55, grifos do autor)
Quem vive a escola e a falta de tempo do professor e dos gestores, ao afastar-se e analisar o problema, pode perceber melhor que não é só uma questão de tempo, ou de verbas especiais, mas trata-se também de uma luta para desenvolver a consciência crítica a respeito do valor da reflexão e reconstrução conjunta. Trata-se de dar valor ao diálogo, ao planejamento coletivo, às avaliações apresentadas e compartilhadas em comunidade.
Não se trata de uma defesa da escola tradicional. Ao contrário. Os hábitos de escola que hoje fazem parte do senso comum são aqueles que Arroyo (2004) cita como escola transmissiva e Freire (1987) chama de ensino bancário. Também não se trata de afrouxar as responsabilidades dos educandos. Ao contrário. Desenvolver a cidadania e a autonomia (Freire, 1996) significam atitudes que colocam cada vez mais os sujeitos ligados às responsabilidades de seus atos e dos movimentos em que participam. Propõe-se a diminuição do fazer ativista, levando alunos e educadores ao desenvolvimento da consciência, e com isso a responsabilidade. Também não se trata de uma dicotomia entre escola e empresa. Ao contrário. Propõe-se uma escola que forme cidadãos criativos, críticos, solidários e que saberão levar estes valores e competências também aos ambientes empresariais, e que além de se integrarem ao mundo do trabalho, se lançarão a construir um mundo melhor. Nesse mundo melhor, espera-se que o tempo seja relativo, e que o principal seja a paz e alegria das pessoas. Trabalhar, produzir e ganhar dinheiro significa envolver-se com o “mundo cão” sim, mas não pode significar aceitá-lo como se já estivesse dado. Na empresa, o cidadão pleno estará sempre na luta para construir relações mais humanas, produtos mais éticos, envolvimentos empresariais mais responsáveis... E estará ajudando a construir e desenvolver empresas e instituições mais éticas, responsáveis e solidárias.
Por isso é preciso que se veja a questão do tempo como um problema educativo. É preciso que as pessoas da escola, e dos sistemas de ensino, se coloquem em comunhão, buscando valorizar cada momento vivido no coletivo, valorizando a reflexão em comunidade, com estudo e trabalho pedagógico. É preciso ver o educador como um sujeito que, em diálogo com seus pares e com a comunidade, constrói e reconstrói (a prática educativa, os ambientes de aprendizagem, o jeito de fazer escola) e não como um aplicador de processos ou reprodutor de esquemas de ensino.
Não adianta ficar repetindo, como na embolada:
Você quer parar o tempo
E o tempo não tem parada
Você quer parar o tempo
O tempo não tem parada

(Alceu Valença – Embolada do tempo)

Talvez nossa resposta já estivesse escrita há muito tempo:
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

(Fernando Pessoa em De Nicola, 1995)

Este é o dia, esta é a hora. Vamos ao saboreamento existencial. Aprendamos a arte intuitiva de tecer kairos. Todos os tempos devem valer.


Referências Bibliográficas

ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. -27. ed. – São Paulo: Cortez, 1993.
ARROYO, Miguel G. Imagens quebradas: trajetórias e tempos de alunos e mestres. Petrópolis, RJ : Vozes, 2004.
ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis, RJ : Vozes, 2000.
ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
DALI, Salvador. A persistência da memória. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Persist%C3%AAncia_da_Mem%C3%B3ria em 17/8/2005
DE NICOLA, José; INFANTE, Ulisses. Fernando Pessoa: livro do professor. São Paulo, Scipione: 1995.
FAZENDA, Ivani C. A. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. -2. ed. – Campinas, SP : Papirus, 1985.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 7. edição, São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
FULLAN, M. ; HARGREAVES, A. A escola como organização aprendente. Porto Alegre: Artmed, 2000.
GARCIA, Joe de Assis. Interdisciplinaridade, tempo e currículo. Tese de doutorado. São Paulo: PUC-SP, 2000.
HERNÁNDEZ, Fernando. O tempo nos projetos de trabalho. Pátio, revista pedagógica. n. 30. Maio/Julho/2004. p. 12-15
VALENÇA, Alceu. Embolada do tempo. Disponível em http://cultura.dgabc.com.br/materia.asp?materia=456780 – (Diário do Grande ABC OnLine – 21/1/2005)
VALLIN, Celso. Projeto CER: comunidade escolar de estudo, trabalho e reflexão. Tese de doutorado. São Paulo: PUC-SP, 2004. Disponível em http://pontodeencontro.proinfo.mec.gov.br/

VIOLA, Paulinho. Sinal fechado. Disponível em http://paulinho-da-viola.letras.terra.com.br/letras/48064/ em 17/8/2005

quarta-feira, 10 de julho de 2013

TRABALHO

Para conversar sobre "o trabalho", proponho duas "leituras".


A primeira é a
Revista Cult Edição 139 > Dossiê trabalho

O trabalho na balança dos valores.
ALBATROZ, Suzana e outros
Disponível em <http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/o-trabalho-na-balanca-dos-valores/>. Acesso em 2013.07.10


A segunda é o vídeo de Cortella, falando aos trabalhadores da Câmara Municipal de São Paulo

Publicado em 06/11/2012
Palestra de Mário Sérgio Cortella sobre o livro
"Vida e Carreira, o equilíbrio possível?"
dele e de, Pedro Mandelli. Editora Papirus 7 mares. 1a ed. 2011
1h45min
Disponível em <http://youtu.be/4AETcZOv2Ac>. Acesso em 2013.07.10

Aqui vão algumas palavras e o desafio de você escrever um texto, baseando-se no que viu, leu e viveu, e que as contenha.
TRABALHO <=> emprego
trabalho ==> tri-pálio > tridente. Trabalho = tronco (Lêlê - escravização?)
Poiesis = Labor
Vida e profissão
Sentidos da vida
Coletivo, humanidade
Política x idiota

Fazer o possível x faze o melhor = com capricho
NÃO MEDIOCRIZAR A VIDA

Não aceitar ser morno.

Assista o vídeo (com tem 1h45min, pode ser só a primeira meia hora).

Leia a revista indicada. Faça suas anotações. Converse a respeito.


sexta-feira, 5 de julho de 2013

CORTELLA, 2003

Que tal estudar um pouco?
Procurando colaborar em articulações de estudo de meus/minhas alunos/as compartilho aqui algumas perguntas e comentários possíveis ao capítulo 1 “Humanidade, cultura e conhecimento” (CORTELLA, 2003).

Q1. Cortella afirma que o conhecimento humano não é só o científico? Quais outros tipos de conhecimento são apontados?

Q2. O ser humano não é um animal especializado. Isso porque é capaz de se inventar, de adaptar diferentes habitats ao que precisa. Cite três exemplos de construções alternativas às condições naturais e que colaboram para o bem estar e a vida dos humanos.

Q3. Do ponto de vista da anatomia e funcionalidade do corpo humano, cite ao menos dois fatores que são apontados no texto e que nos fizeram diferentes dos demais animais?

Q4. Do ponto de vista social, cite ao menos dois aspectos que colaboram para o sucesso dos humanos segundo o texto.

Q5. Cultura é o conjunto de conhecimentos de um grupo humano, como conhecimentos tecnológicos, sociais, artísticos, práticos. ´/e verdade que há muita gente que não tem cultura, como dizem tantas vezes? Justifique.

Q6. A cultura em que somos educados determinará quem seremos? Ou nós é que construímos nossa cultura, nosso conhecimento e nosso modo de organizar, fazer e resolver os desafios da vida? Quando nascemos já está conosco tudo o que seremos? E se fôssemos educados por um grupo indígena, seríamos diferentes? Quem inventa quem – a cultura condiciona a pessoa ou a pessoa condiciona a cultura? Justifique brevemente sua resposta.

Q7. As tecnologias nos condicionam? Os avanços tecnológicos vieram para ficar, queiramos ou não, gostemos ou não, seja para o bem ou para o mal? Ou temos o poder de subjulgar, recusar ou subverter as tecnologias conforme nossa vontade?

Q8. Onde está o conhecimento: em nossas mentes ou nos artefatos que usamos (ferramentas, tecnologias como telefone celular, cadeira...?

Q9. Cite até três instituições que colaboram para que a pessoa humana aprenda a cultura de nosso grupo social?

Q10. Diante da visão de cultura como uma construção, qual o papel de uma só pessoa, diante da cultura?

Q11. O que é alteridade? Que lógicas e motivos levam as pessoas a insistirem em desvalorizar quem é diferente delas? O que é etnocentrismo?

Q12. Indique verdadeiro ou falso conforme o texto (CORTELLA, 2003).
a. ( ) - Passado é o mesmo que atrasado e futuro nos indica o progresso.
b. ( ) - Racionalidade leva à verdade sempre.
c. ( ) - A teoria, a ciência, a técnica, as tecnologias levam à melhoria de vida, sempre.
d. ( ) - A realidade pode ser vista como algo acabado, dado.
e. ( ) - Devemos nos apoiar no passado sem nos limitar a ele.
f. ( ) - Devemos aceitar novidades sem desprezar o que já tínhamos e sabíamos.

Aqui vão as respostas que eu mesmo daria às questões. Mas há outras respostas possíveis.
Se você discordar, se tiver outros pontos de vista, ou se desejar perguntar algo, pode escrever e postar aqui no blog.

Q1. Cortella afirma que o conhecimento humano não é só o científico? Quais outros tipos de conhecimento são apontados?

R1. Conhecimento estético, religioso e afetivo.

Q2. O ser humano não é um animal especializado. Isso porque é capaz de nos se inventar, de adaptar diferentes habitats ao que precisa. Cite três exemplos de construções alternativas às condições naturais e que colaboram para o bem estar e a vida dos humanos.

R2. Ar condicionado, irrigação de plantações, próteses dentárias.

Q3. Do ponto de vista da anatomia e funcionalidade do corpo humano, cite ao menos dois fatores que são apontados no texto e que nos fizeram diferentes dos demais animais?

R3. Andar em duas pernas e em pé deixando as mãos livres para outras coisas; ter e desenvolver grande habilidade com as mãos, ter uma massa encefálica maior.

Q4. Do ponto de vista social, cite ao menos dois aspectos que colaboram para o sucesso dos humanos segundo o texto.
R4. Ferramentas e tecnologias são objetos que inventamos e construímos e que são usados para coisas que só com o uso do corpo seriam difíceis ou impossíveis; organizamos instituições como biblioteca pública, governos executivo, legislativo e judiciário; sinal de trânsito.

Q5. Cultura é o conjunto de conhecimentos de um grupo humano, como conhecimentos tecnológicos, sociais, artísticos, práticos. ´/e verdade que há muita gente que não tem cultura, como dizem tantas vezes? Justifique.
R5. Todos têm cultura, se considerarmos no sentido de conhecimentos.

Q6. A cultura em que somos educados determinará quem seremos? Ou nós é que construímos nossa cultura, nosso conhecimento e nosso modo de organizar, fazer e resolver os desafios da vida? Quando nascemos já está conosco tudo o que seremos? E se fôssemos educados por um grupo indígena, seríamos diferentes? Quem inventa quem – a cultura condiciona a pessoa ou a pessoa condiciona a cultura? Justifique brevemente sua resposta.
R6. As duas coisas são verdadeiras. Precisamos aprender com os demais membros de nossa cultura e o modo como iremos agir dependerá muito do modo que o grupo orienta e se organiza. Por outro lado, todo o conhecimento e cultura foi inventado pelas pessoas e cabe a nós criticar tudo o que aprendemos e escolher o que conservaremos, e o que nos posicionaremos contra, em posição de mudar. Quem aceita tudo sem crítica e transformação é uma pessoa conservadora. Que está aberto/a a transformações e reconstrução cultural pode ser chamado/a de progressista.

Q7. As tecnologias nos condicionam? Os avanços tecnológicos vieram para ficar, queiramos ou não, gostemos ou não, seja para o bem ou para o mal? Ou temos o poder de subjulgar, recusar ou subverter as tecnologias conforme nossa vontade?
R7. Nós inventamos e construímos as tecnologias para que nos sirvam. Elas são criações humanas e como tal, nós devemos criticá-las, fazê-las melhorar, alterá-las, subvertê-las quando preciso.
Q8. Onde está o conhecimento: em nossas mentes ou nos artefatos que usamos (ferramentas, tecnologias como telefone celular, cadeira...?
R8. Em ambos. Mesmo podendo ser subvertidas, as tecnologias carregam ideias consigo.

Q9. Cite até três instituições que colaboram para que a pessoa humana aprenda a cultura de nosso grupo social?
R9. Escola, família, igreja, TV e outras mídias de massa, sindicato, coral, diretório acadêmico...

Q10. Diante da visão de cultura como uma construção, qual o papel de uma só pessoa, diante da cultura?
R10. A pessoa deve procurar aprender um pouco de tudo o que seu grupo humano sabe, mas deve também colocar-se como alguém com possibilidade para questionar a cultura e recriar algo, discordar, criticar.

Q11. O que é alteridade? Que lógicas e motivos levam as pessoas a insistirem em desvalorizar quem é diferente delas? O que é etnocentrismo?
R11. Alteridade é o respeito e valorização de outras formas de pensar, de ser e de comportar-se, que não seja igual às nossas. O que acontece é chamado de etnocentrísmo, que é a característica de entendermos que existiria somente uma cultura, e não muitas, e que essa fosse uma construção linear e lógica. Pensando dessa maneira, as pessoas acabam considerando que quem vai contra a cultura vigente e hegemônica estaria sempre errado.

Q12. Indique verdadeiro ou falso conforme o texto (CORTELLA, 2003).
a. ( ) - Passado é o mesmo que atrasado e futuro nos indica o progresso.
b. ( ) - Racionalidade leva à verdade sempre.
c. ( ) - A teoria, a ciência, a técnica, as tecnologias levam à melhoria de vida, sempre.
d. ( ) - A realidade pode ser vista como algo acabado, dado.
e. ( ) - Devemos nos apoiar no passado sem nos limitar a ele.
f. ( ) - Devemos aceitar novidades sem desprezar o que já tínhamos e sabíamos.
R12. F; F; F; F; V; V


terça-feira, 11 de junho de 2013

"Seu Ciço" (BRANDÃO, 1981)

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo : Ed. Brasiliense, 1981. <http://sitiodarosadosventos.com.br/livro/images/stories/anexos/o_que_educacao.pdf>. Acesso em 2013.01.07

Nesse texto o autor transcreve a palavra do agricultor "Seu Ciço", falando da educação e como a escola dá resultados diferentes para o filho do Antropólogo, que é da cidade, e os filhos dele, agricultor.