terça-feira, 5 de janeiro de 2021

DEPENDÊNCIA OU SOBERANIA SOCIAL

Jan 2021 - Celso Vallin


Quero analisar como uma região territorial pode se tornar dependente, ou ganhar autonomia. São dois processos sobre os quais vamos refletir. Muitas vezes vemos uma região em que as pessoas são pobres e têm muita dificuldade para cuidar da vida. Ficamos pensando sobre: o que poderia mudar aquela situação? De outro lado, temos também regiões muito ricas, com tudo muito bonito, onde a vida é fácil. O que poderia colaborar para transformar uma situação de pobreza? Será possível e viável?

Para refletir, começo pela descrição de uma situação real que conheço. Uma amiga tinha uma terra que foi, há muitos anos, uma fazenda produtiva, de seu avô, bisavô, e depois de seu pai. Mas ela morava na cidade grande e a terra estava lá, abandonada, fazia tempo. Embora tivesse boas lembranças, e saudades, da vida de criança na fazenda, não se sentia em condições para recuperá-la. A fazendo estava parada. Tinha até vontade de fazê-la voltar a funcionar, e sonhava em viver nela, no lugar de viver na cidade, mas não se sentia capaz. Mesmo assim, vivia a dúvida, e considerava que na fazenda poderia, talvez, ter uma vida melhor do que estava tendo na cidade. Até que um dia apareceu uma proposta de uma empresa para plantar eucalipto naquelas terras. E mesmo morando longe, a proposta se tornou viável. Bastou assinar um contrato, para que fizessem tudo o que fosse necessário. Dessa forma ficou muito fácil. A empresa plantou mudas compradas aos milhares, mas antes preparou a terra. Durante o crescimento das árvores, algo perto de seis anos, a empresa cuidou de tudo. Em certa época foi feito um controle para as formigas não atacarem, em outra época cortaram certos galhos, para o crescimento ser do modo esperado, fizeram adubação química... E quando os pés de eucalipto já estavam grandes, a própria empresa deu um jeito de serem cortados, a madeira foi preparada para ser transportada por caminhões, que vieram e levaram para venda. Então, não foi necessário fazer nada. Só foi preciso declarar parceria, por meio do contrato, com aquela empresa. A pessoa entra com a propriedade da terra e a empresa colabora com todo esse trabalho. Mas não se pode dizer que essa empresa faça os trabalhos, porque tudo é subcontratado. São várias outras empresas menores que são contratadas para cada fase do empreendimento, e existe um custo para cada serviço prestado. As empresas contratadas para os serviços nem são do local, mas se deslocam de outros municípios, algumas vezes vêm de longe, para realizar tais trabalhos. Um banco financia tudo, tendo como garantia a propriedade da terra. A pessoa não precisa ter dinheiro nenhum. Quando chega no final, e a madeira é vendida conforme o preço de mercado, as contas são acertadas. De tudo o que for recebido, descontam-se as despesas que houve durante a produção, e mais uma taxa de lucro para a empresa que cuidou do negócio, e o restante fica para a dona da terra. Esse esquema de produção parece muito interessante. Mas quero comentar que isso pode fazer parte de uma situação que vai seduzir pessoas que vivem numa região, e, embora pareça ser uma facilidade e uma vantagem, ao longo do tempo, esse esquema acaba gerando dependência. Quero refletir ainda sobre o problema de se gerar dependência. Nesse caso que tomei para exemplo, minha amiga, já não morava mais na terra há anos, por outros motivos. Aquela pessoa já tinha ido embora para a cidade grande, buscar outros meios de vida. Mas muitas pessoas acabam entrando nesse mesmo esquema, como uma alternativa a outros modos de produção e subsistência, porque não estão conseguindo bons rendimentos de outra forma, ou porque não precisar trabalhar, é mais fácil, mais seguro... E qual seria o problema? Inicialmente parece uma boa opção. Mas vamos problematizar, mostrando que isso não é bom para a região, que passa a perder autonomia e soberania.

Eduardo Galeano, em Veias Abertas da América Latina, mostra como os europeus, espanhóis e outros, vieram aqui para a América do Sul, e para a América Latina, México, Caribe... E, com o passar do tempo, todo o sistema de vida dos indígenas, que eram os maia, os astecas, e os incas, além dos indígenas brasileiros, acabaram perdendo sua capacidade de organização, trabalho autônomo e sustentação da vida. Galeano fala que o modo de agir dos colonizadores mudou toda a vida do povo que, inicialmente era bem organizado e que tinha uma boa produção, com milhões de habitantes, sabedoria, e muitas realizações. A situação os transformou em pobres e incapazes. As regiões também se tornaram pobres. As regiões de mineração de ouro, prata e mercúrio, tiveram períodos de grande riqueza, que até hoje chamam atenção pela grandiosidade, pela história, e pelo que ficou em igrejas, monumentos, objetos de arte... Tudo muito maravilhoso, mas na época havia uma desigualdade grande, e depois, toda essa riqueza acabou se transformando em pobreza. E as cidades diminuíram e vivem hoje com monumentos fechados, abandonados, pouca produção, e cheios de problemas para conseguir se sustentar e viver. Olhando para essa história, percebemos que o que determina uma boa vida, um bem estar social, não é a riqueza natural, nem a tecnologia, o conhecimento e o progresso. Vemos que antes daquele período, os indígena não conheciam a roda, nem usavam cavalo, não conheciam o ferro, nem a pólvora, mas tinham plantações com irrigação artificial, que criaram, tinham grandes plantações de milho, mandioca, feijão, amendoim, batata-doce, além da organização social. E por serem povos muito numerosos, e pelas obras que deixaram, podemos saber que tinham sucesso. Depois, apesar dos europeus trazerem consigo novos conhecimentos, novas tecnologias, o que acabou resultando naquelas regiões foram cidades com menos gente, e abandonadas. Aquilo foi um projeto de desmanche. No trecho que mostramos a seguir, podemos ver detalhes da riqueza, e de como os indígenas, habitantes originais, eram mal tratados.

O padre Marmolejo descrevia mais tarde a cidade de Guanajuato, atravessada pelas pontes, com jardins que tanto se pareciam com os de Semíramis na Babilônia, e os templos deslumbrantes, o teatro, a praça de touros, a arena de galos e as torres e as cúpulas alçadas contra as verdes encostas das montanhas. Mas este era "o país das desigualdades", e Humboldt pôde escrever sobre o México "Em lugar algum a desigualdade é tão espantosa (...) a arquitetura dos edifícios públicos e privados, a finura do enxoval das mulheres, o ar da sociedade: tudo anuncia um esmero extremado que se contrapõe à nudez, à ignorância e à rusticidade do populacho". Os socavões [da mineração] engoliam homens e mulas nas encostas das cordilheiras; os índios, "que viviam apenas para sobreviver ao dia", padeciam de fome endêmica, e as pestes os matavam como moscas. Num só ano, 1784, uma onda de enfermidades provocadas pela falta de alimentos, resultante de uma geada arrasadora, ceifou mais de oito mil vidas em Guanajuato. (GALEANO, 2020, p. 62)

Essa descrição de Galeano, de um processo de desmanche que durou mais de século, e que é muito amplo, atingindo países inteiros, causou males que duram até hoje. A empresa de eucaliptos, e os europeus com sua mineração de ouro, prata e mercúrio, em diferentes medidas e escalas, ambos causam a dependência e até o desmanche de uma estrutura social e econômica de soberania. Mas pode acontecer o inverso também. Um bom exemplo foi mostrado numa reportagem do Globo Rural em 03/01/2021. Mostram pessoas no Vale do Jequitinhonha, nos municípios de Francisco Badaró e Jenipapo de Minas Gerais, que têm uma vida muito pobre, mas que por meio de projetos sociais e parceria, com universidade e ONGs, estão conseguindo uma boa renda, em função de seus bordados, tecelagens, poesias e cultura local. Ali se percebe um projeto de desenvolvimento social. A reportagem é toda bonita, poética, musical, com imagens e roteiro muito bem construídos. Importante perceber que a TV produziu um vídeo muito bonito, mas a realidade retratada foi construída e sustentada por projetos sociais. Um deles é da UFMG, chamado Projetos do Polo Jequitinhonha (https://www.ufmg.br/polojequitinhonha/projetos-do-polo-jequitinhonha/). Também fundaram uma ONG, chamada Ajenai, que foi fundada em 1999. Em suas páginas podemos ver que o processo não é tão imediato. A TV construiu a imagem, o roteiro, e conta a história de uma forma muito bonita e até mágica, romântica. Sugiro que antes de terminar a leitura, você faça acesso ao endereço internet que está no final, para ver. A reportagem nos permite perceber duas comunidades que se desenvolvem. É o contrário do que aconteceu com os povoados indígenas, e do que acontece nas regiões tomadas pelo eucalipto. Certamente projetos sociais podem influenciar toda uma comunidade pobre e insustentável, com vida difícil, tornando o território, um lugar de mais vida, mais beleza, e melhor economia e bens de vida. Poderíamos citar outros projetos sociais que deram certo.

Finalmente, podemos questionar: que relações existem entre a história do eucalipto, dos indigenas contada pelo Galeano, e essa comunidade rural que é mostrada na reportagem da TV? O que pode-se observar é que do mesmo modo que um projeto muito bem pensado e apoiado por agentes externos, e articulado com agentes locais, um projeto assim pode criar fartura onde havia pobreza, como na situação do Jequitinhonha mostrada pela TV. Da mesma forma existem projetos de exploração predatória, como o que aconteceu quando os europeus vieram para as Américas, ou o que a empresa de eucalipto desenvolve, que são empreendimentos e organizações internacionais que geram dependência. Isso porque essa empresa tira sua vantagem em cima de um grupo que abrange vários municípios, vários territórios de um país. Não gera soberania. Acaba caçando a soberania desses povos.

Para finalizar podemos comparar esses projetos, que acabam com a soberania, com a situação de um passarinho que é tirado da natureza e colocado numa gaiola. Trata-se de uma analogia para ilustrar as ideias. Quando um passarinho é caçado na natureza e depois alimentado e tratado na gaiola, de início, o passarinho pode até gostar de não precisar mais ficar buscando comida por ai. Ele irá ganhar comida na boca todos os dias. Mas depois de um certo tempo, o animal se acostumará a viver na gaiola e ganhar a comida na boca. Se acontecer alguma mudança, que faça com que a pessoa não queira mais dar comida ao pássaro, mesmo que ele tenha liberdade para voar e estar na natureza, terá muita dificuldade para encontrar sua comida, podendo morrer antes que consiga reestruturar seu modo de vida. Ele terá perdido as estratégias e o dinamismo que tinha em sua vida para buscar o alimento. O mesmo, em comparação, pode acontecer com uma comunidade, ou pessoas, que cedam seus terrenos para o eucalipto, e o mesmo acontece para outros tipos de produção. São situações que geram dependência. Anteriormente, o território e as pessoas poderiam ter articuladas uma série de estratégias e uma diversidade de produções. Os sujeitos que ali estavam desenvolviam a economia e o sustento da vida com muitas atividades, que interagiam entre si. A comunidade tinha uma dinâmica. Quando vem uma empresa externa, que oferece uma coisa vantajosa e que vai gerando dependência, desarticula toda a soberania que a região tem. Em função disso, a região fica na mão da empresa, que gerou a dependência.

Existe um problema grave: o capitalismo se apoia sempre em esquemas como esse do eucalipto. Quase sempre, as grandes empresas, com controle internacional, embora se digam liberais, o objetivo maior delas é gerar uma situação de hegemonia no setor em que atuam. Querem e trabalham com todas as forças para ter um campo de domínio da cadeia produtiva inteira. A esse respeito tenho uma reflexão (VALLIN, 2019) que fala da cadeia produtiva do café, e como se dá a exploração econômica, apoiando-se em estudo de Dowbor (2014).

Como dizíamos, as corporações internacionais buscam estabelecer um campo de domínio no setor em que atuam. Esse domínio abrange a cadeia produtiva inteira. O domínio internacional sobre um setor de produção consegue controlar os preços, tanto do produto final, quanto das fases e serviços intermediários da produção. Esse controle é o que permite que os pagamentos aos participantes da cadeia produtiva sejam pequenos em relação ao grande lucro de quem está no controle. Ou seja: essas cadeias produtivas com dependência centralizada são uma forma de gerar e manter a desigualdade.

Por que geram tal desigualdade? Seria alguma perversidade, ou maldade do capitalismo? Não se trata disso, mas é a própria lógica do capitalismo, que faz parecer legítimo que todos lutem, e disputem, para se tornarem dominadores e com isso terem suas vantagens e seus benefícios. A lógica do capitalismo não é atingir a igualdade e a justiça social. A lógica é competir e ganhar. Por isso as grandes empresas internacionais, e seus investidores, que detém o domínio e lucro dessas empresas, se consideram vitoriosos, ou consideram que estão atingindo seus objetivos quando conseguem tirar um lucro máximo. Nessas circunstâncias é importante notar que existe muito mais pessoas envolvidas nos trabalhos do que na especulação, na propriedade e controle de empresas.

Dessa forma conseguem que o trabalho seja menos remunerado ou valorizado do que o negócio e a dominância. O trabalho é subalternizado. O negócio, ou seja, a esperteza, ou o controle e hegemonia, em dado setor de produção, irá gerando o sucesso. De novo ressaltamos que isso é o contrário da liberdade, reivindicada pelos que se dizem liberais. O domínio de poucos vai tirando a liberdade de uma parte muito grande de pessoas. Em última análise, essas pessoas que têm o controle, a propriedade, e a hegemonia em dado setor, constituem-se num grupo pequeno de pessoas que tem vantagens sobre os outros. Essas pessoas acabam tendo uma vida cheia de regalias, em função do ganham a partir da exploração do trabalho de outras pessoas, em geral. Esse é o problema que procuramos evitar e combater. Essa lógica é uma trama complicada e precisa ser compreendida. Da mesma forma é complicado agir, de modo a evitar, ou, ao menos, não fortalecer essas lógicas. É preciso criar resistência, perceber onde existem projetos que geram dependência, que tiram autonomia de um território, de um povo, para se contrapor, não aceitar, não colaborar inocentemente. E também ao contrário, é preciso perceber quais projetos fortalecem a comunidade, as pessoas que trabalham, e esses podem ser valorizados para que avancem.

Nessa perspectiva não existe nada contra o avanço do conhecimento e da tecnologia, desde que não sejam usados para gerar dependência. Muito ao contrário. A novidades tecnológicas podem ajudar a resolver problemas e melhorar a vida das pessoas. Nesse projeto citado, do Vale do Jequitinhonha, as pessoas passaram a usar tecnologia mais do que antes, o que está sendo bom para elas. E mesmo olhando para a produção de madeira, ou de café, e todas as situações de trabalho e produção, sempre é bom contar com o conhecimento e a tecnologia, tomando só o cuidado para perceber quando há situações valorizam o trabalho, ou que, ao contrário, tiram autonomia de um território, geram dependência, e tiram a soberania de um povo.



REFERÊNCIAS

GALEANO, Eduardo H. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre, RS. L&PM, 2020 (1a. Ed. em 1971).

GLOBO RURAL. Bordado, tecelagem e poesia: projetos resgatam tradições de comunidades rurais de MG. Globo Play. 24 min. Exibição em 3 jan 2021. Disponível em https://globoplay.globo.com/v/9148896/. Acesso em 4 jan 2021.

VALLIN, Celso. Sorria, ame e abrace. Reflexão postada no Blogue do Professor Celso. 2019. Disponível em http://celsovallin.blogspot.com/2019/. Acesso jan 2021.

DOWBOR, Ladislau. Produtores, Intermediários e Consumidores: o enfoque da cadeia de preços. Rev. Econ. NE, Fortaleza, v. 45, n. 3, p. 7-16, jul-set, 2014. Disponível em <https://ren.emnuvens.com.br/ren/article/view/115/94>. Acesso em 2019.10.19

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Política : princípios ou alianças?

Dez 2020 (escrita em revisão) - Celso Vallin


Será possível atuar na política de uma forma neutra?

Para responder isso, é preciso pensar: o que estão chamando de neutro?

As pessoas entendem neutralidade de diversas formas. Poderia ser o equilíbrio, ponderação, e justiça social? Mesmo que seja, isso não é algo simples. Algumas pessoas entendem que ninguém é neutro, porque sempre existem preferências e interesses e, mesmo que não se perceba, nossas decisões são afetadas. Nesse modo de pensar, as pessoas que se dizem neutras estariam enganadas, enganando, ou sem perceber que há interesses.

Por outro lado, quando temos a intenção de usar a justiça social para orientar certa decisão, dependeremos do entendimento de cada situação, e da interpretação das relações sociais. A justiça social pode ser um bom parâmetro, mas não existe um modo único de ver o que é justo, ou injusto, socialmente.

Princípios são ideias e ideais que orientam nossa ação, nossas decisões. Mesmo uma instituição tem princípios. Para analisar melhor uma dada situação, podemos usar princípios ou ideias que foram construídas ao longo da vida, ou da história, e que se basearam em acontecimentos e análises anteriores. Um princípio pode ser uma construção coletiva, e algo muito sólido. Nesse caso, ser neutro pode ganhar a conotação de agir conforme princípios, e não conforme nossos impulsos ou interesses mais imediatos, que podem estar escondidos, serem muito particulares, ou mesmo desconhecidos.

O problema da tomada de decisões, de forma socialmente justa, fica mais complicado quando lembramos que existem alianças. Estabelecemos alianças com pessoas, com instituições, e das instituições das quais participamos com outras instituições. Quando se tem alianças, em geral, é porque muitos princípios, ideias e ideais são coincidentes. Mas é quase impossível que duas pessoas, ou duas instituições tenham os mesmos princípios para tudo, e os mesmos entendimentos. Sempre haverá situações em que a vontade ou necessidade de um aliado nos pedirá para agir contra algum princípio que temos.

Num caso assim, uma primeira possível providência é verificar se aquela pessoa, ou instituição, tem seus princípios declarados e conhecidos. Se tiver, analisamos se a decisão desejada está de acordo, ou se contraria algum, ou alguns, dos princípios que temos, e que a outra tem. Se houver contrariedade, podemos tentar esclarecer, com questionamentos, discussões e reflexões, e procurar chegar a acordos que respeitem tais princípios.

Certamente outro caminho possível é contrariar a aliança e fazer valer o princípio, e nesse caso será bom se pudermos mostrar a razão para isso. Mas alianças são importantes e não é bom ignorar, desfazer. Algumas vezes, certa aliança é tomada como muito importante, e nesse caso os princípios são deixados de lado, ou despercebidos. Se tomarmos uma decisão para privilegiar uma aliança, seja com pessoa ou instituição, não teremos como justificar tal decisão por meio dos princípios. Acabamos por decidir algo que vai contra certas ideias que defendíamos, em função algum pedido, ou para agradar ou favorecer alguém ou alguma instituição.

A quem deveríamos dar primazia: às alianças ou aos princípios? Por que favorecer uma aliança, mesmo quando a situação contraria nossos princípios?

Algumas vezes nossos princípios não estão muito claros, nem para nós. Não ter clareza de quais são nossos princípios, é quase o mesmo que não ter princípios. Mas agir a favor de alguma situação que contraria nossos princípios também é quase o mesmo que não ter princípios. Ainda vale perguntar: por que os princípios são contrariados?

Algumas vezes as contrariedades não são tão claras. Não é fácil decidir, pois os princípios costumam ser isolados, enquanto que a realidade da sociedade e da vida, nos apresenta situações e condições com necessidades da natureza, e ciência, que não são simples, mas complexas, por envolver muitos e até desconhecidos fatores que se interpõe e interagem. Dai, muitas vezes vale ampliar a discussão, vale demorar a decidir, em função de pedir que mais gente possa refletir, trazer informações e análises que nos ajudarão na decisão. Vale deixar mais claro onde estão as contrariedades e quais princípios estão envolvidos.

Por que valorizamos as alianças?

Alianças envolvem confiança e poder. A confiança é uma construção histórica. Pode ser comparada uma uma pilha de peças que vão sendo colocadas umas sobre as outras, e que vai subindo e crescendo. Cada ato histórico que temos a nosso favor é uma peça dessa pilha, que constitui a confiança. Só confiamos em pessoas que, ao longo do tempo, tiveram posicionamentos que são coerentes, e que nos levam a crer que, por trás dos posicionamentos,  existem princípios. Não adianta a pessoa declarar seus princípios. É preciso que o tempo mostre que as ações de realidade seguem aqueles princípios,  para que possamos ter confiança que são considerados importantes. Essa sequência temporal concretiza os princípios. Mas, como as peças empilhadas, basta que uma só ação seja incoerente, e contrarie o que vinha sendo feito, para que a confiança seja perdida, e destruída. Uma ação contrária é suficiente para gerar insegurança na relação.

Do mesmo modo que dissemos de alianças com pessoas, valem as ideias para alianças com instituições. A história vai gerando confiança, pela sequência de fatos coerentes com princípios, mas a incoerência derruba a segurança.

As alianças são importantes? Por que?

Quando construímos alianças, temos mais força. Sem força, não conseguimos fazer quase nada. As alianças podem ser condição para certas realizações. De que adianta ter boas ideias, princípios firmes, se nada podemos? De que adianta se somos fracos, socialmente, e quase nada realizamos?

Para construir alianças, nós também precisamos do tempo histórico, para demonstrar nossa respeitabilidade. Sim, porque as pessoas e instituições não confiarão em nós, ou em nossa instituição, se não dermos motivos. Precisamos que as pessoas e instituições confiem em nós, ou em nossa instituição. Portanto, é preciso tempo, e coerência nas ações.

Nesse campo de alianças existe, muitas vezes, uma política de favorecimentos mútuos. Apoiamos alguém, e quando for preciso teremos seu apoio. Nessa lógica, os princípios não ficam em primeiro plano.

Como pessoa, quando apoiamos outras pessoas, ganhamos amizade. Quando existe amizade, tudo o que a outra pessoa faz é visto com certa condescendência, certa boa vontade. Por exemplo, quando uma pessoa amiga nos dá um tapa no ombro. Logo supomos que se trata de uma brincadeira. Mas se alguém, que não gostamos, nos dá um tapa no ombro, nossa reação pode ser imediata, dizendo coisas horríveis, ou revidando. Nossa reação negativa pode ser mais grave do que o próprio tapa inicial. O pior, é que aquela pessoa, que não gostamos, poderia ter dado o tapa por acidente, sem querer. Outro exemplo de boa e má vontade, poderia ser o caso de quando ouvimos dizerem que uma pessoa amiga cometeu um assassinato. Logo tentaremos encontrar justificativas, ou imaginamos quais seriam as condições extremas que teriam levado a pessoa a tal ato. Mas ao contrário, se dizem que uma pessoa, da qual não gostamos, cometeu um assassinato, podemos até não nos envolver, mas ficaremos imaginando, e querendo informações sobre a sordidez do ato. Enfim, nosso olhar, e nossos posicionamentos dependem bastante de nossa relação com a outra pessoa. A boa vontade pode gerar protecionismo. A má vontade cria obstáculos. O mesmo pode acontecer entre instituições: reações boas com algumas, e reações não tão boas com outras. Com isso queremos mostrar que a troca de apoios não é algo tão inesperado. Vimos que o julgamento que fazemos dos atos de outras instituições, ou pessoas, pode ser tendencioso, e pode levar a ações não tão ponderadas. Tentamos mostrar que a ação com justiça, e equilibrada, pode não ser tão imediata, ou simples.

Cultivar a boa vontade dos outros em relação a nós, ou à nossa instituição, é importante. Sempre gostamos de contar com o apoio de outras pessoas ou instituições, porque a boa vontade nos fará bem, nos ajudará. Por isso pessoas e instituições cuidam de sua imagem.

 Para concluir, podemos dizer que não existe dilema entre princípios e alianças. Mas é preciso equilibrar alianças e princípios porque ambos são positivos. Queremos os dois. O problema é que tantas vezes um contraria o outro, é diante dessa contrariedade é preciso clareza para se fazer uma boa escolha.

Assim é a política: de um lado podemos estar soberanos em nossos princípios mas fracos em alianças; de outro podemos ter grande potência devido à construção de uma teia de alianças, e com mais dificuldades para manter um respeito absoluto aos princípios.

A solução não é simples, ou mágica, mas com esta reflexão queremos chamar a atenção para o tensionamento entre esses dois lados: alianças e princípios, pois sabendo disso, é mais fácil buscar ter mais clareza sobre o que está por trás de cada decisão, quais são os princípios envolvidos, e o que está em jogo em cada aliança.

Finalizamos lembrando que pessoas e instituições mudam; mesmo os princípios podem, e devem, ser reconstruídos ao longo do tempo. A consciência da transitoriedade nos dará ainda maior paciência com algumas pequenas incoerências.



 

quarta-feira, 17 de junho de 2020


PANORAMA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL HOJE

Celso Vallin - Dep. Educação UFLA - 2020


O Brasil precisa muito melhorar sua educação. Para quem faz um curso superior em licenciatura, é interessante perceber que, por meio de sua profissão poderá colaborar num problema de grande relevância social. Mas é preciso compreender onde e como são os problemas, e também perceber avanços que tivemos mais recentemente, para valorizar o que já conquistamos. Atuar de forma crítica significa perceber as duas coisas: os problemas, e as conquistas.


ANALFABETISMO

O analfabetismo de jovens e adultos no Brasil passou de 12% em 2004 para 9% em 2012 considerando pessoas com 15 anos ou mais (http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/32962). Dados de 2019 mostram que o Brasil ainda tem uma quantidade muito grande de analfabetos. São 11 milhões de pessoas (Jornal BRASIL DE FATO, 2019 - https://www.brasildefato.com.br/2019/09/10/chance-de-acabar-com-analfabetismo-no-brasil-ate-2024-e-zero-afirma-especialista). É muita gente, quase 7% da população. É considerada analfabeta a pessoa que não consegue ler e escrever um recado simples como “Maria: fui ao mercado”. Imagine, o que consegue fazer em sua vida uma pessoa assim, hoje? Que oportunidades terá? São pessoas que têm dificuldade para conseguir trabalho e renda e se integrar à sociedade. O problema tem solução: a Bolívia conseguiu estar livre de analfabetismo; foi uma conquista dos anos de governo indígena (Evo Morales). No Brasil, em 1964 Paulo Freire encabeçava um programa nacional de alfabetização, mas por causa do golpe militar foi preso e depois exilado.

Em 2009 no estado de Minas Gerais tivemos o Proalfa (Programa de Avaliação da Alfabetização) que diagnósticou lacunas da alfabetização. Programas como esse demoram anos e conseguem sua efetividade na medida em que são feitas correções de rumo baseadas na praxis do cotidiano das formações, no modo de atuar de quem faz a formação e, da ação pedagógica (alfabetização nesse caso). Infelizmente o programa não teve sustentabilidade política suficiente. Sofreu interrupções e descontinuidades.

No nível nacional tivemos o Pnaic (Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa). Em 2011 houve uma avaliação que mostrou que quase metade dos/das estudantes do terceiro ano fundamental não estavam bem alfabetizados. Em 2013 começa uma formação de professores, mas de forma incremental e meio improvisada. O programa funcionou por poucos anos e foi interrompido.

Em 2014, foi estabelecida uma lei, o PNE (Plano Nacional de Educação), para se acabar com o analfabetismo no Brasil até 2024. Já estamos em 2020 e é fácil notar que isso não está acontecendo. Ainda mais porque no governo Temer foi aprovada a mudança da Constituição (Emenda Constitucional 95/16) que congelou gastos com educação por 20 anos, e também pela crise econômica que começou em 2014 e se agrava até hoje, e agora pela pandemia de covid-19.

Muitos dos problemas encontrados em anos mais avançados de estudo estão ligados ao fracasso na alfabetização, ou a uma alfabetização incompleta. Encontramos estudantes com dificuldades na leitura e escrita mesmo nos cursos superiores. Dai a importância de se ter e reforçar políticas de EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS.



CONQUISTAS RECENTES

Por outro lado é possível apontar algumas ações positivas nas últimas décadas. A educação era obrigatória somente dos 7 aos 14 anos e agora esse direito vai dos 4 aos 17 anos (Emenda Constitucional nº 59/2009). Com isso a educação infantil e o ensino médio passaram a ser obrigatórios. Antes, somente o ensino fundamental era obrigatório, e essa etapa tinha duração de apenas 8 anos. A partir de 2006 passou para 9 anos (lei 11.274). Na realidade observa-se claramente um aumento das crianças e jovens que frequentam a escola. Até bem pouco tempo grande parte da população mais pobre só começava a ir para a escola com 7 anos. E já entrava de modo defasado aos demais, que tinham começado mais cedo. Não se pode imaginar que o problema da oferta de educação pública de qualidade esteja atendido, mas a frequência escolar a partir dos 4 anos já é uma realidade: a média para o Brasil, em 2018 é de 92% na escola (IBGE - Informativo Pnad Contínua - Educação, 2019 - https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101657_informativo.pdf). A criança que começa a escolaridade aos 4 anos ou antes, terá um potencial melhor para se alfabetizar entre 6 e 8 anos, que é considerada como a "idade certa". As crianças menores, mesmo não sendo alfabetizadas, estarão mais preparadas para frequentar uma escola, usar caderno e lápis, mexerem com livros de história, ver números e palavras, e outras capacidades. É uma realidade que trará frutos nos anos seguintes. As crianças que igressaram na educação infantil com 4 anos em 2017 estarão concluindo o ensino médio em 2031, se forem sempre aprovadas.

Por meio do programa (Proinfância) entre 2007 e 2015 foram construídas 2.533 escolas de educação infantil. Isso foi, e ainda é, importante para o Brasil. Ainda mais quando se compara com alguns países ricos, que não precisam construir nem 1 escola, pois já atendem a demanda. Ao mesmo tempo esse programa avançou menos da metade do previsto e há problemas de muitas ordens, inclusive corrupção (https://www.cartacapital.com.br/educacao/o-proinfancia-e-a-dificuldade-de-construir-creches-no-brasil/).

No âmbito do ensino médio tivemos um grande programa de re-formação de docentes que já estavam em serviço, o “Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio” que aconteceu, mas foi interrompido quando estava apenas começando, embora tenha custado muitas energias de universidades, escolas e professore/as do ensino médio, e também dinheiro público. Esse programa foi sucedido pela lei do “novo ensino médio”, e pela BNCC, que vão na direção contrária.

Foram criados muitos cursos de licenciatura em universidades públicas. Na UFLA até 2008 não havia cursos noturnos. Hoje temos licenciaturas que acontecem no diurno e no noturno, permitindo o acolhimento de pessoas que trabalham e não conseguiriam estudar de dia. A UFLA atende estudantes de toda a região e alguns que vêm até de outros estados. A chegada de ônibus cheios de estudantes que vêm de Nepomuceno, Luminárias, Nazareno, e outros municípios vizinhos, todas as noites, e sua presença marcante nos cursos de licenciaturas, é um sinal forte de uso social da universidade pública. A abertura de novas vagas de licenciatura foi uma política do programa Reuni em todo o país e ajudou a diminuir a necessidade de contratação de professores leigos, que atuavam em grande porcentagem nas escolas brasileiras. Antes disso aconteceram projetos como o Veredas em Minas Gerais que permitiram a formação inicial para professores leigos que estavam em serviço em escolas públicas. Para se construir um país que seja de todos, em que a população possa viver com dignidade, é preciso erradicar o analfabetismo e avançar na escolarização. Mas não só isso. É preciso conseguir fazer uma educação que vá além da reprodução de operações, que não seja tecnicista e somente memorizadora. Queremos uma escola que desenvolva a autonomia de estudo e a crítica social.

A UFLA possui hoje 8 licenciaturas: Matemática, Educação Física, Filosofia, Física, Química, Biologia, Letras e Pedagogia. Isso é muito importante para alimentar a região com professores bem formados. Porque hoje ainda é observado que grande parte dos/das professores/as contratados para escolas básicas são temporários, e não concursados, e não vêm de uma formação que se possa considerar de bom nível, infelizmente. É desagradável falar isso, mas ainda temos muita gente formada em cursos aligeirados, muitos deles por meio da educação a distância barateada.

Outro avanço que tivemos nos últimos anos foi o sistema de ingresso por cotas. A nossa universidade há 10 anos era quase toda povoada só por pessoas de pele branca, destoando da diversidade que se via na própria cidade, a poucos metros de distância. Hoje já temos grupos internos que trabalham a valorização da diversidade, do movimento negro, e de lutas contra opressões sociais históricas que muitas vezes se reproduzem nas relações de aula e na universidade. Estudos mostram que já temos MAIORIA de negros frequentando as universidades, em média, para o Brasil inteiro. E em relação a professores negros/as, também vem aumentando a quantidade, embora seja um processo mais lento e posterior.

Já tivemos também na UFLA a oferta de cursos de especialização de professores, como foi o caso do GDE (Especialização em Gênero e Diversidade na Escola), que realizou formação continuada para centenas de docentes da região. Esse e outros cursos fizeram parte de uma política pública de formação para a diversidade, desenvolvida pelo MEC e que depois foi descontinuada.

Destacamos ainda as disciplinas de valorização da pessoa do campo, dos negros, dos indígenas, das mulheres, da diversidade gênero, que fazem parte do currículo padrão do curso de pedagogia da UFLA.

Outro avanço importante para a educação foi a criação do Fundeb. Os recursos aplicados em educação no Brasil eram tradicionalmente de 5% ou menos, e passaram para algo próximo a 6% em 2012. No PNE (Plano Nacional de Educação) conseguiu-se aprovar no Congresso Nacional, em lei, o aumento para 7%, com previsão para aumentar depois para 10%, mas o que vem acontecendo é o inverso. Diminuem os recursos aplicados em educação nos últimos anos. Além do que, temos visto uma política governamental de ataque às universidades públicas.

Apontamos ainda a importância da lei do Piso Salarial Nacional para o magistério público, aprovada em 2008 (lei 11.738) que, além de assegurar um salário mínimo, também contribui para a valorização docente ao estabelecer o tempo extra-aula como um terço da jornada de trabalho.

Diante dos problemas todos apontados aqui para o desenvolvimento da educação, é coerente perceber que são poucas as pessoas que concluiram um curso superior no Brasil. Mesmo assim, é positivo ver os avanços. Entre 2000 e 2010 a porcentagem da população que possuia curso superior avançou de 4% para 8% (https://guiadoestudante.abril.com.br/universidades/censo-do-ibge-mostra-crescimento-no-numero-de-brasileiros-com-ensino-superior/). Em 2018 já eram 16% ( https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18317-educacao.html ).

Mas se observarmos somente os mais novos (entre 25 e 34 anos), um estudo da OCDE aponta 21% com curso superior completo. Entre esses, embora se saiba que muitos têm uma formação ruim, e/ou não atuam em trabalhos que reconheça seu diploma, os avanços são significativos e importantes. Os mais velhos não foram incluidos por esse estudo, porque passaram por uma realidade de formação diferente, menos intensa ou abrangente.

Essa informação também nos coloca, professores e estudantes da UFLA, com grande responsabilidade, visto que estamos entre os poucos que tiveram acesso aos estudos e temos a possibilidade de atuar para a mudança social no país, apesar das precárias condições.


Para finalizar podemos ainda observar a evolução da escolaridade em todos os níveis


Nível de instrução das pessoas com 25 anos ou mais (Brasil - 2018)
Analfabetos - 6,9% ( https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18317-educacao.html )
Fundamental incompleto
33,1
Médio completo
26,9
Fundamental completo
8,1
Superior incompleto
4,0
Médio incompleto
4,5
Superior completo
16,5

A tabela acima representa 100% da população, mostrando quantos porcento de pessoas tem cada faixa de escolaridade (ou instrução). Somando-se as porcentagens vemos que os que NÃO COMPLETARAM O ENSINO MÉDIO são 52,6%. Isso é muito ruim. São pessoas com dificuldades grandes para se inserirem na vida social e laboral.


Taxa de escolarização

Esse número representa a proporção entre estudantes e a população total para um grupo etário.
A taxa ajustada de frequência líquida = é a proporção entre estudantes que estão na etapa esperada e população total para uma faixa de idade

Boletim PNAD Contínua Educação - publicado em 2019, relativo aos dados de 2018
Taxas de Escolarização (https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101657_informativo.pdf)

0 a 3 anos
34,2%

15 a 17 anos
88,2%
4 e 5 anos
92,4%

18 a 24 anos
32,7%
6 a 14 anos
99,3%

25 ou mais anos
4,6%

As taxas mostram a quase totalidade (mais de 90%) das crianças frequentam escolas na idade de 4 a 14 anos. Entre 0 e 3 anos a taxa é menor, mas a educação é opcional. Já na faixa do ensino médio, 15 a 17 anos, temos uma pequena baixa: 88%. Depois vemos uma queda expressiva em relação à faixa de 18 a 24: 32,7%.


Estudam na Rede Pública (https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101657_informativo.pdf)

Educ. Infantil
74,3%

Ensino Médio
87,0%
Ensino Fundamental
82,3%

Superior - Graduação
25,8%

Vemos da tabela acima que a grande maioria do povo brasileiro frequenta escola pública. Esse é um motivo de orgulho, visto que muitos em países é preciso pagar tem acesso à escola.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

EDUCAÇÃO  NA  PANDEMIA ? 
Freire mais do que nunca.

Celso Vallin

(prof. da Universidade Federal de Lavras. Dep. de Educação. maio de 2020)
Em 2020 a pandemia chegou e foi rápida. Difícil saber quando a situação poderia voltar a ser como antes. Isso leva a reflexões sobre o que fazer nas escolas, e na educação, porque torna necessário ficar em casa, meses seguidos.
Alguns defendem ficar sem aulas mesmo, porque nas salas de aula as pessoas ficam muito próximas e por muito tempo. E nos intervalos da escola, as aglomerações de pessoas se tornam mais intensas ainda. Além do que, qual o problema de se atrasar em 3 ou 6 meses a formação de uma pessoa? Afinal, entre educação infantil e superior são pelo menos 18 anos de escola.
Outros defendem que não se perca tempo. No fundo ainda impera a ideia força de que "tempo é dinheiro". Nesse caso os argumentos são vários: que o fim da pandemia pode demorar; que estudantes não podem se atrasar nos estudos; que educadores(as) estão recebendo salários e precisam trazer resultados; que pela internet tudo pode ser resolvido; e por ai vai.
Como seria uma posição intermediária, entre esses dois extremos? Vejamos as condições. A internet, não está disponível em todo lugar, mas já funciona em muitos. Professores(as), a maioria não têm preparo anterior para trabalhar a distância, mas usa celulares e computadores e poderia ajudar de alguma forma, a partir de suas casas. Crianças e adolescentes, estando em casa, têm muito tempo disponível e, se dedicarem aos estudos poderia ser bom. A educação e todo aparato escolar poderia estar em funcionamento, mesmo que não fosse para fazer tudo como de costume, mas experimentando novas possibilidades.
Seria possível aproveitar esse novo regime para gestar alguma melhoria? Ou fazer algo seria só para tampar buraco? Entendo que não se pode esperar que tudo ande como se nada de diferente estivesse acontecendo. Até porque, é diferente.
Não podemos assumir que temos a internet disponível para toda gente porque não temos. Em áreas rurais, em vários locais não se consegue nem sinal de telefone. Algumas famílias só têm equipamentos antigos, com pouca capacidade e lentos. Ou não têm. Outras compartilham equipamentos entre várias pessoas na família (celular e computador). Embora existam contratações de internet com grande fluxo de dados, muita gente não tem dinheiro para isso e usa um acesso lento e instável. E existem pessoas que estão ganhando pouco e darão prioridade para a comida, a conta d'água, e não a internet. Enfim, todas as soluções dependem do uso da internet. É preciso lembrar dos que têm dificuldades, e assim trabalhar com flexibilidade de tempo, demandar coisas que possam funcionar com aparatos simples, e ir descobrindo o que é possível fazer em cada situação. Não se deve exigir muito, porque estaríamos excluindo as pessoas que já têm outros problemas.
Devemos considerar ainda o fato de que muita gente tem moradia precária, e na pandemia, tendo que ficar toda a família em casa, o dia todo, a situação pode ser barulhenta, bagunçada. Consideremos os casos em que existe gente doente, de quarentena, requerendo cuidados especiais. Não queremos pensar pelo pior, mas é preciso certa flexibilidade e sensibilidade para se perceber como é a situação de cada estudante ou professor(a), e não esperar que tudo seja como antes. Porque não é.
Algumas coisas ao serem diferentes, poderiam ser melhores? Certamente. Mas como seria isso? Queremos mostrar a seguir, que esse tempo de dificuldades e de anormalidade pode ser um tempo de avanço e melhoria pedagógica. Vejamos...
Existe uma ideia pela qual as pessoas tratam os dias letivos, ou dias de aula, como se fossem uma unidade de medida de aprendizagem. Por esse raciocínio, muitas vezes, educadores, estudantes e familiares ficam contando os dias efetivados, e marcando pedaços de livro que já foram "dados", como se a escola fosse uma fábrica que vai depositando etapas de conhecimento nas cabeças de estudantes. Existe uma crítica que já não é nova, de Paulo Freire (1987), que afirma que conhecimento se constrói por meio de relações entre docentes, estudantes, e objeto de estudo, e não é algo que se possa transferir. Não basta estudantes repetirem a lição. Muita gente se prepara para responder questões de prova e depois esquece tudo, em seguida. Não é esse desenvolvimento ou conhecimento que desejamos. Queremos que a aprendizagem seja aproveitada para compreender e transformar a vida e a sociedade. Assim, acreditamos que uma aprendizagem significativa e libertadora, aquela em que cada estudante cria seus significados, conforme interage com os objetos de estudo, com colegas em estudo, e com docentes, e juntos fazem uma crítica social, estabelecendo relações com os contextos em que vivem, com a sociedade, e as possibilidades de mudança social, essa aprendizagem não é algo que flui no tempo como se fosse uma linha de produção industrial. Ao contrário, vem dos diálogos, dos questionamentos, das observações, e das trocas de impressões e olhares num ambiente coletivo da turma. Requer o tempo e a sensibilidade da vivência e da convivência. Essa aprendizagem passa por conflitos, problematizações, reflexões, contrariedades, discussões... Entendemos que, a partir de certas conversas, mais lentamente, ou mais acentuadamente, a escola pode gerar aprendizagem libertadora e significativa mesmo durante a pandemia, com docentes e estudantes em suas casas.
Quem sabe, pelo motivo de que não se pode exigir o cumprimento de cada minuto de aula, e cada aula do horário, uma em seguida à outra, quem sabe isso nos liberta a todos para sermos mais capazes de estabelecer boas relações de trocas na turma, entre docente e discentes, entre estudantes e colegas de turma, entre objetos de estudo e contextos de vida. Apostamos que isso é possível. Essa condição de excepcionalidade pode ser frutífera. Depende das pessoas, do tom da conversa, de nossa escuta. Depende de nosso jeito com as situações, nossa paciência, sensibilidade. Que tal aproveitar a pandemia para darmos um passo em direção contrária ao produtivismo?
Podemos nos permitir trabalhar com maior heterogeneidade, e menor padronização. Podemos aceitar que cada turma, e cada escola, e situação, tem suas características; e vale a pena perceber e respeitar a realidade existente. Mesmo dentro de cada turma, nas relações pedagógicas, sabemos que existe heterogeneidade de aprendizagens e podemos bem conviver com isso, desde que se consiga cuidar para que todas as pessoas consigam se envolver nos processos, que sintam-se desafiadas e motivadas. E nesse caso, estarão aprendendo.
Enquanto a pandemia continua, e as pessoas precisam ficar em casa, ao menos as que têm condições de ficar, se existe um distanciamento físico, os laços sociais passam a ser mais necessários ainda, e eles são cultivados pelos contatos mediados pela internet. O contato social pode ser por meio de conversas por telefone, com ou sem imagem, por troca de mensagens, envio de comentários, fotos, imagens e tantos objetos digitais disponíveis hoje. Não se pode dizer isolamento social de uma pessoa que conversa e troca informações e objetos culturais, digitalmente, com 10, com 20 pessoas em um dia. Os laços sociais são construídos e reconstruídos em outra relação com o tempo, de outras formas, mas são importantes. Em tempos de ficar em casa o convívio social é mais necessário que antes. E a escola tem sido e pode continuar sendo um dos principais locais de convívio social de crianças e adolescentes, ou jovens e adultos. O convívio social pode também estar, em certos momentos, direcionado para a construção de conhecimentos. As conversas não precisam ser somente sobre trivialidades, mas podem ser agradáveis, atraentes, e ligadas a conteúdos e objetivos educacionais. Não pensemos na cobrança, ou obrigação, mas agora, que a situação está difícil, podemos fazer com mais sensibilidade e cuidado. Sem pressa.
Para avançar nessa pedagogia libertadora, em meio à pandemia, é preciso o trato democrático. Isso envolverá a escuta de todas as pessoas, será necessária a paciência para a construção de consensos, será preciso um ambiente em que sejam acolhidas as discordâncias. Esses cuidados sempre são importantes, mas agora, que não podemos sair de casa, e que cada pessoa está meio isolada, esse cuidado precisa ser de verdade. É preciso criar um ambiente de conversa coletiva que vá gerando a confiança em todas as participantes, que vão sentindo-se à vontade para falar, e pacientes e respeitosas para escutar. Isso será tarefa da docência, que precisa ir cuidando para que esse clima de confiança se estabeleça. Isso toma tempo. Não é perda de tempo escutar algo que não seja tão objetivo, ou deixar falar (ou escrever) mesmo quem não é tão inteligente ou que tenha estudado bastante a lição. É um cuidado com a formação do coletivo, para que cada estudante sinta-se participante.
E a divisão de aulas em disciplinas, como fica? Antes da pandemia, as disciplinas, em geral, eram sinônimo de isolamento. Mas agora não podemos suportar mais isolamento. Então, é preciso usar esforço e tempo entre docentes para ter planejamentos compartilhados, e quem sabe construídos coletivamente. É hora de se praticar a multi, a inter e a transdisciplinaridade.
Se tivermos coragem de fazer a educação com cada pessoa em sua casa com flexibilidade e sensibilidade, no tempo e do jeito que for possível, sem deixar nenhuma pessoa de fora, estaremos fazendo cada vez menos padronização. Muitos objetos culturais podem servir de apoio a essa educação; e eles são necessários e bem vindos. Podem ser livros com textos e imagens coloridas, de vários tipos. E esses podem estar disponíveis pela internet. Livros didáticos podem ser usados, desde que sejam uma forma de apoio ao estudo, e que não sejam usados para ditar o andamento das aulas, nem o fluxo de "ensino". Podemos usar poesias, notícias em forma de reportagens atuais e antigas, temos ainda música, áudio (como noticiário e programas de rádio ou podcast) e os vídeos que também comportam muitos formatos possíveis. Dessa forma, podemos dispor de um banco de materiais dos quais lançaremos mão para as articulações de aprendizagem e estudo.
Resumindo e finalizando:
          Enfim, o regime de aulas em casa na pandemia pode não ser uma tentativa de continuar a escola burocrática, padronizada e impessoal, mas sim uma abertura para uma relação pedagógica melhor, uma relação de estudo com mais dialogicidade (FREIRE, 1987). Não queremos ninguém de fora, e podemos ampliar o diálogo e a flexibilização. Isso irá requerer uma atenção cuidadosa, que não é sinônimo de licenciosidade. Deixar cada estudante fazer o que quiser e como quiser não levará a resultados positivos. Cada escola precisa se organizar a partir do olhar para sua situação. Temos que estabelecer conversas entre educadores(as) para o planejamento coletivo, mesmo que seja em casa, e pela internet. Estudantes e familiares devem ser chamados e ouvidos nessa construção que será um novo projeto político pedagógico. As condições de comunicação de cada estudante precisam ser experimentadas e apoiadas. O convívio social é importante. Devemos respeitar e levar em consideração as falas de todas as pessoas. Mais do que nunca precisamos estar juntos. Os planejamentos de aula e as ações por disciplina precisam ser compartilhados para que se possa construir um conjunto e um coletivo de ação pedagógica. Na continuidade e desenvolvimento das aulas e atividades não podemos trabalhar com a cobrança e a pressão sobre estudantes, mas observando o que acontece e dialogando abertamente, colocando estudante na posição de autor de seu caminho de aprendizagem. 
          Se ficarmos parados desaquecemos, tanto educadores(as) como estudantes e isso dificultará o retorno, seja quando for. Fazer de conta que tudo está como antes não é uma realidade possível, é um desastre, uma deseducação pois estaremos mostrando a falta de sensibilidade e de diálogo. Vamos então aproveitar para dar um passinho em direção à gestão democrática e participativa da escola, da aula, para melhorar nossa capacidade de escuta e diálogo, e nos livrar, ainda que seja só um pouco, da pressão produtivista, da padronização, aproveitar para nos permitir entrar em relações de aprendizagem em que se possa saborear antes de engolir. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido, 17a Edição. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987. 

sábado, 19 de outubro de 2019


SORRIA, AME E ABRACE

Celso Vallin, 2019

Sorria sempre. Ame muito. Abrace bastante! Mas não seja ingenuo/a e observe que a lógica capitalista pode atrapalhar a sua vida.
Muita coisa já foi dita sobre o capitalismo, mas para mim, duas coisas incomodam mais. A primeira pode estar em nós mesmos, quando somos individualistas, ou queremos ganhar dos outros - é a competitividade. Em outro artigo escrevi sobre isso e a falta de tempo ou correria, que vem do produtivismo. E também sobre a padronização e a modernização (VALLIN, 2016). O jeito de pensar capitalista é algo que nos empurra sempre a ter que tirar o maior proveito de tudo. Parece que se fizermos alguma coisa, de um modo que seja só razoável, não serve. Para ter valor precisa ser dentro da técnica, otimizado, do melhor jeito possível. A segunda coisa que incomoda mais, talvez não seja tão percebida: são os atalhos e ilicitudes tomados por pessoas e empresas que têm um grande controle sobre a sociedade e a economia.
Falamos sobre fazer algo. Sim, mas do que estamos falando?
Trata-se da produção de bens na sociedade, bens que usamos para viver, ou para ganhar dinheiro. Pode ser um trabalho como empregado, ou o caso de quem trabalha por conta própria, sozinho ou tendo empregados.
O valor em dinheiro é usado para medir o que foi produzido: a produção de bens e serviços. Chamam de economia o conjunto de todos os dinheiros e movimentações. A economia irá abranger quase tudo oque é feito. Existe um setor da economia que é chamado de 'primário'. Nesse setor estão os trabalhos que rendem dinheiro pegando coisas da natureza, como as matérias-primas. Há o exemplo do petróleo, que vem de baixo da terra e serve para fazer gasolina, ou óleo diesel e fazer os veículos andarem. A matéria-prima pode vir de um vegetal, como a madeira de árvores, que pode ser usada para fazer móveis ou papel. No setor primário existem coisas que são pegas do jeito que estão na natureza: minerais, vegetais... E há coisas que são cultivadas. A agricultura faz parte do setor primário da economia.
O setor chamado de secundário é a indústria. Nela, as matérias-primas são transformadas em produtos diferentes. Temos indústrias de coisas simples como o óleo de coco, um sabonete ou uma pasta de dentes, e temos indústrias de máquinas pesadas, como os tratores que servirão para construir estradas. A construção civil, de estradas, ou de prédios, também faz parte do setor secundário da economia.
O setor terciário abrange o comércio, que envolve a troca de produtos, e os serviços. Esses podem ser muito diferentes uns dos outros, como o serviços profissionais de uma manicure, de um eletricista, de educação, ou na medicina. Os serviços de telemarketing ou de entregador também estão no ramo terciário da economia.
Assim, a economia abrange quase tudo o que se faz por ai visando ganhar um dinheiro.
No início dessa conversa eu disse que via duas coisas que incomodavam mais, no pensamento capitalista. Vamos agora à segunda: os atalhos e ilicitudes.
Dizem que o capitalismo defende a liberdade econômica. Mas isso torna-se mentira quando encontram meios para eliminar a concorrência. Se uma empresa grande mata ou sufoca as pequenas não há liberdade. Se as condições da disputa são muito desiguais, que liberdade é essa? Dowbor (2014) fala da "cartelização (monopsônios ou oligopsônios no jargão econômico)". Naquele outro ensaio falei da corrupção, sonegação de impostos, do controle das eleições pelo poder econômico, da conquista de leis e uso do Estado a favor da 'classe dominante' , com isenção de impostos (VALLIN, 2016). Poderíamos citar ainda a liberação (por meio de mudança de leis) de exigências de proteção da natureza e de garantias para setores historicamente oprimidos.
Agora quero refletir um pouco sobre situações criadas no mercado para que mega empresários tenham mais poder, controle, e assim recebam gordas quantias de dinheiro, enquanto que os que trabalham e os pequenos produtores recebam pouco. Trata-se de ganharem dinheiro em cima do trabalho de outras pessoas sem repartir com elas o resultado dos trabalhos de forma justa.
Ladislau Dowbor fala que existem mega empresas assim, relativamente poucas, no cenário mundial, que geralmente estão instaladas em 'paraísos fiscais', usam 'nomes fictícios', praticam 'evasão fiscal', fazem 'lavagem de dinheiro de drogas', venda não declarada de armas, e corrupção. São empresas que se ocupam com a intermediação e controle de mercado. Fala de um 'limbo jurídico' diante da internacionalidade em que se colocam. Para ele:
as cadeias produtivas tornam-se cada vez mais complexas, com diversas etapas da produção pertencendo frequentemente a diferentes grupos econômicos, e situados em diferentes regiões ou países. Entre a base produtiva e o consumidor final, acumulam-se diferentes níveis de intermediação comercial, financeira e jurídica, obscurecendo como as diversas etapas da cadeia produtiva se refletem no valor agregado e no preço do produto (DOWBOR, 2014)
A cadeia produtiva começa lá na matéria prima, no setor primário da economia, e segue para a transformação pela indústria (setor secundário), e vai até o terciário onde encontramos o comércio de atacado, para depois chegar ao varejo que vende para o consumidor final. Quando essa cadeia está dispersa em vários países, e em várias empresas, tudo fica mais complexo.
Os valores que se encontram nos paraísos fiscais são enormes. Pesquisas falam que está "entre 21 e 32 trilhões de dólares, para um PIB da ordem de 70 trilhões, ou seja, algo entre um terço e metade do PIB mundial" (DOWBOR, 2014).
Dowbor mostra a situação do café, para exemplificar uma relação totalmente desequilibrada entre produtores, trabalhadores e intermediários. Com um gráfico mostra que o valor obtido pelo produtor primário de café é 14 centavos de dolar. Os preços para colocação no porto, descarga no destino, e após processamento na fábrica são menores ou igual a 2 dolares cada um. Por outro lado, quando segue para a prateleira do supermercado o preço aumenta para 26, e finalmente o preço sob forma de café para consumo se torna 42 dolares. Vejamos o que foi colocado:
Ao pegarmos as cinco primeiras etapas, vemos que para o conjunto dos agentes econômicos que podem ser considerados produtivos (produtor, serviço comercial primário, transporte, processamento) a participação no valor que o consumidor final paga ainda é muito pequena. O imenso salto se dá no preço na gôndola do supermercado, os Walmart ou equivalentes em qualquer país. E outro salto se dá no 'when made into coffee', ou seja, quando é servido sob forma de café. O gráfico fala por si. E os valores nas pontas, 14 centavos e 42 dólares, dão uma ideia da deformação da lógica de remuneração dos fatores e dos agentes econômicos (DOWBOR, 2014, p. 8).
Ele se queixa ainda que existem poucos ou nenhum estudo para mostrar em que elo da cadeia produtiva o preço está sendo aumentado, para os diversos produtos que consumimos. O fato é que existe um setor da economia que gira por cima dos três setores. Não existe acordo sobre um ramo quaternário da economia, mas eu vejo isso como um jeito diferente de ganhar dinheiro, que parece não se encaixar em nenhum desses anteriores, e eu arriscaria até chamar de setor quaternário. Esses são negócios que não produzem nada. Servem para organizar serviços e trabalhos de vários setores. Trarei outros 2 exemplos concretos para refletirmos sobre o que estamos falando.
O primeiro exemplo é sobre uma empresa que controla a produção de eucalipto. O eucalipto é uma árvore plantada, e depois cortada, e sua madeira serve para fazer papel ou móveis. Hoje existe um produto que imita madeira, que é o MDF. Ele é comprado em placas e usado pela indústria para fazer móveis de todo tipo. Difícil que não tenha um móvel de MDF e um pedaço de papel ai, perto de você! Mas vamos voltar à empresa que controla a produção de eucalipto. Essa empresa não faz nada e ao mesmo tempo faz tudo - influencia na cadeia produtiva de ponta a ponta. Começa por um contrato de parceria, que é feito junto a quem tem um pedaço de terra. É oferecido o plantio de eucalipto na terra da pessoa, informando que não precisará fazer nada, nenhum trabalho, é só assinar o contrato e pegar o dinheiro no final. Como isso funciona? O eucalipto será plantado, cuidado durante o crescimento, colhido, transportado, vendido. No final a venda renderá certa quantia de dinheiro. Serão descontados os custos de produção e restará o lucro. Uma parte do lucro ficará com essa super empresa que controla o plantio de eucalipto e o restante ficará para o dono da terra. Parece simples. Não é? Mas precisamos falar de alguns detalhes. As mudas para plantio, vêm de um viveiro que fornece para todas as partes do Brasil. Esse viveiro é como uma indústria de mudas. Elas saem aos milhares, todos os dias. E são transportadas até chegar em outro estado, e município. Os trabalhos necessários à plantação de eucalipto, em geral, são dados a empresas terceirizadas, que contratam empresas intermediárias. Essas usam trabalhadores contratados por produção, alguns com contratos temporários e precários. O preparo da terra, com tratores; o plantio das mudas; a aplicação de veneno contra as formigas; a poda após certo tempo de crescimento; o corte e preparação para o transporte ao final de 6 anos; o transporte; a venda: tudo o que for preciso é resolvido por contratações localizadas e tratado como prestação de serviços. Existem empresas, que são também parceiras desse sistema, que são contratadas para cada trabalho diferente. Tudo é pago conforme o tamanho do trabalho/resultado que se espera. Os pagamentos advém de um financiamento, uma dívida. Assim, a empresa de controle da produção de eucaliptos não é dona da terra, não produz mudas, não faz o plantio nem o controle de formigas, mas contrata empresas para tudo. O que essa mega empresa faz, é a contratação e o gerenciamento de toda a cadeia produtiva. E mais, tem o controle de tudo e consegue interferir e determinar os preços.
Qual o setor da economia de uma empresa como essa? Poderia ser todos os setores, visto que no primário há a agricultura, no setor secundário vemos a indústria que recebe os eucaliptos e os transforma em MDF ou papel. No setor terciário temos o plantio e a colheita, e ainda os serviços, de aplicação de veneno, ou de transporte de toras. Essa empresa que atua em todos os setores (1ário/2ário/3ário) da cadeia produtiva do eucalipto, ao mesmo tempo, terceiriza tudo para outras empresas e pessoas e assim, não está em nenhum setor diretamente, não há nenhum trabalho que dependa dela. Eu classificaria como uma empresa de controle e especulação. Isso porque ela tem o controle do processo de ponta a ponta e por isso consegue ter o controle dos preços e dos pagamentos. Esse tipo de atividade subordina todas as demais e gera uma dependência. É o que estou chamando de setor quaternário da economia.
O segundo exemplo é o Uber. A empresa proprietária do Uber é a Google. Mas ela não é proprietária de nenhum automóvel que preste serviço. Nem os motoristas que prestam esse serviço são empregados dela. Ao menos, não têm os direitos trabalhistas como se fossem empregados. O que faz a Google no serviço de Uber? Ela controla todos os serviços de ponta a ponta. Tem o controle dos carros disponíveis, e tem os consumidores em seu aplicativo. Um só consegue chegar ao outro se passar pelo seu aplicativo. A Uber recebe o pagamento do usuário e repassa com certo desconto ao motorista. Ela recebe uma parte, sem ser motorista, sem ter automóvel, sem arriscar nada. Hoje fala-se em Uberização na economia. São outras empresas que atuam de modo semelhante ao da Uber. Eu entendo que é um sistema quaternário, em que a empresa consegue tomar para si o controle de toda cadeia produtiva até o usuário final, colocando todos em sua dependência e assim consegue controlar os preços, e lucrar sem ter empregados e sem ter maquinário ou meios de produção.
Pouco importa se chamaremos de quaternário, ou se terá um nome especial. O que importa é que grande parte da produção de bens mundial está subordinada a essas mega empresas, grupos empresariais, corporações, em negociações não explicitadas, escondidas, dispersas em vários países, em várias instituições, e que controlam o trabalho, os preços e os ganhos de toda gente. Não é o capitalismo clássico, mas uma coisa pior, mais difícil. De modo próximo ao que afirmou Dowbor, para nós isso vai além da ideia do 'lucro' do empresariado, que paga aos trabalhadores menos do que o valor obtido. Vai além do dilema original do capitalismo. Existe uma apropriação de valor muito maior que se dá pelo grupo que controla a cadeia produtiva. Tanto trabalhadores quanto pequenos proprietários ficam dependentes desses mega-esquemas que lhes tomam o trabalho, que lucram em cima do trabalho deles. Nessa fragilidade existe algo em comum entre classe trabalhadora e pequenos empresários: ambos perdem muito para as megacorporações. Em Capitalismo Dependente, Florestan Fernandes mostra como, historicamente, essa situação foi se formando. Escreveu seu estudo em 1973, portanto, antes de existir as articulações do neoliberalismo. Naqueles tempos falava de 'capitalismo corporativo ou monopolista'.
Para nos contrapor e criar possibilidades fora desse frenesi de querer sempre mais, com competições desiguais, que tiram do trabalho dos outros, é preciso compreender.


REFERÊNCIAS
DOWBOR, Ladislau. Produtores, Intermediários e Consumidores: o enfoque da cadeia de preços. Rev. Econ. NE, Fortaleza, v. 45, n. 3, p. 7-16, jul-set, 2014. Disponível em <https://ren.emnuvens.com.br/ren/article/view/115/94>. Acesso em 2019.10.19
VALLIN, Celso. Farinhada comunitária. In: I Simpósio Nacional Educação, Marxismo e Socialismo. Belo Horizonte, MG : FAE, UFMG, 2016. Disponível em <https://www.simposioedumarx.com.br/edicao-atual>. Acesso em 2018.08.13; Ver também em <https://celsovallin.blogspot.com/search?q=farinhada>

domingo, 14 de julho de 2019



CULTURA_É ...

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2019-2 – notas do Prof. Dr. Celso Vallin

O que é cultura?


Floricultura, encontro cultural, espaço cultural, agricultura, cultura indígena, culto religioso, cultura pop, piscicultura, aculturação, políticas culturais...



O termo deriva de cultivo, cultivar. Do mesmo modo que se pode cultivar a terra, ou cultivar uma amizade, fala-se no cultivo do espírito humano, como vemos a seguir:

No final do século XVIII e no princípio do seguinte, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture, que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Com esta definição Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos. (LARAIA, 1986, p. 25).

Como vemos a cultura não é algo inato, ou determinado biologicamente, mas aprendido com o grupo de convivência. Já nos anos 1700 falavam sobre isso. Destaque para “de uma comunidade”. Cultura é algo que é comum a um grupo social, e não são aspectos sociais que cada pessoa pensa e faz. Só valem aquelas coisas que são comuns ao grupo, apesar de algumas pessoas fazerem diferente.

Olhando de certo modo, a adaptação da pessoa aos conhecimentos, crenças e modo de vida de sua comunidade pode ser o destaque, como no trecho que segue.

Sahlins, Harris, Carneiro, Rappaport, Vayda e outros [...] concordam que: "Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos bio-lógicos. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica, padrões de estabelecimento, de agrupamento social e organização política, crenças e práticas religiosas, e assim por diante.". (LARAIA, 1986, p. 59)

Aqui a palavra adaptar ganha destaque. Adaptar-se aos hábitos de vida da comunidade. Mas será que a cultura pode ser alterada? Uma cultura pode evoluir? E nós, podemos ter um papel nessa mudança cultural? Claro que sim. Vejamos essa outra citação.

Geertz considera que a antropologia busca interpretações. Com isto, ele abandona o otimismo de Goodenough que pretende captar o código cultural em uma gramática; ou a pretensão de Lévi-Strauss em descodificá-lo. A interpretação de um texto cultural será sempre uma tarefa difícil e vagarosa (LARAIA, 1986, p. )

Quando falamos em texto cultural, aparece uma abertura para se pensar em mudanças. Freire (1965) olha para outros aspectos envolvidos. Para ele o conceito antropológico de cultura envolve nossa relação com a natureza, com o trabalho nela, e deve ser crítica e criadora:

entre os dois mundos: o da natureza e o da cultura. O papel ativo do homem em sua e com sua realidade. O sentido de mediação que tem a natureza para as relações e comunicação dos homens. A cultura como o acrescentamento que o homem faz ao mundo que não fez. A cultura como o resultado de seu trabalho. Do seu esforço criador e recriador. O sentido transcendental de suas relações. A dimensão humanista da cultura. A cultura como aquisição sistemática da experiência humana. Como uma incorporação, por isso crítica e criadora, e não como uma justaposição de informes ou prescrições “doadas”. A democratização da cultura — dimensão da democratização fundamental. (FREIRE, 1965, p. 108 e 109)

Nos primórdios da humanidade, éramos mais próximos da natureza. É sempre bom lembrar que somos parte da dela. A humanidade foi alterando o que era natural, e foi procedendo criações, não só de espírito, mas concretas. Para isso usou a ciência (que é o conhecimento em geral), e surgiram as ferramentas (que são construídas por pessoas e que servem para ser usadas na vida). Ao contrário do que podemos pensar, as ferramentas não são neutras. Elas carregam em si o conhecimento, a ciência. Cada ferramenta é um artefato tecnológico, e serve para realizar coisas para as quais foi pensada. Um martelo serve para bater com mais força. Um lápis serve para escrever. Um teclado de computador tem a escrita alfabética por trás de sua criação. Uma técnica ou tecnologia são ideias que servem para fazer e resolver desafios práticos, e as ferramentas são desenvolvidas para serem usadas conforme a tecnologia.

Fato é que a humanidade interfere na natureza e cria artefatos para seu uso. Por isso FREIRE (1965) falou, como vimos, em “cultura como o acrescentamento que o homem faz ao mundo que não fez”. Com isso,  a humanidade toma e transforma objetos e matérias da natureza.

Considerando que a humanidade evoluiu com o passar dos séculos, fica evidente que a cultura não é algo estático. Por isso Freire fala em “aquisição sistemática da experiência humana”. E dá importância ao modo como cada pessoa, enquanto assimila conhecimentos e hábitos de nosso grupo, também é capaz de fazer crítica, ou seja, trabalha para modificar certas coisas com as quais não concorda, ou que considera que possam ser melhoradas. Mudamos objetos, mas mudamos também coisas imateriais como as concepções e modos de pensar e agir. O ato criador envolve fazer mudanças. Mudamos em nós, e podemos cultivar mudanças que passarão a ser do grupo. Por isso Freire aponta a capacidade de cada pessoa de ser crítica e criadora. Dessa maneira, a cultura não é vista somente como algo a ser assimilado, mas algo que podemos discutir, refletir, e modificar.

As criações e críticas não são construídas individualmente e isoladamente. Quando as pessoas trocam ideias, tudo é melhor. Dai a necessidade de se comunicar. Uma pessoa quer conversar com a outra e por isso surgiram as línguas e linguagens. Também a escrita, é um artefato da comunicação. Pela escrita podemos ler o que escreveram pessoas que já morreram. Podemos nos comunicar com pessoas que nem conhecemos pessoalmente, como é o caso dos livros, e mais recentemente de textos disponibilizados pela internet. Existe um enorme acervo de escritas da humanidade ao qual podemos ter acesso. E por isso o aprendizado da escrita e da leitura é visto como "uma chave com que o analfabeto iniciaria a sua introdução no mundo da comunicação escrita. O homem, afinal, no mundo e com o mundo. O seu papel de sujeito e não de mero e permanente objeto." (FREIRE, 1965, p.109).  Se olhássemos para a cultura somente como um padrão a ser assimilado, estaríamos desprezando as possibilidades de evolução do grupo humano.

Como imaginar uma pessoa que participe de verdade da cultura humana, ou de seu grupo social, e que não lê, ou que não escreve? E como imaginar alguém que pensa, cria, critica, mas não lê e não escreve? Certamente sua capacidade de comunicação fica bastante prejudicada. Apesar de que, cada vez mais, encontramos comunicações orais que são disponibilizadas em forma de vídeo ou áudio pela internet. Isso vem ampliando as capacidades de comunicação social de analfabetos, e também alterando bastante os modos como a humanidade se comunica. Mas é algo recente e que devemos aguardar para compreender melhor seu alcance e limitações.

Somente os homens são seres da práxis – ou refletem sobre o que estão fazendo, sobre como estão vivendo, como uns se relacionam com os outros. As pessoas se comunicam e assim as reflexões passam a ser coletivas e compartilhadas. A partir das reflexões, individuais e coletivas, são feitos planos para agir de forma diferente, para modificar a ação humana sobre o mundo, e sobre a natureza. Assim, a ação humana é consequência dessa reflexões, ou teorizações.

Teoriza-se sobre o mundo, natureza e sociedade, e busca-se uma forma de ação que possa incorporar o conhecimento que há na teorização. Humanizar-se é saber o mundo e pensar sobre como agir nele e como estar nele. Para falar da cultura, Freire compara a humanidade aos animais.

A diferença entre os dois, entre o animal, cuja atividade, porque não constitui “atos-limites”, não resulta uma produção mais além de si e os homens que, através de sua ação sobre o mundo, criam o domínio da cultura e da história, está em que somente estes são seres da práxis. Somente estes são práxis. Práxis que, sendo reflexão e ação verdadeiramente transformadora da realidade, é fonte de conhecimento reflexivo e criação. Com efeito, enquanto a atividade animal, realizada sem práxis, não implica em criação, a transformação exercida pelos homens implica.
E é como seres transformadores e criadores que os homens, em suas permanentes relações com a realidade, produzem, não somente os bens materiais, as coisas sensíveis, os objetos, mas também as instituições sociais, suas ideias, suas concepções. (FREIRE, 1970, p. 92)


Em Educação como Prática da Liberdade, que é um livro anterior, Freire também fala sobre o que entende por cultura, e sobre como a participação cultural nos faz diferentes dos animais, e por isso é vista como uma hominização, ou humanização. Vejamos o que diz dos animais de depois das pessoas:

Os contatos, por outro lado, modo de ser próprio da esfera animal, implicam, ao contrário das relações, em respostas singulares, reflexas e não reflexivas e culturalmente inconseqüentes. Deles resulta a acomodação, não a integração. Portanto, enquanto o animal é essencialmente um ser da acomodação e do ajustamento, o homem o é da integração. A sua grande luta vem sendo, através dos tempos, a de superar os fatores que o fazem acomodado ou ajustado. É a luta por sua humanização, ameaçada constantemente pela opressão que o esmaga, quase sempre até sendo feita — e isso é o mais doloroso — em nome de sua própria libertação. (FREIRE, 1965, p. 43)

A partir das relações do homem com a realidade, resultantes de estar com ela e de estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão, vai ele dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai humanizando-a. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo é o fazedor. Vai temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura. E é ainda o jogo destas relações do homem com o mundo e do homem com os homens, desafiado e respondendo ao desafio, alterando, criando, que não permite a imobilidade, a não ser em ternos de relativa preponderância, nem das sociedades nem das culturas. E, na medida em que cria, recria e decide, vão se conformando as épocas históricas. É também criando, recriando e decidindo que o homem deve participar destas épocas.

E o fará melhor, toda vez que, integrando-se ao espírito delas, se aproprie de seus temas fundamentais, reconheça suas tarefas concretas. Uma das grandes, se não a maior, tragédia do homem moderno, está em que é hoje dominado pela força dos mitos e comandado pela publicidade organizada, ideológica ou não, e por isso vem renunciando cada vez, sem o saber, à sua capacidade de decidir. Vem sendo expulso da órbita das decisões. As tarefas de seu tempo não são captadas pelo homem simples, mas a ele apresentadas por uma “elite” que as interpreta e lhas entrega em forma de receita, de prescrição a ser seguida. E, quando julga que se salva seguindo as prescrições, afoga-se no anonimato nivelador da massificação, sem esperança e sem fé, domesticado e acomodado: já não é sujeito. Rebaixa-se a puro objeto. Coisifica-se. — “Libertou-se — diz Fromm — dos vínculos exteriores que o impediam de trabalhar e pensar de acordo com o que havia considerado adequado. Agora — continua — seria livre de atuar segundo sua própria vontade, se soubesse o que quer, pensa e sente. Mas não sabe. Ajusta-se (o grifo é nosso) ao mandado de autoridades anônimas e adota um eu que não lhe pertence. Quanto mais procede deste modo, tanto mais se sente forçado a conformar sua conduta à expectativa alheia. Apesar de seu disfarce de iniciativa e otimismo, o homem moderno está esmagado por um profundo sentimento de impotência que o faz olhar fixamente e, como que paralisado, para as catástrofes que se avizinham. (FREIRE, 1965, p. 44)

Como vemos, já em 1965 FREIRE falava de coisas que parecem ser de hoje. Falava da pessoa do tempo moderno, que sente-se impotente e paralisada diante da complexidade da sociedade, e das manipulações que chegam pelas comunicações de massa (ou publicidade organizada), pessoa que acaba sucumbindo à acomodação, incapaz de realizar a crítica e atuar de forma criativa. Mas falava ele, e falamos nós, não por concordar com esse determinismo social, mas por entender que é preciso dessa consciência para libertar-se. Por isso seu livro foi chamado de Educação como Prática da Liberdade. Libertar-se no sentido da pessoa ganhar conhecimento e condições que lhe permitam ter forças para pensar por si mesma.

Isso nos dá esperança nas lutas pela transformação social na busca da conciliação entre humanidade e natureza.

A pessoa que só assimila a cultura, que se considera desimportante para as mudanças sociais, e não faz crítica nem propõe ações criadoras é como um animal, está deixando de usar seu lado humano.

Veja também da questão 4 em diante em <https://celsovallin.blogspot.com/2013/07/cortella-2003.html>. Lá existem questões e respostas que se referem a um texto de Cortella.


REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro : Ed. Paz e Terra. 1965/1969(2a edição).
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1970/1987(21a Edição).
LARAIA, Roque B., Cultura: um conceito antropológico— Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986/2001(14a Edição).