quarta-feira, 15 de maio de 2019


FARINHADA COMUNITÁRIA


Esse texto foi escrito em 2014 como trabalho final do Curso de Realidade Brasileira (Primeiro da Região Sul de Minas Gerais). Começo questionando o senso comum que indica o socialismo e o comunismo como algo ruim [1]. Trago para o pensamento mudanças recentes da sociedade que têm feito as pessoas sentirem-se perdidas [2]. O patronato oprime a classe trabalhadora, mas mesmo quem é mais rico sofre com a mentalidade capitalista, que pressiona a todos [3]. A correria, que está na boca de todos, hoje, traduz o jeito capitalista de viver e algumas das bases disso são: o individualismo, o produtivismo, a competitividade, a padronização, e a modernização [4]. Em seguida mostro como ao longo dos últimos anos comecei a questionar o fato de não existir comunidade no sentido amplo do termo, mas ao problematizar comecei a observar, empiricamente, em lugares e tempos diferentes e distantes, organizações comunitárias da cultura tradicional que existem e resistem. Observei a folia de reis, o congado, a farinhada comunitária e outros episódios de organização comunitária que antes não conhecia [5]. Voltando ao mundão capitalista, observamos que ele condiciona o modo de operação e organização mesmo nas universidades, em nossa relação com a natureza e na postura da grande mídia que nos “catequiza” todos os dias [6]. Mas ao contrário do que muitos pensam, não é uma opção da humanidade, nem um jogo justo. O poder dos capitalistas, os proprietários de grandessíssimas fortunas, passa pela roubalheira dos bens públicos. Nosso sistema político não é uma democracia real visto que as campanhas eleitorais são manipuladas fortemente pelo poder do capital e grande parte dos que são eleitos como representantes políticos estão a serviço desses grandes grupos capitalistas e não representam o povo como seria de se esperar [8]. Temos ainda a corrupção, que é o desvio de bens e direitos públicos para atender a interesses privados. Comportamento criminalizado judicialmente, mas muito comum e impune [9]. A sonegação e o desvio de dinheiro para paraísos fiscais é outra ilegalidade, e roubo que os mais ricos praticam sobre o direito do povo [10]. Finalmente considero que só uma revolução política não resolveria, pois é preciso reeducar para a cultura comunitária e crítica social. Essas ideias apoiam-se em estudos teóricos, no diálogo acadêmico e em observações e estudos da vida social ao longo de anos. Por isso, embora não siga completamente os padrões, trata-se de um artigo científico.


REFERÊNCIA:
VALLIN, Celso. Farinhada comunitária. In: I Simpósio Nacional Educação, Marxismo e Socialismo. Belo Horizonte, MG : FAE, UFMG, 2016. Disponível em <https://www.simposioedumarx.com.br/edicao-atual>. Acesso em 2018.08.13



[1] O socialismo e o comunismo seriam opções ruins como falam?

Para finalizar o Primeiro Curso de Realidade Brasileira da Região Sul de Minas Gerais escrevi esse texto. Não é algo finalizado, muito menos poderá servir de base para estudos nos temas. O que posso assegurar são duas coisas. A primeira é que o movimento de querer escrever foi bom. Levou-me a novas leituras e procuras, bem como, permitiu-me uma reorganização dos pensamentos. A segunda é que sinto que pode ser uma boa provocação para quem quer seguir estudando, discutindo em luta por uma sociedade de iguais, sem classes.
O socialismo e o comunismo seriam opções ruins como falam? Ou poderiam nos levar a uma vida com melhor qualidade social? Revendo minha já avançada existência relembro os melhores momentos que já tive na vida. Não foram momentos muito intensos e passageiros, mas havia relações sociais verdadeiramente boas. Foram momentos e situações de amizade, de amor, de gratuidade, ou seja, aqueles nos quais as pessoas têm prazer em se ajudar, em estarem juntas, em fazerem algo conjuntamente. Procurarei refletir aqui sobre motivos e causas desses momentos serem raros em nossa sociedade, e entender e explicar porque as atividades organizadas dentro de uma forma comunitária seriam melhores do que as que em geral temos hoje, que são sempre organizadas do ponto de vista capitalista. De uma forma bem direta, o que quero defender é que na sociedade capitalista somos fortemente orientados para defender interesses individualistas, e quando há cooperação no trabalho, ela só é aceita se contribuir para o lucro do negócio em questão. Isso acaba sendo determinante em nossas ações e decisões. Constitui a base de nossa cultura. Muito já se escreveu sobre o socialismo e comunismo e não tenho pretensão explicar isso. Vou procurar falar da visão que construí para que tais ideias possam ser verificadas, discutidas, negadas, ou complementadas. Minha esperança é compartilhar estudos, vivências e pontos de vista para que outras pessoas se sensibilizem e também avancem em seus questionamentos sobre o jeito hegemônico de se pensar hoje.
Nos últimos anos venho procurado compreender como seria possível uma vida mais em comunidade, mais em sociedade. Conforme minha criação (ocidental, nos últimos cinquenta anos), tomo como certo que estou acostumado a viver no capitalismo. As ideias capitalistas estão implantadas nas lógicas de trabalho, e também nas de lazer, e em praticamente todas as atividades no meio social em que vivemos. Sei que mora em mim o reflexo dessas formas de pensar e agir. Históricamente, a sociedade brasileira viveu muitos anos em que era proibido falar bem da esquerda e com isso o comunismo era visto como algo pior que um crime. No período da ditadura civil-militar (1964-1985), declarar-se com pensamentos de esquerda era perigoso, visto que muitos sumiam. E olhe que eram os representantes do Estado que praticavam a tortura, assassinatos secretos e o terror (policiais e militares). Em suma: apesar da realidade e de todos os meios de comunicação sempre afirmarem que o jeito capitalista de organizar a sociedade seria melhor, as incoerências são gritantes e isso me levou a estudar e verificar a outra possibilidade, que talvez seja o comunismo. Lembremos que há coisas vizinhas do comunismo que são bem aceitas e tidas como bonitas e boas como comunhão, comunidade, comunicação ou gente comum. Esclarecendo para quem não souber, quem defende o socialismo e comunismo se diz “de esquerda” e buscam a igualdade social. As diferenças entre ricos e pobres vem aumentando, no Brasil e no mundo, de meio século para cá. A luta da esquerda contra a direita já é mais antiga. Mas de esquerda é quem defende a igualdade, a classe trabalhadora, ou o povo e não as grandes empresas e empresários. São seguidores das ideias de Karl Marx (Alemanha, 1818-1883), para quem o capitalismo leva os donos dos meios de produção ao enriquecimento extremo em função da venda do trabalho alheio.
[2] O mundo mudou. Quem entende o mundo de hoje?
O mundo mudou. Quem entende o mundo de hoje? Grandes avanços da ciência e tecnologia entre 1850 e 1980, grosso modo, poderiam ter trazido melhorias a nossas vidas. A humanidade criou máquinas que fazem coisas que antes só eram possíveis com grande esforço. Historicamente, para aliviar os humanos da necessidade de esforço físico e penoso, foram usados cavalos e outros animais para o trabalho e a produção de bens e serviços. Inventamos a máquina a vapor, usada em trens e outros. Nos anos 1900 foi desenvolvido o motor a explosão e a partir disso criaram-se máquinas que não existiam antes, e que hoje são a base da vida da maioria de nós, como os automóveis, caminhões, ônibus, motocicletas, e os tratores que permitiram a construção de estradas. Surgiram também os materiais plásticos (derivados do petróleo) que possibilitaram a existência de máquinas mais leves e melhores. Hoje temos plásticos que resistem ao calor. Essas máquinas todas, permitem hoje que muitas pessoas morem numa cidade e trabalhem ou estudem em outra, devido ao transporte, veículos e estradas. Elas dão condições para mudanças no modo de vida, e na estrutura da família e da sociedade.
De 1980 para cá passamos a ter os microcomputadores. Eles sofreram avanços e estão agora embutidos em muitas outras máquinas. O computador permite as programações. Por esse meio a tomada de decisões e o acionamento de comandos nas demais máquinas tem sido feito, sempre que possível, sem precisar de pessoas. E dessa forma as máquinas substituem o trabalho humano não somente em tarefas de esforço físico, mas também em serviços que são mais burocráticos ou dependem de operações abstratas, de lógica. Algumas preocupações ou operações que antes dependiam de pessoas, agora fazem parte de rotinas que são verificadas por máquinas que passam a ações por elas mesmas, facilitando nossa vida. Poderíamos citar muitos exemplos como o de uma máquina de lavar roupas, que coloca a água e o sabão em quantidades medidas, bate um pouco a roupa, deixa de molho por alguns minutos, torna a bater, torce... Tantas outras possibilidades vieram com os dispositivos móveis (celulares, táblets...) e a internet.
[3] Ricos oprimem pobres. Cultura capitalista oprime todos.
As máquinas são resultado dos avanços da ciência e tecnologias. Isso implica, em nível mundial, em menor necessidade de trabalho humano, ou em maior disponibilidade de produtos e serviços para nosso bem estar. Por isso, era de se esperar que as pessoas, em geral, estivessem vivendo melhor. Com o avanço das máquinas, poderíamos trabalhar um dia a menos na semana, ou trabalhar sem tanta pressão, sem pressa e com mais prazer. Mas, parece que vem acontecendo é o inverso! Cada vez mais as pessoas sentem que deveriam dar mais de si mesmas. Uma palavra muito citada hoje é “a correria”. Todos falam da “correria” em que estão envolvidos. Dizemos, para nós mesmos, que o problema é a correria. Isso é usado como justificativa para explicar porque não conseguimos fazer algumas coisas que gostaríamos, porque não somos donos do nosso tempo, de nossa vida. Fala-se também da “falta de tempo”, mas os dias continuam tendo vinte e quatro horas!
O professor Ricardo Antunes estuda as relações de trabalho na contemporaneidade. Ele reafirma que o trabalho abstrato é estruturante também no mundo de hoje, globalizado.
Os produtos da Toyota, da Nissan, da General Motors, da IBM, da Microsoft, etc., são resultados da interação entre trabalho vivo e do trabalho morto, por mais que muitos autores, de novo Habermas à frente, digam que o trabalho abstrato teria perdido sua força estruturante na sociedade atual. À guisa de polêmica: se o trabalho abstrato (dispêndio de energia física e intelectual, conforme disse Marx em O Capital), perdeu a sua força estruturante na sociedade atual, como são produzidos os automóveis da Toyota, quem cria os computadores da IBM, os programas da Microsoft, os carros da General Motors, da Nissan, etc., só para citar alguns exemplos de grandes empresas transnacionais? (ANTUNES, 1999, p. 115)
Antunes afirma que as ideias de “O Capital” ainda valem, e que temos que pensar em uma classe trabalhadora ampliada. O proletariado hoje inclui novos papéis. Na luta de classes, vêm sendo criadas novas formas de exploração da pessoa pelo trabalho, em serviços sem horário certo, que nos levam ao trabalho sem parâmetros e sem direitos trabalhistas. O migrantes que fazem o corte da cana, ou a “panha” do café em nossa região são exemplo de ganho por produção. Assistindo ao documentário Carne e Osso (<http://youtu.be/imKw_sbfaf0>) vemos pessoas que são contratadas por produção, e seguem demandando tanto de si mesmas que acabam adoecendo pelo trabalho. Temos até uma doença nova chamada Lesão por Esforço Repetitivo. Trabalhadores temporários e precarizados devem ser vistos como da classe-que-vive-do-trabalho. É o caso do estudante que trabalha algumas horas para o McDonalds. Mesmo professores, vêm sendo contratados para a educação a distância sem local e horário de trabalho e pagos com bolsas, sem férias, sem seguro saúde... Enfim, enquanto se poderia esperar uma melhoria da qualidade de vida, vemos nascerem novas formas de exploração humana pelo trabalho. São adaptações do capitalismo, que renasce e permanece. Continuamos a ter as duas classes: proletários e burgueses. Proletário vem de prole e de pessoas que não tendo propriedades teriam somente seus filhos para ajudá-los como força de trabalho. Proletariado é a classe trabalhadora, ou classe-que-vive-do-trabalho. São os que vendem sua força de trabalho para alguém, ou instituição que possui os meios de produção.
Conforme a lógica de produção que vivemos hoje, pelo estabelecimento de propriedades e proprietários, os capitais financeiros, commodities, e outras formas de poder de certas pessoas sobre outras, alguns poucos desfrutam de privilégios quase sem limites, enquanto que grande efetivo de pessoas é lançado à miséria, à opressão, subserviência, ou à correria e sentimento de impotência diante de sua vida. Grande parte das pessoas encaixa-se numa condição de trabalho alienado. Essas pessoas sentem-se exploradas, ainda que sejam um elo da cadeia de produção e consumo, e tenham algum bem estar em suas vidas. Não sentem-se livres, pois só terão lugar enquanto aceitarem estar servindo ao sistema, que depende dos proprietários dos meios de produção, e dos meios financeiros.
Em relação à dificuldade para se ter vida social com qualidade existem dois aspectos que precisam ser observados separadamente. O primeiro está na relação entre os ricos e os pobres. Em nosso meio existem alguns, que poderíamos chamar de “folgados”. Esses vivem mandando e sendo servidos, como príncipes, princesas, reis ou rainhas. Não vivemos mais a monarquia há séculos, mas é como se alguns fossem da corte. Há pessoas acostumadas a dar ordens e tratar trabalhadores como se fossem servos. Algumas conseguem tirar férias em “resorts” com “all inclused”, com guias, monitores de recreação, garçons... Algumas possuem carros, casas, empresas... Enquanto isso há uma grande quantidade de trabalhadores que servem essa “monarquia”, os mais pobres, que acordam cedo todos os dias, trabalham o dia todo, mas ganham só para comer e dormir. Há “folgados” que dizem que isso acontece porque aquelas pessoas não têm “qualificação”, ou estudos. O mínimo que podemos dizer é que fazem trabalhos que são mais que necessários e úteis, e que os mais ricos servem-se desses trabalhos. Os estudos de Florestan Fernandes ajudam a entender como se formaram historicamente essas desigualdades, desde os tempos em que as terras do Brasil de hoje eram usadas como colônias de Portugal, e muitos de nosso povo eram escravizados.
Tais setores coexistem com a massa dos despossuídos, condenados a níveis de vida inferiores ao de subsistência, ao desemprego sistemático, parcial ou ocasional, à pobreza ou à miséria, à marginalidade sócio-econômica, à exclusão cultural e política, etc” (CSAL, 37). Trata-se de “uma realidade sócio-econômica que não se transformou ou que só se transformou superficialmente, já que a degradação material e moral do trabalho persiste e com ela o despotismo nas relações humanas, o privilégio das classes possuidoras, a super concentração da renda, do prestígio social e do poder, a modernização controlada de fora, o crescimento econômico dependente, etc” (CSAL, 42). (LIMOEIRO-CARDOSO, 1995, p.5)
Por ai percebemos que as raízes da organização social e dos comportamentos são mesmo dos tempos em que o Brasil dependia do rei. Havia príncipes, nobres, escravos e servos. Mas é bom lembrar que Marx e Engels afirmam que “A história de toda sociedade até hoje, é a história da luta de classes” (FERREIRA, 2007, p. 151), e eles não conheciam o Brasil e escreveram isso nos anos 1800. Esse é o panorama da diferença entre ricos e pobres.
O segundo aspecto nessa análise da vida social, é que existindo uma larga escala entre os mais ricos e os mais pobres, mesmo quem não é tão pobre está sujeito à lógica capitalista, e isso piora a vida social. A pessoa vive na “correria”, e sente-se insatisfeita com sua condição econômica. Quer sempre mais. E o pior: em geral, tanto as mais pobres quanto as menos pobres, dificilmente têm oportunidade de conviver em ambientes e situações de boa coesão social – com relações verdadeiramente comunitárias, de solidariedade, de cooperação, de ajuda mútua, de graça. Entre os poucos círculos sociais em que se vive a gratuidade podemos citar a família e alguma relação de amizade mais próxima. Mesmo o núcleo familiar vem sendo abalado pelo jeito capitalista de organizar a vida. Ultimamente as famílias têm diminuído a quantidade de filhos. Há pessoas que dizem que um filho custa caro, ou que não têm dinheiro para terem um filho. Muitos nem têm irmão ou irmã. E por isso haverá os que não terão nem tios, nem primos, nem tias. E vem acontecendo certo isolamento pelo individualismo no consumo de TV, internet e outros meios de comunicação. Mesmo debaixo do mesmo teto tantas vezes as pessoas vivem isoladas, de forma individualista.
[4] A correria e capitalismo é a mesma coisa
Entendo que a explicação para quase tudo isso está no jeito capitalista como somos educados. Para compreender melhor, seguiremos examinando algumas atitudes que fazem parte da base desse comportamento, capitalista. São elas (a) o individualismo; (b) o produtivismo (c) a competitividade; (d) a padronização; (e) a modernização.
(a) O individualismo é o “cada um por si”, a falta de sentimento de pertencimento a algum grupo social, a desvalorização das coisas públicas, comuns, coletivas. Se antes a rua, que é um lugar público, lembrava brincadeiras e encontro com amigos agora é vista como local de insegurança. Nas praças ou nos ônibus as pessoas não conversam com os outros. Os automóveis, a maioria circula com um só passageiro. Se pertencemos a um grupo de trabalho, ele não é nosso propriamente, visto que pouco ou nada participamos das decisões, e não temos participação nos lucros e resultados. Para Frigotto e Ciavatta (2006) desde meados de 1990 vivemos um agravamento e reinvenção do capitalismo, aumentando a exploração do trabalhador, regredindo em conquistas sociais como a regulamentação da jornada de trabalho e outras, e com alterações no sistema educacional que acabam por formar uma cidadania individualista, voltada para a produção. Os jovens, cada vez mais, são preparados para atuarem no mercado de trabalho, para produzirem mais rapidamente, sendo competentes, incorporando avanços da ciência e da tecnologia. Mas “o termo produtivo se refere ao trabalhador mais capaz de gerar mais-valia – o que significa submeter-se às exigências do capital que vão no sentido da subordinação e não da participação para o desenvolvimento de todas as suas potencialidades” (FRIGOTTO; CIAVATTA, 2006, p.63). Desenvolvem, quando muito, um sentido de cidadania individual, na qual não existem preocupações nem responsabilidades com o coletivo da sociedade. Em relação aos direitos humanos, quando muito, aprendem a ver somente os direitos particulares do indivíduo, dissociado de sua comunidade 1(idbem, p. 67). Falta o sentido de cidadania coletiva que é a superação da cidadania burguesa, o que inviabiliza a plena emancipação humana. Citando Marx em Trein escrevem:
Somente quando o homem individual real recupera em si o cidadão abstrato e se converte, como homem individual, em ser genérico, em seu trabalho individual e em suas relações individuais; somente quando o homem tenha reconhecido e organizado suas “próprias forças” como forças sociais e quando, portanto, já não separa de si a força social sob a forma de força política, somente então se processa a emancipação humana (Marx, id. ibid: 52, grifos do autor). (FRIGOTTO; CIVATTA, 2006, p. 67)


Os vários espaços de convivência social que temos são capturados pelas lógicas capitalistas.
Nas férias, muitos estão adotando o padrão CVC de viagens turísticas. As pessoas viajam e instalam-se em hoteis já reservados para um grupo. Dia a dia são levadas a locais “turísticos”. Há horários e programações bem estabelecidas que o grupo deve cumprir. Tudo é belo e incrível como se as pessoas estivessem realmente no filme a “A Ilha da Fantasia”, mas voltado para participação individual. A socialização, quando há é fraca. Férias tornou-se pacote que é um produto a ser negociado. Tudo é comodo pois só depende de pagamento, mas também nossa participação nas programações e realização é quase nula.
Mesmo os que se preocupam com a caridade, ou o amor ao próximo, contaminados pela lógica e pensamento capitalista cometem distorções. Algumas vezes, pensando em ajudar os mais necessitados praticamos o assistencialismo, como se a doação de algum produto significasse o amor ao próximo. As empresas falam de responsabilidade-social, mas não há responsabilidade verdadeira com as relações sociais. Algumas fazem propaganda de suas ações benevolentes para melhorar a imagem e obter mais lucros. Melhor do que doarmos algo tirado de nós em troca de um lugar no céu, é a solidariedade plena, expressa em trabalhos de cooperação, em parceria, em igualdade; a expressão do amor coletivo na socialização.
Os eventos ditos culturais na visão capitalista são como o consumo de aparatos criados pela chamada indústria cultural. É o caso do cinema. Pensemos num filme que acaba de ser lançado, do qual a grande mídia está fazendo muito propaganda, e a população está repercutindo. Muitas pessoas têm sua vontade capturada. Ao assistir um filme nos colocamos em posição passiva, neutra. Um evento cultural verdadeiro deveria envolver outras relações. A verdadeira cultura é a curtição da expressão de pessoas de nosso grupo de convívio social, e deveria incluir atos criativos e participação na apresentação artística. Em certos momentos até podemos curtir aparatos culturais gravados ou de pessoas de fora de nosso convívio mais próximo, mas não podemos perder a dimensão da participação, da troca social, de nossas identidades, de nosso pertencimento em grupos sociais.
A torcida esportiva é um divertimento muito praticado pelo mundo todo, hoje. Muitos torcem para os grandes clubes de futebol, ou para os pilotos de Fórmula 1. Em geral o torcedor não joga. Somente assiste os jogos pela TV, e “participa” dos comentários pela TV ou rádio. Nessa situação a coesão e participação social é pouca, é fraca. Há muitos comportamentos alienados e dominados. Já a torcida de quem vai ao campo de futebol e faz parte de um grupo, para muitos, é o auge de suas oportunidades de participação social. Dai a grande alegria em torno de tais momentos.
A escola, apesar da grande mídia ressaltar só notícias ruins, talvez seja o ambiente de melhor socialização de que as crianças e jovens podem dispor hoje. É geral a afirmação de que gostam dos espaços que são criados nos intervalos das aulas. Mas a aula mesmo tem servido mais para passar informações, desenvolver habilidades e competências, e em geral, é voltada para a individualidade. Cada um em sua carteira, olhando para frente. Não podem conversar, devem prestar atenção ao/à professor/a ou fazer exercícios individualmente. A escola permite uma boa convivência social, mas ensina o individualismo e a competitividade. As viagens turísticas, os atos assistencialistas, os eventos ditos culturais ou a torcida pseudo-esportiva são expressões da cultura capitalista. Além do individualismo, possuem também bases produtivistas, de competitividade, de padronização e de modernização.
(b) O individualismo é associado ao produtivismo. Esse é o sentimento de que devemos aumentar a produção das coisas com as quais estamos envolvidos. A palavra “desenvolvimento” é associada ao crescimento econômico, ao aumento anual da produção de um país, ou instituição. Conforme essa ideia não podemos “desperdiçar” tempo. Tempo é dinheiro. Dai, não se pode ficar discutindo ou refletir críticamente sobre as situações, para não perder produção, ou não diminuir o tanto que conseguimos produzir. A lógica instituida faz crer que devemos seguir decisões técnicas, vindas de fora, que seria melhor fazer algo sem questionamentos, e que não se pode abrir espaços para reflexão coletiva, que é vista como polêmica. Produtivismo é querer sempre mais, maior. É mais do mesmo.
(c) A competitividade começa pelo princípio da livre concorrência. Por nossa educação social, hoje, parece inquestionável que as empresas tenham o direito de vender seus produtos pelos preços que quiserem. Mas existem condições muito desiguais, e quanto maior a complexidade da produção, devido aos progressos da ciência, tecnologias e organização industrial-comercial, mais difícil que pessoas ou empresas pequenas possam concorrer em igualdade com as maiores. Não poderemos nos aprofundar em análises de produção e mercado nesse artigo. Um exemplo dessa desigualdade pode ser a publicação e distribuição de um filme de cinema ou TV. A distribuição e a propaganda dão as condições para a desigualdade. Dessa forma uma produção milionária de roliúdi (Hollywood) tem grande possibilidade de ser assistida por milhões de pessoas no Brasil mesmo quando a crítica aponta que é ruim, enquanto que uma produção brasileira com poucos recursos, mesmo que seja boa e interessante, é pouco conhecida e assistida (como foi o caso do filme Cine Holliúdy, Comédia Romântica, produzido em 2013, que fala da vida no interior do Ceará). Por outro lado, acreditando que a concorrência seria mesmo livre, seguimos em busca da otimização de resultados, pela ideia de que devemos encontrar o melhor modo para fazer as coisas, economizando ao máximo, não desperdiçando nem materiais nem tempo. Por isso entendemos que devemos ser melhor que os outros, termos um produto que supera os concorrentes. A ideia de competitividade leva as pessoas a se preocuparem em superar a elas mesmas, e finalmente a sentirem-se mal porque são colocadas metas sempre além do que seria facilmente conseguido. A competitividade foi aguçada após os anos 1990 com a abertura para o comércio internacional, ideias como a reengenharia, reestruturação produtiva, mecanização, informatização e as possibilidades ampliadas de articulação entre locais distantes, pelo mundo inteiro: a globalização. Hoje, o rearranjo de um trabalho na China pode decretar o fechamento das oportunidades de trabalho no mercado de um cidade qualquer do interior do Brasil. A crença de que existe uma livre competitividade colabora para a autocobrança produtivista. Mas na verdade o que temos é uma competição viciada.
(d) A ideia de padronização está por trás das marcas e franquias (como o Cinemark; a M.Officer; a TIM, Apple, Google...) e também pelos procedimentos padronizados e pelo endeusamento da técnica. Tal modo de pensar coopera para desvalorizar a atividade criativa e o pensamento crítico e até inviabilizar os talentos e culturas regionais. Trabalha contra a diversidade cultural. Fala-se do mundo como se fosse uma aldeia global. A padronização colabora para os comportamentos colonizados, de “bom gosto” e “bem comportados”. Já dizia Adriana Calcanhoto: “não gosto de bom gosto”. O produtivismo é parceiro da padronização. Ao contrário, para as pessoas em geral, seria melhor valorizarmos regionalismos. Diversidades culturais significam distribuição de poderes e de inteligências e são o contrário de centralização, de jeito único de pensar, ou de fim da história. Também na Europa isso é percebido e existe a crítica à padronização global, em defesa dos valores locais. Vejamos o que dizem a respeito dos currículos escolares:
Embora, neste momento, a tentativa de construir um território curricular europeu se circunscreva mais a referenciais de estrutura organizacional do que à uniformização dos conteúdos programáticos, tudo indica que, a seu tempo, as opções curriculares acabarão por enfraquecer as territorialidades curriculares nacionais, regionais e locais a favor da legitimação de um conhecimento escolar internacional que represente não só as metas educativas e formativas que cada nação deve concretizar no quadro da Comunidade Europeia, mas também os interesses de certos sectores de influência e dos grupos sociais e económicos dominantes que se movem nesse contexto. (MORGADO, 2010, p. 257)
Até a escola segue a ideia de padronização internacional.
(e) A modernização é outro defeito do nosso modo de pensar, em geral. Fala-se de ser moderno ou da importância de ser uma pessoa atualizada, e isso acaba instabilizando valores tradicionais de qualquer tipo, não pelo desmérito ou pela superação, mas só porque existe algo mais recente, que está na moda. Isso favorece a obsolescência de produtos. Esse modo de pensar leva ao consumismo, ou hábitos exagerados de consumo, à compulsão por compras e por produtos recém lançados. Quando se pensa na educação continuada das pessoas, a modernização leva cada um a informar-se para mostrar-se atual, leva à reprodução acrítica de novos procedimentos e habilidades técnicas, e ao exibicionismo dessas habilidades, produtos ou informações e desfavorece o aprender crítico, e pessoal, de experiência feito. Por isso devemos sempre desconfiar, duvidar, ser críticos. Nem sempre o “padrão fifa” será algo melhor. Nem sempre o que é internacionalmente aceito e usado, que dizem ser o mais desenvolvido, será melhor para nós. Cortella fala de uma obsessão evolucionista (2003, p. 51). Para ele o inconsciente coletivo do mundo ocidental se apoia em três ideias equivocadas: a de que o passado é sinônimo de atraso e de ignorância inocente, a de que a racionalidade sempre nos levará a progressos, e a de que a ciência levaria sempre ao bem.
Pode haver outras, mas essas cinco ideias estão na base do capitalismo, advém da lógica do lucro, e ajudam a entender o que estamos chamando de cultura capitalista, jeito capitalista de pensar. São ideias cultivadas e realimentadas constantemente em nossa cultura – individualismo, produtivismo, competitividade, padronização, modernização.
[5] Ainda existem organizações comunitárias
Para Christianne Gomes os momentos de lazer e os eventos lúdicos são as melhores situações para experiências interculturais revolucionárias e isso pode ser uma importante dica para a educação transformadora. Existem certos espaços de organização social (de lazer e cultural) que produzem possibilidades de relações sociais muito melhores do que as que encontramos no convívio social costumeiramente. O “ lazer pode ser uma (e não a única) ferramenta muito importante para mobilizar experiências interculturais revolucionárias, contribuindo assim com uma educação para a transformação social e cultural” (GOMES, 2010). Nessa busca, por anos, de relações sociais e de relacionamentos melhores entre as pessoas, situações que sejam mais comunitárias, hoje considero que tenha encontrado/percebido algo realmente importante. Consigo identificar situações sociais (várias), que ainda existem em alguns lugares e resistem, praticadas com a naturalidade das coisas que fazem parte da cultura, nas quais a lógica de base não é capitalista e sim comunitária. Esses exemplos podem significar para nós todos que é perfeitamente possível viver de uma forma mais comunitária e com maior felicidade. Vou falar da Folia de Reis e da Farinhada Comunitária. Mas poderia falar também das Escolas de Samba, do Congado, do Bumba Meu Boi, das Festas Juninas, do trabalho voluntário e certamente existem outras situações como essas.
Sei que não vou conseguir explicar bem o que acontece na Folia de Reis porque eu nunca fui integrante de um grupo desses. Sou somente observador. Mas o que pude perceber é que as pessoas falam com grande entusiasmo dessa festa comunitária. Olhando somente a festa, não dá para se entender completamente. É bonita, interessante, mas a aparência não explica a alegria com que os participantes falam e participam da festa. O motivo, entendo que venha das oportunidades de convivência comunitária e gratuita que são gerados desde os momentos anteriores à festa, meses antes, quando as pessoas se reunem em preparação a ela. Ali vão se estabelecendo contratos de parceria e de responsabilidade voluntários e espontâneos. Não existe uma relação de lucratividade, nem de recompensas formais, nem alguém que explore o trabalho dos outros. É importante observar que as pessoas trabalham para fazer roupas e para ensaiar cantos e danças, mas não receberão nenhum salário, ou favor em troca disso. E não é trabalho escravo, pois vai quem quer, e tudo é feito pelo prazer da participação. O modo de aprender e ensinar sobre a festa não separa as pessoas por idade, não tem horário certo, nem um planejamento duro. Tudo é informal e com flexibilidade. Mas existem estruturas condicionantes que são habituais. A Folia é um todo que se compõe por grupos menores. A pessoa que é convidada ou aceita para fazer parte de um grupo sente-se lisonjeada, porque acreditaram nela, porque o grupo quer sua participação. Durante dias e dias as pessoas daquele grupo se encontram e convivem em clima de liberdade e graça ao preparar roupas, cantos, danças e outras coisas que farão parte da festa. No dia marcado, realizam tudo o que foi preparado, em conjunto, e são vistos pelo restante da comunidade. A festa acontece nas ruas mas é como num palco, em que as pessoas se apresentam e são vistas e admiradas. Ficam felizes por terem se apresentado e receberem elogios. Mais que o dia da festa, todos os dias de preparação constituem o interesse e prazer das pessoas em participar. Fazem com que sintam-se pertencentes a um grupo social. Criam laços comunitários de afeto, respeito, competência... Enfim, uma experiência dessas merece ser estudada em separado. O certo é que os participantes sentem grande felicidade ao se articularem em grupos de trabalho comunitário.
Durante um certo tempo eu observava experiências como a Folia de Reis e imaginava que aquelas relações de felicidade e gratuidade só fossem possíveis para festas, ou eventos diferentes do “trabalho socialmente necessário”. Mas em janeiro de 2014 tive a oportunidade de conhecer a Farinhada Comunitária que, embora os participantes relatem que é algo tão prazeroso quanto uma festa, tem o objetivo de produção de farinha de mandioca para alimentação, e portanto é um trabalho pela necessidade da subexistência. Participei do Projeto Rondon, no interior do Maranhão, município de Barão de Grajaú, a 7h por estrada de rodagem de São Luiz. A farinhada comunitária é um exemplo de que o trabalho por organização não capitalista é possível. As pessoas afirmaram que é melhor do que novela pois, naqueles dias, nem lembram de ligar a TV. Um grupo de pessoas da comunidade trabalha em mutirão na produção da farinha, a partir da colheita de mandioca. A farinha resultante pertencerá somente à família que a plantou. O trabalho de todos naqueles dias não é cobrado nem recompensado. Existe sim uma ajuda mútua. Outras pessoas do grupo também plantam mandioca e receberão ajuda comunitária quando fizerem sua colheita. Mas não há um parâmetro para medir quanto cada pessoa trabalhou, quanta mandioca foi trabalhada. Não existe a preocupação capitalista de medir o trabalho e a produção, nem há salários, nem lucro. Até pessoas que não plantam mandioca gostam e querem participar, visto que são momentos de convivência com boa coesão social, e que as pessoas sentem o prazer de ajudar, e de terem sua presença e participação reconhecidas pelo grupo. Existem cantorias para alegrar certos momentos. Os trabalhos são vários. No primeiro dia as pessoas descascam a mandioca. Cada um/a leva o seu banquinho, sua faca, que são os instrumentos de trabalho. Algumas coisas são mais para os homens e outras são geralmente feitas pelas mulheres. Destaca-se uma outra relação de trabalho, que não é capitalista, mas comunitária, e as pessoas trabalham com prazer e harmonia. O trabalho dessa forma é percebido pelas pessoas como algo melhor do que o divertimento mais usual: a novela da TV!
Ligando com as ideias de Christianne Gomes, entendemos que essas, cada vez mais raras, expressões culturais tradicionais como a Folia de Reis e a Farinhada são exemplos de situações reais de lazer e de trabalho comunitário que podem levar as pessoas a compreenderem a acreditar numa sociabilidade diferente da capitalista. Não adiantaria pensarmos em criar grupos de Farinhada ou de Folia de Reis em lugares em que essas manifestações não são tradicionais. É possível sim, procurar, em cada local, coisas semelhantes que possam ser vistas como sementes de uma nova socialização. Trabalhar essas sementes, nos leva à esperança de que elas poderão significar a base de grandes mudanças. Mas não temos ilusões de que manifestações como as tradicionais sejam espaços de forte consciência contra a cultura capitalista. Para tanto, será imprescindível ainda o apoio de uma educação para além do capital (MÉZSÁROS, 2008). Um trabalho de educação com “contrainternalização” ou contraconsciência. E isso é um novo assunto, o qual não aprofundaremos aqui.
[6] Capitalismo na universidade, relação com a natureza e grande mídia
Para completar o olhar sobre a organização capitalista em nossas vidas hoje, é preciso considerar sua relação com a universidade, com a natureza e com os meios de comunicação. Observamos que a cultura capitalista está também nas universidades, um dos ninhos da ciência e tecnologia. Existe uma lógica que envolve financiamentos que patrocinam pesquisas e determinam direcionamentos. De diferentes formas influenciam e chegam a determinar como serão os parâmetros de avaliação de resultados e as políticas de ação na educação e nas universidades. O capital econômico, por estratégias complexas e nem sempre claras, torna-se proprietário das decisões maiores na universidade. Hoje é geral a queixa de docentes sobre as pressões produtivistas no trabalho universitário. Por isso é importante estabelecer bases nas universidades para se contrapor ao produtivismo. No encontro “MST e a pesquisa” na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em 2014, discutiu-se a importância da sintonia da formação com os desafios da realidade, e a reconstrução das bases culturais política, agroecológica, social... O tão falado tripé ensino-pequisa-extensão se tornaria real, considerando-se que os problemas e desafios sociais e produtivos de certa comunidade seriam a base de projetos interdisciplinares, interdepartamentais e interinstitucionais; o ensino e estudos se desenvolveriam pela resolução de problemas da realidade prática; e naturalmente esses estudos seriam também pesquisa e diálogos de extensão universitária. Nessa perspectiva reconhecemos a importância dos laços que vêm sendo criados entre professores da Ufla, da Unifal, do Ifsuldeminas, e integrantes do MST, em torno de projetos que se realizam nas áreas de acampamentos e assentamentos da região do Sul de Minas, e tantos outros militantes de movimentos sociais que fizeram parte do Curso de Realidade Brasileira local.
Em nossa relação com a natureza também temos problemas devido ao modo capitalista de organização social. A lógica de produção, consumo e desenvolvimento que vem sendo praticada, e que é a matriz do capitalismo, desrespeita, degrada e destrói a natureza. Não se sustenta. Pela lógica do lucro pratica-se a monocultura, o uso de venenos e fertilizantes químicos, o uso de sementes transgênicas, e um modelo de organização produtiva que vem aumentando a dependência dos pequenos produtores em relação a grandes corporações internacionais, fabricantes de venenos, sementes modificadas e fertilizantes químicos. Nesse sentido existe um movimento pela agroecologia que busca se afirmar, em contraposição ao agronegócio e à produção para exportação.
Vemos ainda que, diante da complexidade da sociedade atual os meios de comunicação de massa (mídias) fazem parte do centro do poder. Sendo assim, naturalmente são disputados pelos grandes grupos empresariais e econômicos. Não somente para a propaganda de seus produtos, mas para um noticiário que ampare suas ações e arrumações sociais, e ainda uma programação novelística e de arte que também sirva de ancoragem para o modo capitalista de pensar. A má fama dos políticos e a imagem de respeitabilidade das grandes marcas é uma construção subjetiva, realizada com o apoio dos meios de comunicação de massa (TV, web, jornais, rádio etc.). É fácil entender que esses espaços de comunicação sejam disputados e dominados pelos grupos mais poderosos da sociedade hoje. Alguns fatos como os que são citados nesse trabalho, cuja referência é o jornal Brasil de Fato, não são mostrados pelos jornais de maior circulação. Em contraposição, as esquerdas devem entender que também precisam ocupar os espaços de comunicação de massa. Mas, se há tantos problemas como explicar que o capitalismo renasce e está cada vez mais forte?


[7] Grandes capitalistas e a roubalheira dos bens públicos.
O que sustenta e reforça a cultura capitalista são seus poderes. O poder do capitalismo está em muitos lugares: desde os empresários, donos dos meios de produção de bens, incluindo os investidores ou banqueiros, passando pelos governos nacionais, organismos internacionais, a universidade, meios de comunicação de massa... Em nossa cultura é comum que se fale mal dos governos, dos governantes e da classe política, e ao mesmo tempo as grandes empresas nacionais e transnacionais gozam de uma imagem de respeitabilidade, como se fossem justas e éticas. Mas a realidade não condiz com as imagens e sentimentos que, em geral, as pessoas têm. O poder público, o poder de decisão e mando nas coisas da sociedade está nas mãos do que chamamos de políticos. Nessa classe incluímos as pessoas e instituições do poder executivo (governos federal, estaduais e municipais) bem como o poder legislativo: deputados, senadores, vereadores. O judiciário escapa dessa má fama. Mas na realidade podemos perceber que as grandes corporações nacionais e transnacionais têm mais poder que os governos e que acabam por controlar e manipular a classe política. A roubalheira dos bens públicos sustenta e reforça o poder dos capitalistas. Embora as corporações e grandes empresas consigam criar uma imagem de respeitabilidade na sociedade, existe uma forte apropriação dos recursos públicos (dinheiro) em benefício dos grupos mais poderosos. Essa apropriação é indevida, antiética, ilegal, e é o que podemos chamar de roubalheira. Em geral, o povo não associa uma dessas empresas a suas desgraças ou falta de condições de vida. Mas isso acontece e precisamos tomar consciência para nos contrapor. A roubalheira se realiza por três vias: (a) O falseamento da democracia; (b) corrupção; (c) sonegação de impostos.
[8] Falseamento da democracia
O falseamento da democracia acontece pela manipulação das campanhas eleitorais, e pela cooptação ou parceria de empresas com pessoas que são eleitas para cargos políticos. O primeiro ponto que destaco é o financiamento de campanhas eleitorais. Hoje é difícil que os candidatos consigam se eleger se não contarem com certa quantidade de dinheiro para sua campanha. Por outro lado, uma campanha bem-feita, consegue eleger um candidato pouco conhecido com certa facilidade. E uma boa campanha eleitoral pode ser conseguida com dinheiro. Assim, quem tem grande poder econômico acaba fazendo doações aos candidatos e com isso dá condições para sua elegibilidade. Mas, com que propósito estariam fazendo tais doações? Será que tais empresários conseguiriam recuperar o dinheiro gasto com a ajuda dos candidatos, depois de eleitos? Existe no país, há tempos e tempos, uma elite que consegue eleger candidatos aos mais altos cargos de poder da nação, por meio do financiamento de campanhas eleitorais e estratégias de “marketing” político.
Passadas as eleições os grandes grupos, nacionais e transnacionais, por meio do controle que exercem sobre os governantes, conseguem fazer aprovar leis e programas de governo a seu favor. Segundo o jornalista Alceu Luis Castilho, o Brasil tem um sistema político ruralista. Ele fez uma pesquisa meticulosa por mais de três anos. Observou mais de 13 mil declarações de bens e concluiu que, entre 2008 e 2010, setenta e sete políticos eleitos têm em seu nome mais terras do que o país Porto Rico. Observa ainda que a empresa JBS-Friboi foi uma das que fez mais doações para campanhas de políticos. Depois, na votação em 2011 do Código Florestal, da bancada de eleitos entre os que receberam doações, só um deputado votou contra o projeto (BRASIL DE FATO, 2012, p. 7).
A política é comprada ou corrompida pelo capital. As leis e programas de aplicação de recursos públicos são direcionados mais para favorecer aquela elite e seus negócios do que o povo. No final do ano passado a Odebrecht conseguiu que Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) “comprasse” uma parte (Subsidiária) daquela empresa, envolvendo um bilhão de reais, após “vencer” a concessão para exploração do aeroporto do Galeão. As pessoas ficam à merce de tais lógicas, sentindo-se impotentes. Dentro da legalidade, mas invadindo campos antiéticos e até ilegalidades, esse poder econômico segue se apropriando de decisões e bens públicos e até determinando votação de leis que os beneficiarão. O problema não é só porque sejam donos dos meios de produção, mas o controle hegemônico que exercem sobre a sociedade, e a roubalheira na luta pelo poder. Nesse jogo político conseguem a liberação de fundos de programas, para favorecer suas empresas e interesses; conseguem a aprovação de orçamentos, projetos e programas que os favoreçam. Essa elite acaba tendo mais poder que os governantes eleitos. Subverte o poder público em benefício próprio, mas não visando o bem do povo em geral. Para nos contrapor ao falseamento da democracia e das eleições, precisaremos formar pessoas mais conscientes, dar maior importância às eleições e aos partidos, escolher candidatos por critérios melhores e não nos deixar influenciar tanto pelo “marketing” político. Mesmo as votações e decisões públicas poderiam funcionar com maior participatividade. A participação popular não deveria ser somente nas eleições. Poderíamos ter uma democracia mais participativa. Precisamos educar o povo e a nós mesmos para a participação na política e para uma política de maior abertura à participação popular.
[9] Corrupção
A corrupção é outro meio pelo qual grandes corporações obtém vantagem econômica, o que significa que estão desviando dinheiro do povo para seus interesses particulares. O desvio de dinheiro público para atender a interesses privados, é absolutamente criminoso. O que deveria ser usado para atender o povo em geral é desviado para favorecer os que têm poder, que são os que já detém os maiores capitais. A mídia (TV, jornais, revistas, rádio) culpabiliza o governo. É comum que, ao criticar a roubalheira da corrupção, se defenda, sutilmente, a ideia de que a solução seria termos menos poder público e mais iniciativa privada. Não se fala dos corruptores. É certo que quem compra um governante corrupto é alguém que tem dinheiro para tanto. Também é certo que o corruptor irá ganhar muito mais do que paga, visto que se fosse dar no mesmo seria melhor não se arriscar. Em nossa cultura o corruptor fica escondido da comunicação de massa e do senso comum. Mais do que ficarmos contra o governo e o Estado, precisamos nos colocar contra a bandidagem e entender que há grupos de poder econômico que estão por trás dos governantes.
[10] Sonegação
Finalmente a sonegação é outro artifício da bandidagem dos poderosos. Essa elite é proprietária de grandes corporações internacionais. Por trás de uma imagem de respeitabilidade existem operações duvidosas, secretas ou ilegais como a evasão de divisas para paraísos fiscais, subtraindo do devido imposto, ou da cota de participação pública, como nessa notícia: “Sonegação dos ricos é 25 vezes maior que corrupção nos países pobres” (BRASIL DE FATO, 2014, p. 14). Existem trabalhos de convencimento da população que tentam falar mal dos impostos, como é o caso do “impostômetro”, artifício criado pela Associação Comercial de São Paulo e fortemente apoiado pelos meios de comunicação de massa. O que desejamos é mais Estado e não menos impostos. Somos contra a roubalheira, mas não contra o poder público. O contrário de forte poder público é o poder privado. Essas ideias mostram-se turvas para as pessoas, em geral. Em contraposição à ideia do impostômetro foi criado o sonegômetro. Enquanto que o pessoal da direita, como a Revista Veja, se esforça para maldizer o Bolsa Família, a sonegação parece não importar tanto. Espantam-se com os 21 bilhões de reais usados com esse programa em 2012, e afirmam que o Bolsa Família não funciona, e que o programa é usado como vitrine do governo (VEJA, 2013). Porém um estudo mostra que “em menos de 100 dias, o país deixou de arrecadar mais de R$ 106 bilhões” em impostos (R7, 2014). Ou seja, um ano de sonegação daria para pagar dezoito anos de Bolsa Família! E lembremos que para famílias numerosas, com mais de cinco crianças, o benefício não chega a trezentos reais por mês! Infelizmente essas lógicas de poder têm estruturado a política e a economia. As grandes empresas nacionais e transnacionais têm mais domínio nos países do que os governos. Esse fenômeno não acontece só no Brasil. E não são só estrangeiros que nos roubam e nos reprimem, há também brasileiros com grande capital que fazem parte desse jogo. Além de incriminar tais grupos de poder, devemos também criar condições para ter lógicas de participação pública que superem tais estruturas, como a lei 8243/2014 - que instituiu a Política Nacional de Participação Social. E nesse ponto entendo que é preciso ter mais unidade da classe trabalhadora, com sindicatos, associações e conselhos, bem como mais educação e informação. Escola e meios de comunicação de massa precisam ser ocupados pelas esquerdas para trabalharem em outras lógicas que não essa, do capitalismo.


Considerando o falseamento da democracia, a corrupção e a sonegação podemos entender que esse poder todo não é legítimo. As grandes corporações são mantidas pela roubalheira que se dá pelo financiamento de campanhas, favorecimentos de governos e legislativos, corrupção e sonegação. Alguns dizem – não poderíamos afirmar que todos os ricos são ladrões. O que precisamos cultivar é uma relação melhor entre trabalho e direitos, e menos diferenças econômicas.


[11] Mais que revolução política: educação!
O olhar ao longo da história pode nos dar a certeza de quem está por trás dessa articulação. Quando um governante fica mal visto, cai em desprestígio, sai da política e do governo, isso não abala a turma que está por trás dos financiamentos de campanha, do desvio de dinheiro público para interesses privados. Para lembrar só um exemplo, no dia 11/07/2012 foi cassado o mandato de Senador de Demóstenes Torres. Um ano antes ele fazia discursos criticando a corrupção no setor público, e foi até lançado informalmente como candidato à presidência da república pelo partido DEM2. Na sequência da história vemos outras pessoas que eram desconhecidas serem levadas aos cargos de poder, como Antonio Anastasia que tornou-se governador de Minas Gerais sem antes ter sido eleito para outro cargo político menor, semelhante ao que aconteceu com Dilma Roussef. Ao mesmo tempo o empresariado que está por trás das eleições, pouco se altera. Os grandes capitalistas são pouco conhecidos, não perdem seu poder (que é o capital) e que é maior do que o poder dos mandatos. Em certa medida os grandes capitalistas têm poder até sobre o judiciário como vemos no caso do jornalista Lúcio Flávio que foi condenado em 2005 a pagar oito mil reais por ter chamado de “pirata fundiário” a Cecílio do Rego Almeida. Acontece que em 2011 a Justiça Federal cancelou o registro de terras de Almeida, mostrando que as acusações do jornalista procediam3. As terras eram públicas (do Estado do Pará, da União e territórios indígenas) numa área maior que países como Dinamarca e estados como o Rio de Janeiro. O controle das campanhas políticas está com os grandes empresários. Controlam os governos, as leis, programas e financiamentos, se beneficiam da corrupção, sonegam impostos. Historicamente tudo muda, menos esse poder supra-governamental. A transitoriedade pode ser comprovada quando vemos que, num momento, novos partidos políticos são criados, em outro são desprestigiados e deixam de existir, outros são criados e ocupam seus lugares na política, as pessoas eleitas ou designadas para importantes cargos também mudam ano a ano, mas o controle e poder das grandes corporações permanece. Fala-se mal da política, dos políticos, mas não dos que estão por trás dessa armação e roubalheira. Os grandes capitalistas não são culpabilizados. Os movimentos sociais defendem que seja feita uma revolução e que as instituições de poder sejam controladas. Mas, tendo em vista aqueles dois aspectos – que os ricos oprimem os pobres; e que a cultura capitalista oprime a todos (pelo individualismo, produtivismo, competitividade, padronização e modernidade), se pensarmos numa revolução (um jeito qualquer de mudar o mundo!), não adiantaria somente que as grandes corporações transnacionais deixassem de ser de propriedade de uns poucos, e fossem do povo. Não bastaria somente tirar o capital das mãos dos mais ricos. A cultura capitalista, continuaria existindo e com ela a opressão. A opressão de uns sobre os outros, pela sede de lucro, pela competitividade... E também a opressão de cada um sobre si mesmo, se obrigando a produtividades crescentes, e vivendo em ambientes individualistas e sem graça (nos dois sentidos – sem atratividade e sem relações de gratuidade). Para pensar a revolução, entendo que devemos trabalhar nas duas frentes. A primeira é a luta para que os meios de produção sejam do Estado e assim do povo e não de certas pessoas. A segunda, é a luta para transformar a cultura de capitalista para comunitária, e mudar as pessoas em seu jeito de olhar para a vida. É preciso entender e cultivar hábitos de convivência opostos aos de individualismo, competitividade, produtivismo, padronização e modernidade.
Paulo Freire fala que as pessoas em sociedade podem colocar-se em processo de humanização. Para ele, nos anos anteriores ao golpe de 1964, a sociedade brasileira viveu uma época de transição. Na época anterior a esse período, os brasileiros, e a sociedade brasileira, comportavam-se como colônia e colonizados, a sociedade era, de modo geral, “intransitivada” em sua consciência, estaria fechada ao pensamento crítico, transitando mais no biologicamente vital, sem teor de vida no plano histórico-social.
É evidente que o conceito de “intransitividade” não corresponde a um fechamento do homem dentro dele mesmo, esmagado, se assim o fosse, por um tempo e um espaço todo-poderosos. O homem, qualquer que seja o seu estado, é um ser aberto. O que pretendemos significar com a consciência “instransitiva” é a limitação de sua esfera de apreensão. É a sua impermeabilidade a desafios situados fora da órbita vegetativa. Neste sentido e só neste sentido, é que a intransitividade representa um quase incompromisso do homem com a existência. (FREIRE, 1967, p. 34)
Naqueles anos a sociedade teria conseguido entrar num estado de transitoriedade para uma sociedade diferente. Esse primeiro estágio de mudança chamou de “transitividade ingênua”, que acreditava fosse a realidade daqueles dias [1962-1964] nos centros urbanos, que, “mais enfática ali, menos aqui, se caracteriza, entre outros aspectos, pela simplicidade na interpretação dos problemas” (ibid p. 59). A partir daquele ponto, a sociedade brasileira poderia avançar para a transitividade crítica, por meio de uma “uma educação dialogal e ativa, voltada para a responsabilidade social e política” que se caracterizaria “pela profundidade na interpretação dos problemas” (FREIRE, 1967, p. 60). Mas, infelizmente as forças conservadoras derrubaram o governo, que fora democraticamente eleito, e impuseram à força uma ditadura que durou vinte anos. Até o final da ditadura, pode ser questionado. Para Saviani a transição foi só mais uma transação:
O que chamam de transição “democrática” (1980) não teve nada de autenticamente democrático. Foi uma transação entre as elites, contra os dominados. Sarney vincula-se a Tancredo visando assegurar a manutenção da ordem econômica. “A transição somente poderia ser feita por ruptura, dentro da luta por uma forma de democracia que assegurasse à massa popular dos mais ou menos espoliados e excluídos e aos trabalhadores como classe o direito à revolução, dentro da ordem e contra a ordem.” citando Florestan Fernandes. (SAVIANI, 2012)

Para Florestan Fernandes não se pode bobear e pensar que os que estão com o poder permitirão que sejam implantadas mudanças sociais que favoreçam a igualdade, sem reagir. Para ele:
Não foi um erro confiar na democracia e lutar pela revolução nacional. O erro foi outro - o de supor que se poderiam atingir esses fins percorrendo a estrada real dos privilégios na companhia dos privilegiados. Não há reforma que concilie uma minoria prepotente a uma maioria desvalida. [...] A causa principal consiste em ficar rente à maioria e às suas necessidades econômicas, culturais e políticas: pôr o Povo no centro da história, como mola mestra da Nação. O que devemos fazer não é lutar pelo Povo. As nossas tarefas são de outro calibre: devemos colocar-nos a serviço do Povo brasileiro para que ele adquira, com maior rapidez e profundidade possíveis a consciência de si próprio e possa desencadear, por sua conta, a revolução nacional que instaure no Brasil uma nova ordem social democrática e um estado fundado na dominação efetiva da maioria. (Fernandes, 1977, p. 245-246, apud FRIGOTTO, 2011)


Nas análises de Caio Prado Junior a grande exploração do trabalhador, estabelecida no tempo do Brasil colônia teria se mantido até nossos dias. “Com a substituição do trabalho escravo pelo assalariado a grande exploração teria passado a assumir características capitalistas” (RICUPERO, 2012, p.31). Ele avalia que a industrialização não mudou “o mais significativo da vida brasileira, que continuaria a ser modelada pelo sentido de colonização” (ibid, p.32). No Brasil, apesar de termos declarado a independência política, “manteve-se a estrutura econômica e social da colônia” (ibid, p.31) que tem por base a produção de bens de alto valor para o mercado externo em grandes unidades produtivas, sendo a escravidão seu traço mais marcante e por isso “o trabalho servil seria onipresente, ou seja, estaria em todos os lugares, influenciando praticamente todos os aspectos da vida social” (ibid, p.29). Florestan Fernandes também fala de como no Brasil desenvolveu-se um capitalismo dependente que permite e requer uma combinação do moderno com o arcaico, “uma descolonização mínima, com uma modernização máxima” (FERNANDES, 1975, p.176). Por isso entendemos que a escola pública brasileira, mais que preocupada com competências, deveria ser como afirma Freire: radicalmente dialogal e ativa, voltada para a responsabilidade social e política.
Com tais reflexões justifico a importância de termos, cada vez mais, cursos abertos de educação política, como foi o 1o.CRB do Sul de MG. Devemos colaborar para que mais pessoas se questionem: o comunismo e o socialismo seriam mesmo opções ruins como falam?
Referências
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BRASIL DE FATO. Ano 10. N. 495. ALMEIDA, Guilherme. Brasil tem sistema político ruralista. Entrevista. 23 a 29 de agosto de 2012. Disponível em <http://www.brasildefato.com.br/sites/default/files/BDF_495.pdf>. Acesso em 2014.07.04
BRASIL DE FATO. Ano 12. Sonegação dos ricos é 25 vezes maior que corrupção nos países pobres. 6 a 12 de março de 2014.
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro, Zahar, 1975.
FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro : Ed. Paz e Terra. 1967.
FRIGOTTO, Gaudêncio; CIAVATTA, Maria. (Orgs.) A formação do cidadão produtivo : a cultura de mercado no ensino médio técnico / Organizado por: Gaudêncio Frigotto e Maria Ciavatta. – Brasília : Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2006. 372 p. : il. ISBN 85-86260-09-6 Disponível em <http://www.acervo.epsjv.fiocruz.br/beb/textocompleto/004669>. Acesso em 2014.06.22
FRIGOTTO, Gaudêncio. Os circuitos da história e o balanço da educação no Brasil na primeira década do século XXI. Rev. Bras. Educ. [online]. 2011, vol.16, n.46, pp. 235-254. ISSN 1413-2478. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v16n46/v16n46a13.pdf>. Acesso em 2014.04.06
FERREIRA, Patrícia M.B. A dimensão libertária da América Latina no pensamento de Florestan Fernandes. Libertas, Juiz de Fora, edição especial, p. 145-161, fev/2007.
CORTELLA, Mario Sérgio. Humanidade, cultura e conhecimento. In: ________. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 7ª ed. São Paulo: Cortez, Instituto Paulo Freire, 2003 (Coleção Prospectiva, 5), p. 21-54.
GOMES, Christianne. O lazer como campo mobilizador de experiências interculturais revolucionárias e sua contribuição para uma educação transformadora. In: Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente (Coleção Didática e prática de ensino. Livro 6: Currículo; Ensino de Educação Física; Ensino de Geografia; Ensino de História; Escola, Família e Comunidade) / organização de Lucíola Licínio de Castro Paixão Santos ... [et al.]. – Belo Horizonte : Autêntica, 2010. 734p. (Textos selecionados do XV Endipe – Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino realizado na UFMG, no período de 20 a 23 de abril de 2010). Disponível em <http://www.fae.ufmg.br/endipe/publicacoes.php>. Acesso em 2013.05.06
LIMOEIRO-CARDOSO, Miriam. Capitalismo Dependente, Autocracia Burguesa e Revolução Social em Florestan Fernandes. Artigo produzido no período em que a autora foi professora visitante do IEA – Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. (junho de 1994 a agosto de 1995). Disponível em <http://www.iea.usp.br/publicacoes/textos/limoeirocardosoflorestan.pdf/at_download/file>. Acesso em 2014.07.07
MÉZSÁROS, István. A educação para além do capital. 2.ed. São Paulo: Boitempo, 2008
R7, Notícias. Sonegômetro volta a ser colocado em Brasília nesta quinta-feira. 19/03/2014. Disponível em <http://noticias.r7.com/distrito-federal/sonegometro-volta-a-ser-colocado-em-brasilia-nesta-quinta-feira-19032014>Acesso em 2014.07.04
RICUPERO, Bernardo. Pensando com Caio Prado. Bernardo Ricupero, Ângelo Diogo Mazin. Guararema, SP : Escola Nacional Florestan Fernandes, 2012. 60p.(Série Realidade Brasileira)
SAVIANI, Demerval. Transformações históricas e a inserção do Brasil na nova ordem mundial: educação e transição democrática (1984- ...). Vídeo 38 minutos. Campinas : Unicamp-FE, 2012. D <https://www.youtube.com/watch?v=KDlydJpnhv8>. A 2014.07.23
VEJA, revista. Bolsa Família paga R$ 21,1 bilhões e bate recorde em 2012. 16/01/2013. Disponível em <http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/bolsa-familia-paga-r-21-1-bilhoes-e-bate-recorde-em-2012>. Acesso em 2014.07.04
1Vejo muito disso no dia a dia do meu trabalho no CRAS... As pessoas não sabem nem de seus direitos, quando o sabem, sempre é no sentido de correr atrás dos benefícios individuais. “O coletivo não é problema meu...” Quando falo que milito em determinado movimento, ouço várias vezes a frase: “ainda bem que tem vocês...” e mais uma vez essa pessoa se desresponsabiliza do coletivo. Acho que falta a noção de que fazendo isso, ela abre mão de si mesma, porque sem a força do coletivo, cada indivíduo está totalmente perdido! (Nota de Sarah Helena de Souza Silva, colega do CRB, que atua na Economia Solidária em Poços de Caldas, MG)
2VALOR Econômico. DEM lança Demóstenes Torres a presidente em 2014. 06/12/2011. Disponível em Acesso em <http://www.valor.com.br/politica/1125712/dem-lanca-demostenes-torres-presidente-em-2014>. Acesso em 2012/07/06
3Jornal Brasil de Fato. A tendenciosa justiça do Pará. p. 9 Edição de 22 a 28 de março de 2012.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

PROBLEMATIZANDO A EDUCAÇÃO DO CAMPO - estudo e troca de experiências

JURA 2019 UFLA - Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária
Universidade Federal de Lavras – Departamento de Educação – Prof.:  Celso Vallin – Lavras, MG – 24/04/2019

Combinar que para cada questão apresentada vamos colher a impressão de 1 pessoa da plenária, e seguimos com comentários. Se houver alguém querendo fazer um comentário maior, pode pedir. Aguardar, para que mais, e nova pessoas se posicionem. Pedir que façam anotações para organizar comentários mais consistentes.

(1) A escola pública mereceria ser o melhor lugar do mundo?  Algo tão disputado quanto concurso para juiz? Algo bonito e bem cuidado como um shopincenter?
Por que não é? Quem está deixando de assumir sua responsabilidade nisso?

(2) A escola rural deveria ser melhor ou pior do que a da cidade?
Por que é importante ter uma escola no povoado rural?
O que encontramos pelo país, em geral, é pior. Pesquisa mostra que existem
particularidades que comprometem o processo de ensino-aprendizagem e tem provocado a infrequência e a evasão nas turmas, a saber: a precariedade da estrutura física; as dificuldades de transporte e as longas distâncias percorridas por professores e estudantes para chegar à escola, a oferta irregular da merenda, e a necessidade dos estudantes realizar atividades produtivas em face das precárias condições de vida no campo (HAGE, 2006)

 (3) Uma criança de uma família que vive no meio rural tem o mesmo direito a educação que  as da cidade?
Entre 2000 e 2015 foram fechadas mais de 75 mil escolas rurais, e mais de 35 mil escolas urbanas pelo Brasil. Dados do Inep (BRASIL DE FATO, 2018).
Já em 2014 houve uma tentaiva de reação. Encontramos nas páginas do MEC escrito:
Agora é lei. Para fechar escolas de educação no campo, indígenas e quilombolas, a decisão tem que passar por uma manifestação da comunidade escolar. O Congresso Nacional decretou e a presidenta Dilma Rousseff sancionou nesta quinta-feira, 27, a Lei 12.960, publicada no Diário Oficial da União, que altera o artigo 4º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394/1996). (BRASIL.MEC, 2014)
Aqui em Lavras, recentemente, a escola rural da comunidade do Funil, deixou de oferecer a educação de 6o a 9o ano, como fazia. Em Campo do Meio, a Escola Eduardo Galeano, que funcionava dentro das áreas ocupadas, está em disputa. O fechamento, infelizmente, acontece também aqui entre nós.
Hoje pela constituição brasileira, o Estado tem o dever de garantir a "educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria" (artigo 208).
Como você imagina que se sente uma mãe ou pai quando sua criança de 4 anos sai num ônibus para frequentar a escola? E se for colocá-la num transporte que segue para a cidade?

(4) Por que está acontecendo o fechamento de escolas em povoados rurais?
Que fatores contribuem para haver menos pessoas morando no meio rural?
É notório que a modernização mudou muito as práticas no espaço agrário. Por isso sabemos de gente que vivia da agricultura, e depois não conseguiu mais se manter.
Na década de 1950 iniciou-se, no Brasil, o processo de modernização do campo, que se acentuou a partir da década de 1960 principalmente nas regiões Sul e Sudeste e expandiu para outras regiões sobretudo a partir da década de 1970. Assim, o espaço agrário brasileiro passou por significativas mudanças nas últimas décadas. A modernização trouxe um considerável aumento na produção agrícola, acentuando a exportação e contribuindo para um crescimento da economia nacional. Porém, se apresentou de maneira excludente, beneficiando apenas parte da produção, em especial aquela destinada para exportação, atendendo ao interesse da elite rural. Além disso, causou grandes impactos ambientais em detrimento do uso de produtos tóxicos sem os cuidados necessários, além de contribuir para o desemprego no campo e conseqüente êxodo rural. (TEIXEIRA, 2005)
Sabemos também dos impactos ambientais pois o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. E no atual governo vemos o Congresso aprovando a liberação de novos venenos com um risco maior para a saúde pública.  Teixeira também afirma que com
novas técnicas e equipamentos modernos, o produtor passa a depender cada vez menos da “generosidade” da natureza, adaptando-a mais facilmente de acordo com seus interesses. No entanto, por esse caminho a agricultura está cada vez mais subordinada à indústria, que dita as regras de produção. (TEIXEIRA, 2005)
É como se o campo fosse uma extensão da indústria. Uma coisa ligada à outra. A produção agrícola nem sempre é feita com o propósito de alimentar a população.
Temos grandes plantações de cana-de-açucar para a produção e exportação de álcool que é usado como energia automotiva. Nesse caso o produtor está subordinado à usina de álcool.
Podemos olhar para o produtor de soja que se subordina à indústria de rações. São muitas e diferentes as ligações da agricultura e pecuária com a indústria.
Duas grandes empresas podem ser citadas no ramo industrial ligado a suinos, bovinos e aves: a BRF que detem as marcas Sadia, Perdigão e Qualy, entre outras, e a JBS, dona de marcas conhecidas como a Friboi, a Seara,  Wilson, Swift, Amour entre outras. Essa última envolvida com o escândalo recente acusada de corromper altos políticos no governo brasileiro. Assim, em Santa Catarina é comum encontrar pequenos produtores de suinos que têm toda a cadeia produtiva (matrizes, rações, regras de funcionamento, financiamentos, vendas) dependentes desses conglomerados empresariais.
O êxodo rural está diretamente ligado ao modelo de produção. Desde os anos 1990 cada vez mais aumenta o trabalho temporário e precário. É o que vêm sendo chamado de superexploração do trabalhador, fato agravado pelas recentes mudanças trabalhistas nos governos Temer e Bolsonaro. Aqui no sul de MG temos seguidas notícias sobre trabalho escravo.
Café com certificado de qualidade “Starbucks” é produzido por escravos. [...] o Ministério do Trabalho resgatou dezessete trabalhadores rurais submetidos a situação análoga a escravidão na fazenda Córrego das Almas em Piumhi em Minas Gerais conhecida também como fazenda fartura. A fazenda ostenta diversos selos internacionais que dizem certificar as condições de trabalho, do meio ambiente, e a qualidade do café ali produzido. [...]  Selos de certificação de qualidade, de responsabilidade ambiental, ou de condições dignas de trabalho concedidos por grupos privados invariavelmente cumprem um papel de marketing e não de garantir melhores condições de trabalho ou de combater a super exploração. Isso só pode se dar pela organização independente dos trabalhadores para confrontar os patrões e os monopólios multinacionais como a Starbucks que lucram com o trabalho escravo. (ESQUERDA DIÁRIO, 2018)
A plantação de café é o mais comum entre nós. O café se insere numa demanda nacional e internacional. É responsável por boa parte da riqueza nacional.
A situação que se observa é que até pessoas que eram proprietárias de terras acabaram tendo que abandonar a agricultura quando não transformaram seu modo de trabalhar para nova estratégias e arranjos.
O Brasil é grande produtor agropecuário e vemos hoje dois modelos de produção: o agronegócio, e a agricultura familiar ou camponesa. Esses dois modelos enfrentam disputas.

Como é a vida e a escola dos filhos desses dois segmentos? Comecemos pelas crianças filhas de fazendeiros, como é sua vida escolar? Onde estudam? Como se deslocam para a escola? Como é sua escola?
Como é a vida de crianças filhas de trabalhadores rurais? Para saber isso é preciso refletir sobre ... Como é a vida de trabalhadores rurais por aqui e pelo Brasil?
É nesse viés, diante dos dois modelos de vida rural (agronegócio e agricultura camponesa) que surgem a lutas de movimentos sociais como o MST por uma educação do campo. A proposta é formar comunidades e cooperativas de trabalhadores, que possam defender-se e fortalecer-se. A proposta é que aprendam a trabalhar de forma moderna (com toda tecnologia possível), mas sem veneno, sem dependência de sementes transgênicas, sem monocultura e com equilíbrio biodinâmico, sem adubação química e mas com uso de compostagem, com domínio de toda a cadeira produtiva das sementes ás vendas para aumentar a soberania popular, sem trabalho escravo e com trocas de alimentos, sem padronizações nacionais e com fortalecimento de laços de cooperação local e regional. A agricultura camponesa é também agroecologia.
Então aqui vai um princípio da Educação do Campo. A escola deve  problematizar as diferenças entre o agronegócio e a construção da agropecuária camponesa agroecológica. Desde pequenas as crianças devem perceber essas disputas e esses modelos, suas bases, suas consequências na vida das pessoas, na identidade, na valorização de quem trabalha.
Do ponto de vista pedagógico e de políticas públicas e de organização escolar, o que podemos pensar? Que coisas a pessoa do campo poderia aprender bem, para que não precisasse mudar-se para a cidade, nem submeter-se a empregos injustos? Já pensou nisso? O que é preciso para que as pessoas do campo consigam atuar e desenvolver produção camponesa forte, rica, saudável, que respeite a natureza, com justiça social e trabalhista, solidária, feliz, sem dar margem para os preconceitos que normalmente acontecem?
Como fazer uma escola, e uma educação para uma pessoa que irá viver e trabalhar no campo? Como fazer a educação do campo para a realização humana plena? Pensemos em pessoas que não se sintam submetidas ou inferiores às da cidade, e que não sejam vistas como atrasadas ou menos capazes, que tenham plenas condições para produzirem bens para a sociedade, e manterem suas vidas com conforto e dignidade. O que fazer desde a educação infantil, no ensino fundamental, e no médio? Como educar crianças e jovens para que desenvolvam ou sustentem uma vida plena, com igualdade, e não na subalternidade, tenham orgulho dos bens culturais de seu grupo, pessoas que consigam organizar uma vida soberana e cidadã?
Para isso podemos olhar 7 fatores que vão compondo a vida da escola:

1) De que modo de organizar e fazer as aulas.
2) De que modo organizar a escola e os momentos dos profissionais (profes. e demais educadores e trabalhadores). Pensar no antes e depois das aulas, nos tempos da jornada de trabalho mas fora das aulas.
3) Que condições físicas e materiais são necessárias. O que importa? O que é preciso? Como deve ser? (prédio, instalações, equipamentos, materiais, insumos)
4) Como, nas aulas, e outras atividades escolares, conciliar e relacionar com ideias e práticas do trabalho e da produção de bens?
5) O que fazer para ensinar estudantes a assumirem um olhar crítico e uma atitude responsável na participação social?
6) Como o sistema de ensino (Secretaria de Educação e instituições educacionais oficiais às quais a escola é filiada) podem e devem colaborar?
7) O que fazer para ensinar estudantes a assumirem um olhar estético, criativo, ético e crítico?

Abaixo teremos possíveis respostas aos 7 itens, o que encerraria. Ainda podemos pensar em incluir ou reforçar, talvez
Histórico da Educação do Campo no Brasil
Como a luta de classes é central para se pensar EC (Marlene Ribeiro)
Pedagogia de Freire, Pistrak e do Movimento
Dicionário da EC e Reforma Agrária
Sujeitos ribeirinhos, da floresta, caiçara (ilhas), quilombolas, indígenas

1
Que seja uma educação libertadora, problematizadora e histórico-crítica-social, como propõe Freire em Pedagogia do Oprimido e Pedagogia da Autonomia. Para isso, as aulas não podem ser um despejar de explicações e exercícios que peça aos (e às) estudantes só a repetição do que for DADO. Espera-se uma escola que considere o desenvolvimento da autonomia dos (e das) estudantes desde pequenas e sempre. Espera-se aulas, e toda a escola, integradas com os desafios de vida daquelas pessoas e suas famílias, conforme a realidade em que vivem.

2
A organização da escola e professores/as não pode ser uma coisa burocrática, um fazer-fazer de aulas, ou de cumprimento de ordens e de hierarquia. Docentes devem dedicar tempos em sua rotina semanal ao planejamento das aulas e da ação da escola, refletindo coletivamente, e construindo propostas para ações com estudantes. Obviamente devem procurar conhecer os desafios de vida enfrentados por aquelas famílias, conhecer suas realidades e seus saberes. Para isso devem se organizar para visitá-los, para recebê-los na escola, e escutar o que têm para dizer. Isso não é esperado que aconteça de uma só vez, mas em continuidade, trabalhando para que esse contato e comunicação aconteça e se aprofunde.

3
As condições físicas e materiais das escolas do campo não podem ser precárias, e nem serem piores do que as das escolas urbanas, embora isso seja o que acontece de forma geral hoje. Em 2014 dados apontavam que nos últimos 10 anos foram fechadas 32 mil escolas do campo. Não queremos que estudantes sejam transportados para ter aulas na cidade, que passem horas dentro do transporte escolar, não queremos salas muito quentes nem mal iluminadas… Queremos TVs grandes e novas, computador e projetor de imagens, internet e uaifai(wifi) de qualidade para todos! Para isso as pessoas [trabalhadores da educação, familiares, estudantes] precisam conversar sobre seus direitos, precisam estudar as políticas públicas existentes, visitar outras escolas, investigar pela internet, precisam associar-se a organizações e movimentos sociais que sejam pelo fortalecimento de quem vive e trabalha no campo.
Juntos devem exigir seus direitos (aos poucos e sempre), fazendo lutas [no município, no estado, no país] pelas políticas, programas e verbas para a educação do campo e para sua escola. Isso se constituirá por meio de ações extraescolar.
No preparo e exercício da luta social por direitos devemos também refletir sobre a importância da assunção das identidade culturais de cada região e situação [caipiras, ribeirinhos, caiçaras, e outros], para que não tenham vergonha do que são, mas se orgulhem disso e se assumam.
Lembramos do
Decreto de 2010 (n. 7.352) que institui a Política de Educação do Campo e Pronera.
As diretrizes nacionais de 2002 para escolas do o campo
A resolução estadual SEE 2.820, de 2015, que institui diretrizes mineiras para escolas do campo.
O PAA Programa de Aquisição de Alimentos.
O PNAE – programa nacional de alimentação escolar
entre outros.

4
Ao pensar o trabalho, a produção de bens, a agricultura e pecuária é preciso que se pense numa agropecuária com soberania da classe trabalhadora, com a formação de cooperativas avançadas, com maquinaria, técnicas, ciência e tecnologia das mais avançadas, e não se fixar na pessoa do campo de antigamente, só com a foice à disposição. E para isso é importante perceber que a agricultura familiar, com técnicas e manejo agroecológico é viável. É preciso se contrapor ao agronegócio, com suas ideias de monocultura, agrotóxicos, sementes transgênicas, relações trabalhistas precárias, latifúndios, terceirização de mão de obra, priorização da exportação e subserviência a interesses de investidores transnacionais. Desde os pequeninos, a escola deve tratar as ideias de trocas de sementes crioulas, adubação por compostagem, controle natural de pragas, diversidade de produtos e sistemas agro-florestais. É preciso entender a luta de classes no campo, e como a classe trabalhadora, e cada pessoa, precisa abraçar desde a concepção até a realização de todo tipo de trabalho e tarefa. É preciso educar contra a ideia de que os pensadores são superiores e os braçais ou operadores são os que não conseguem pensar. Todos e todas têm o dever de trabalhar em tudo, e todos têm o dever de participar das concepções, das discussões, de estudos e planejamentos estratégicos. Dai a necessidade de se praticar as ideias de autosserviço e de autogestão. É preciso pensar e preparar-se para que o coletivo, a cooperativa de trabalhadores, domine toda a cadeia produtiva e assim tenha soberania sobre seus custos e seus preços de venda. Para tanto é preciso considerar:
A obtenção de matérias-primas e sementes.
O preparo do terreno e plantio.
O crescimento e o manejo e controle de pragas e da diversidade biológica.
A colheita e armazenamento.
o beneficiamento e industrialização.
As embalagens e propaganda ou divulgação dos produtos.
A logística de distribuição e venda.
Os financiamentos e investimentos.
Assim a escola prepara para a agroecologia, para o respeito e integração à natureza, e para a soberania da classe trabalhadora. Deve-se ensinar que o direito ao uso da terra é de quem nela trabalha.

5
Devemos trabalhar desde pequenos até o ensino médio para a democracia participativa e solidária. Para tanto a escola deve ser local de vivência dessa democracia, formando sempre organizações sociais (grupos de base) que abranjam todas/os estudantes, que tenham responsabilidade sobre o coletivo, que exercitem a representação de seus pares, a discussão política escolar, com participação democrática e solidária, com problematização e buscando a emancipação de todos e todas. Também as aulas e o currículo deve estar no sistema democrático solidário.

6
Como a Secretaria de Educação e instituições educacionais oficiais podem e devem colaborar?
Espera-se que as instituições do sistema de ensino sejam parceiras da escola. Dessa forma, não cabe um olhar de inspeção, nem de imposição de resultados, mas que exista abertura para saber o que a escola pensa e faz, e que as pessoas da instituição externa escute, observe e reflita, antes de falar ou pedir. Depois, espera-se que possa colaborar com a escola, ajudar a escola, especialmente nos pontos que se mostrarem mais difíceis e problemáticos. Os saberes e soluções de umas escolas podem ser compartilhados com outras. Toda a escuta, olhar e parceria externa deve considerar as mesmas discussões que foram postuladas aqui nos subitens anteriores. As pessoas do sistema de ensino, dirigentes educacionais, devem também primar por uma educação libertadora e que gere orgulho e soberania para as pessoas do campo.
Diante de situações mais difíceis em que as pessoas estejam desesperançadas sobre as possiblidades de mudanças e de melhorias, queremos que se entenda que a história é fruto das lutas da humanidade, e somos nós que a construímos. Não se conseguirá fazer amanhã o que hoje é impossível se não fizermos hoje o que é possível fazer hoje, e para isso é preciso cultivar a esperança e ter projeto para o amanhã da sociedade e do coletivo.

7
A escola precisa valorizar a arte e a estética como expressão da alegria e da reflexão crítica sobre a realidade social. Hinos, poesias, gritos, pinturas e quadros pelas paredes, bandeiras e símbolos, danças devem ser cultivadas e incentivadas. Esse eixo pode ser associado ao eixo da saúde, cultura corporal e divertimento.

REFERÊNCIAS
BRASIL DE FATO. EDUCAÇÃO NO CAMPO. Queda no número de alunos, agronegócio e falta de investimento fecham escolas no Pará. 31 de Janeiro de 2018. <https://www.brasildefato.com.br/2018/01/31/queda-no-numero-de-alunos-agronegocio-e-falta-de-investimento-fecham-escolas-no-para/>. Acesso em 2019.04.18
BRASIL.MEC (Ministério da Educação). Educação do Campo. Prefeitura deverá ouvir comunidade antes de fechar escolas rurais, indígenas e quilombolas. Assessoria de Comunicação Social. 2014. Disponível em <http://portal.mec.gov.br/component/content/article/208-noticias/591061196/20339-prefeitura-devera-ouvir-comunidade-antes-de-fechar-escolas-rurais-indigenas-e-quilombolas>. Acesso em 2019.04.18
ESQUERDA DIÁRIO. TRABALHO ESCRAVO. Café com certificado de qualidade “Starbucks” é produzido por escravos. Edição de 3 de agosto de 2018. Disponível em <https://www.esquerdadiario.com.br/Cafe-com-certificado-de-qualidade-Starbucks-e-produzido-por-escravos>. Acesso em 2019.04.18
HAGE, Salomão M. A Realidade das Escolas Multisseriadas Frente às Conquistas na Legislação Educacional. Anais da 29ª Reunião Anual da ANPED GT: Educação Fundamental/ n.13. 2006. Disponível em <http://29reuniao.anped.org.br/trabalhos/posteres/GT13-2031--Int.pdf>. Acesso em 2019.04.18
TEIXEIRA, Jodenir C. Modernização sa Agricultura no Brasil: Impactos Econômicos, Sociais e Ambientais. Revista Eletrônica da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Três Lagoas Três Lagoas-MS, V 2 – n.º 2 – ano 2, Setembro de 2005. Disponível em <http://www.seer.ufms.br/index.php/RevAGB/article/download/1339/854>. Acesso em 2019.04.18

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

DIA_DE_CAMPO

_Visita_ao_Quilombo Campo Grande - MST.
Universidade Federal de Lavras – Curso de Pedagogia Presencial - 3ºSemestre – 2018-2 – Prof. Dr. Celso Vallin
Disciplina: GDE150 - EDUCAÇÃO, AMBIENTE E AGROECOLOGIA

Adaptação do relato das estudantes.
Dentro da disciplina “Educação, Ambiente e Agroecologia”, no curso de Pedagogia, foi proposta uma viagem para se conhecer o Quilombo Campo Grande, que é uma área localizada no município de Campo do Meio, MG na qual o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, tem acampamentos e assentamentos. 


Logo que saímos da Universidade Federal de Lavras, a UFLA, já pensávamos no que encontraríamos. Criávamos todas as expectativas. Sabíamos que naqueles dias estavam enfrentando uma ordem de despejo.


Tropa de Choque no dia em que o Juiz decretou o despejo
Assim que entramos no antigo terreno da usina falida, chamada Ariadnópolis, abandonada há tempos, nos encantamos com a imensidão.
Na chegada fomos recepcionados no prédio de uma escola, pela dona Ricarda, que mora naquelas terras há 17 anos. Ela disse que veio de São Bernardo Campo, SP. Além de agricultora é educadora e já alfabetizou muitas pessoas. Falou em Pedagogia do Amor.
Dona Ricarda explicou que, antes deles acamparem ali, já existia o prédio da escola que estava abandonado e era ocupado por vacas, que procuravam por sombra. O chão ficava cheio de estrume e o ar com moscas.
Até que um dia, em mutirão, as pessoas do Quilombo decidiram arrumar o prédio. Com muito trabalho limparam, reformaram, e arrumaram tudo, para inaugurar, o que aconteceu há dois anos. Agora é a Escola Eduardo Galeano. Conquistaram apoio e a escola passou a ser um anexo de uma escola estadual da cidade e atualmente atende turmas de jovens e adultos (EJA) no período noturno e durante o dia atende crianças de sexto-ano do fundamental. A escola funciona com professores do estado. Para o trabalho foram aproveitados 2 professores do MST que passaram em concurso, além de outros da rede regular.
Uma das professoras nos contou que ainda é muito difícil o acesso à escola, pois em dias chuvosos ficava complicado o transporte escolar. A prefeitura nem sempre se empenhava pra resolver os problemas de veículo quebrado, de estrada intransitável, falta de motorista e outros. E com isso ficava difícil conseguir a necessária continuidade o que causava desânimo e mesmo evasão. Além dos adultos, as crianças também sofrem pelas deficiências do transporte escolar. 
De outro lado, falaram de uma pedagogia popular, em que não faltava união e amor por uma educação de luta pela valorização da pessoa do campo. 
Após a troca de saberes, ficamos cientes de toda a programação do dia. Participamos de uma mística que é costume do MST. 


Tivemos um momento de reflexão em que a D. Ricarda expressou-se com seu “grito de identidade”, junto aos outros. 


Depois cantaram para nós uma música linda, que nos emocionou muito. Em seguida as pessoas se apresentaram. 


Um dirigente do movimento explicou o momento difícil pelo qual estavam passando, devido à ordem de despejo, apesar de estarem lá há 20 anos.



Assim que chegamos notamos algumas pessoas trabalhando ao lado da escola. Depois que nos apresentamos e nos conhecemos eles nos explicaram que era uma fossa, pois não existia saneamento na fazenda. Eles estavam construindo de um modo que não prejudicasse o lençol freático. Essa era a segunda fossa por ali. A outra, que já estava terminada, era da casa de uma família que mora ao lado e cuida da escola. Foi muito especial esse momento pois eles tiveram toda a cautela de nos explicar o funcionamento e nos mostrar como estava sendo feita a fossa. 


Logo que entendemos o funcionamento da fossa eles nos chamaram para almoçar. A comida, eles mesmos plantaram, colheram e cozinharam, sem agrotóxicos, apenas com produtos naturais. Estava deliciosa e sentimos que foi feita com amor. Depois de alguns minutos de descanso fomos conhecer o viveiro, em um lugar lindo, cheio de verde e vida. 

Informaram-nos que a produção superou as expectativas com cerca de 500 mil mudas no ano. 

Esse projeto está sendo incrível e muito produtivo, porém vai só até dezembro. Eles estão começando a comercializar algumas mudas para ter como manter por mais tempo todo o cultivo do viveiro. 

Além disso, foram feitos dois tanques de água, um com 25 mil litros e outro com 40 mil.

Neles é depositada a água da chuva, que passa por filtros, e que depois é usada para regar a área de cultivo de mudas, economizando e reaproveitando a água.

Com toda empolgação algumas mulheres nos levaram até a horta medicinal. Lá encontramos muitas plantas medicinais. Mostraram-nos e explicaram sobre remédios naturais que poderíamos fazer em nossas casas. Elas nos ensinaram várias receitas, nos mostraram os nomes e para que poderiam ser utilizadas. Foi um momento muito especial.



Com todas essas vivências, saímos renovados, com um pensamento totalmente diferente daquele que a TV e mídia nos passam. Conhecemos pessoas fortes, lutadoras, e demos força e resistência para que a luta continue pelos direitos populares. Essa viagem foi muito mais do que nossas expectativas estavam trazendo. Foi gratificante.


Em seguida destacamos falas de algumas estudantes, no relatório pós vivência:
“Fomos muito bem recepcionados na escola por Dona Ricarda, moradora há 17 anos; alguns moradores, responsáveis que auxiliam e desenvolvem projetos na área, como o Henrique, graduado em Engenharia Florestal pela UFLA; o professor de História e Geografia; a professora de Ciências da Natureza; entre outras pessoas” 
Dona Obed
“Ali é ensinada uma pedagogia que vai além dos muros da escola e a criança também aprende com os adultos no dia a dia de forma construtiva. Ali todas as experiências e saberes são valorizados.'
 “Essa viagem foi essencial em minha vida e acredito que essa experiência foi única. Todos nós que vivemos no meio urbano ou até mesmo em área rurais deveríamos passar por essa vivência. Minha perspectiva em relação ao MST mudou completamente e pude ver o quanto a mídia aqui fora distorce as informações. Admirei a preocupação e o compromisso que eles têm e exercem com cada outra pessoa, como se fossem irmãos; um vivendo pelo outro; completamente guerreiros e lutadores. Espero ter a oportunidade de voltar e que um dia eles consigam alcançar seus objetivos de viver em paz, com direito à terra e ao trabalho justo.”
“Trago dessa experiência um novo olhar para esse movimento. Um olhar mais positivo e empático. Aprendi muito convivendo um dia com esse pessoal. Quebrei preconceitos que tinha sobre tudo isso. Foi emocionante sentir o amor deles pelo que fazem como pensam no próximo e trabalham em conjunto para um bem maior e de todos. São pessoas fortes, amorosas, acolhedoras que defendem seu povo e sua ideologia. Senti-me transformada com essa experiência, assim como acredito que muito amigos também.”

“Foi ótima a vivência. Foi grande a satisfação e emoção de conhecer um povo que sempre vimos com outros olhos e não valorizamos na maioria das vezes. Vimos a necessidade de também agarrar a causa e lutar por direitos que ele não têm, e isso é questão de humanidade e de ser emocional. A recepção foi permeada de carinho e muita emoção, porque em meio a tanto conflito, tiveram o amor de nos receber de braços abertos e demonstrar a luta, que nunca pode parar."
“O que marcou bastante nessa visita foi ver a união entre eles, o que eles produzem de forma compartilhada, os projetos que acontecem e que são muito bem organizados. “
“Essa visita pode nos proporcionar um conhecimento único, sobre o que é o movimento e principalmente suas causas e objetivos. E sobre o trabalho desenvolvido por eles no campo, e o pensamento de 'partilha', de pensar sempre nas famílias que dependem do que existe lá. Em suma, pensar em educação da maneira como eles pensam e fazem, nos permite refletir sobre as nossas práticas na cidade e quanto o campo tem muito a nos ensinar, não apenas a plantar e a colher, a cuidar da terra e proteger mais, também a educar por meio de uma pedagogia libertadora.”

“A viagem acresceu nosso conhecimento sobre ervas, plantas e principalmente sobre a luta e resistência do povo.”

“Algo que me chamou a atenção foi a forma como eles mantém o local conservado, os alimentos orgânicos que são produzidos, as mudas no viveiro... Essa forma de compartilhar com os outros tudo o que é produzido ali é o que, para eles é válido, defender e proteger o seu meio e ajudar aquele que vivem ali. // Ter esse contato direto com a vivência deles nos fez pensar como é diferente a realidade do local e o que as mídias nos passam. Eles conservam a natureza, tudo de forma simples e sem prejudicar ninguém, e passam todos esses ensinamentos para suas crianças e jovens.
“Vimos uma realidade bem diferente da nossa, e também dos movimentos que vemos na TV que muitas vezes os colocam como vilões. É impressionante a forma como eles lutam, principalmente no campo educacional. Correm atrás, buscam conhecimento, os professores que se mobilizam têm formação, agarram a causa, vão atrás dos órgãos responsáveis para abrirem escolas e mantê-las... // Agradeço muito por ter participado da visita. Abriu meus olhos para muita coisa e saí de lá uma nova pessoa.”
“Eu estava ansiosa por essa viagem, contudo, durante a semana, havíamos visto muitas notícias sobre as ameaças de despejo e essa situação estava me deixando apreensiva. Antes dessa disciplina, não tinha muito conhecimento sobre o MST, mas por meio dos materiais disponibilizados pelo professor pude me inteirar sobre o assunto. /// Um ponto que me marcou, quando estávamos conhecendo a escola foi o fato de lutarem por uma educação, de priorizarem o ensino de pessoas do campo que, muitas vezes, não vêm finalidade de estudarem pois, vão trabalhar na roça e assim torna-se difícil quebrar esse tabu.”
“Eles estavam construindo uma fossa ecológica ao lado da escola e foram muito gentis em nos mostrar. Os trabalhadores explicaram cada elemento do processo da construção e como ocorria o seu funcionamento após ser finalizada. Achei a atitude deles admirável, pois buscam sempre fazer as coisas da maneira mais correta e ecológica possível e, como eu não tinha conhecimento de um procedimento como aquele, achei interessantíssima a aprendizagem. Após isso prepararam um delicioso almoço para nós. Nesse momento, o grande destaque foram os alimentos orgânicos, sem uso de agrotóxicos. Não temos muito acesso a alimentos assim na zona urbana e a diferença do sabor foi nítida. /// As crianças são tão carinhosas e exalam gratidão em seus olhares o que motiva ainda mais a seguir o curso e a profissão de pedagoga.”
“A visita foi uma experiência renovadora, de energia e de concepções de mundo. Ver a forma como aquele povo se ama e se cuida de uma forma tão verdadeira me faz acreditar que ainda há esperança para a sociedade, me faz ter fé em um mundo melhor. Foi lindo cada pedacinho da viagem. Foi lindo conhecer esse pedacinho do MST, o Quilombo Campo Grande.”

Este relatório foi escrito com fotos e relatos de estudantes que participaram da visita.









domingo, 25 de novembro de 2018


POR QUE CRITICAM O CAPITALISMO ?

Celso Vallin, nov,2018

Nossa crítica ao capitalismo não é somente aos ricos ou à burguesia. É ao capitalismo mesmo, como lógica da vida, que segue colocando o lucro acima de tudo, mesmo entre os que não são empresários.
Para pensar sobre isso é bom questionar: Como a lógica de mercado se sobrepõe e sufoca as demais lógicas da vida?
A base do racionalismo de mercado é: “o lucro acima de tudo”! Essa premissa não é só do empresário, dono de tais lucros, e beneficiário do lucro, mas de todo o sistema que diz aos empregados que têm que “vestir a camisa” (do patrão, ou da empresa) porque se não, podem perder seus empregos. Assim, até um(ou uma) caixa de supermercado passa as compras da forma mais rápida possível, quase num desespero, sem chance para dar uma palavra com a pessoa que faz as compras, mesmo que seja alguém que se mostre precisando de ajuda, com alguma dificuldade. Imagine um(a) cliente que tem consigo uma criança que está cansada de esperar pelas compras das quais não participa e nem entende. “Perder” dez segundos para dar uma ajuda, ou uma palavra amiga à criança pode parecer, no racionalismo de mercado, um absurdo, um abuso, um desrespeito a quem vem atrás na fila do caixa, que também sente-se com pressa pela mesma lógica de que “tempo é dinheiro”.
Entre outras situações de vida, nos interessa falar sobre a escola. Lá também impera o racionalismo de mercado, que impõe uma aula em que as explicações sejam as mais diretas possíveis, e que direcionem para que estudantes sejam logo capazes de fazer as questões ou exercícios que virão em seguida. Qualquer dúvida de estudante, que fuja um pouco disso, será vista como inadequada, inconveniente, porque atrasará os trabalhos previstos e diminuirá o rendimento das aulas. Um desvio será considerado como algo que atrapalha a aula, porque aumentará o tempo para se chegar aos “exercícios feitos” e à produtividade planejada. Na escola não existe mercado, mas a lógica capitalista, do racionalismo de mercado nos leva a considerar que “explicação dada”, “exercícios feitos” e questões respondidas” são como se fossem o “lucro” da aula. O produto das vendas serão as notas em provas que atestarão o rendimento do trabalho realizado.
Esse modo de pensar, o do capitalismo, e do racionalismo de mercado, torna-se senso comum e se impregna no pensamento de toda gente, como dizem os autores a seguir:
A base desse discurso [capitalista] amplificado no âmbito planetário é um senso comum econômico, uma doxa, um sistema de crenças e valores, uma visão comum de mundo que, reduzida a seus traços mais básicos, implica extensão do éthos econômico a todas as esferas da atividade humana. Implica portanto uma redução de todas as coisas à mercadoria e a transformação de todas as pessoas em agentes propriamente econômicos.(1)
Os que defendem o capitalismo rotulam-se de liberais, palavra que deriva de livre e liberdade, mas a realidade mostra que é diferente. Empresários de todo o planeta usam mecanismos pelos quais certo grupo domina uma parte do mercado já desenvolvido, e não permitem a entrada de qualquer um, mas somente de pessoas ou empresas que possam ser inseridas numa cadeia de comando e dependência já existente. A livre concorrência é algo que só acontece em certos momentos e quando escapa ao controle existente. Não existe livre concorrência. Os capitalistas lutam para que não exista. Como exemplo podemos ver as lojas que vendem automóveis novos que são chamadas de concessinárias porque só podem funcionar com autorização das empresas montadoras; existem os distribuidores de jornais que precisam de autorização da empresa editora; as linhas de ônibus, dependem de autorizações que vêm do poder público, mas em muitos casos são monopólio e fruto de disputas empresariais, algumas que geram até assassinatos. Esses e muitos outros exemplos, que podem ser encontrados, mostram que existe uma organização macro-econômica-social que controla o mercado. Mesmo que uma pessoa, ou empresa, tenha dinheiro e capital suficiente, precisa submeter-se às regras e ser aceita pela parcela de empresários que controla dado segmento do mercado. Formam-se redes de controle e o mercado, apesar de ser grande não é livre. Trata-se de um emaranhado de redes de poder e controles que vão além do fator econômico. Dantas (2) lembra que não é certo dizer monopólio mas oligopólio: uma situação em que poucas empresas detêm o controle da maior parcela do mercado.
De outro lado podemos refletir: quem é mais livre? Uma pessoa que se permite “perder tempo”, ou perder resultado, para ser solidária com quem precisa? Aquela pessoa que se dedica à sociedade, em geral, e que trabalha em lógicas sociais que favoreçam grupos historicamente oprimidos? Ou, liberdade significaria a pessoa fazer o que a vontade lhe indica ? Como defender um ponto de vista sem considerar o coletivo, a sociedade? Não “perder tempo” é ser livre?
Vale refletir. Até que ponto queremos deixar a lógica de mercado mandar em nossa sociedade?

REFERÊNCIAS
  1. BIANCHETTI, Lucídio; VALE, Ione R.; PEREIRA, Gilson R.M. O fim dos intelectuais acadêmicos: induções da Capes e desafios às associações científicas. Campinas, SP : Autores Associados, 2015.
  2. DANTAS, Gilson. Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises. Brasília, 2012. Disponível em <http://www.esquerdadiario.com.br/capitalismo-um-sistema-senil-por-que>. Acesso em 2018.11