quarta-feira, 8 de março de 2023

 Para fazer referência
VALLIN, Celso. Poder e democracia na escola. Publicado em blog na internet. 2004. Disponível em https://celsovallin.blogspot.com/2023/03/poder-e-democracia-na-escola-celso.html


PODER E DEMOCRACIA NA ESCOLA


Celso Vallin, 2004 (9p.)


Ninguém gosta de assumir que se fascina com o poder.


Naquele dia em que a religiosa, amiga, e diretora da escola, disse que um de nossos grandes problemas é que queremos ser Deus, no lugar de estar com Deus, fiquei meio chocado.


Em diversas coisas que fazemos na vida, nosso prazer, nosso gosto, o que nos leva a fazer ou procurar alguma coisa, é o poder. A sensação de poder nos fascina.


Quando a criança fica mexendo no botãozinho da luz, acendendo e apagando, acendendo e apagando, faz isso porque está fascinada com o seu poder de controlar a luz e sua ausência, usando somente a ponta de seu dedinho! O que a atrai é a situação de poder. É semelhante ao que acontece com o adulto ou adolescente, quando usa um controle remoto. Mais do que ter poder sobre a luz, ele tem poder sobre imagens que parecem com situações reais, em que estão contidas pessoas, emoções, e sua própria emoção e prazer. Muitas vezes mexe no controle remoto só pelo prazer de mexer. Ter o controle remoto na mão ajuda a afirmar o poder. O mesmo acontece em relação a um rádio ou um computador, cheios de botões. Ter o mundo na ponta dos dedos, traz a sensação de poder. A pessoa gosta porque consegue com facilidade controlar coisas que fazem parte de sua vida. Tem poder sobre elas.


Dirigir um carro também traz essa sensação de poder. Há pessoas que se transformam quando estão atrás do volante de um automóvel. Tornam-se individualistas e competitivas. Algumas vezes agressivas.


Ter poder e gostar do poder é certo, ou é errado?

Qual é o problema do poder?


Usar o poder passa a ser um problema quando se desrespeita o outro. E esse outro pode ser uma pessoa, um grupo, ou mesmo a natureza e a ordem cósmica.


Em alguns casos, para exercer nosso poder, esbarramos em anseios, possibilidades, ou conquistas, de outras pessoas, e isso pode gerar mal estar e disputas. Mesmo que não haja disputas, pode gerar o bem estar ou o mal estar.


Todo mundo gosta de ser percebido e de ser reconhecido. Muitas vezes fazemos escolhas erradas, em função da vaidade, ou dessa necessidade de auto-afirmação e de superação. Mas quando se olha para a comunidade, local ou global, fica mais fácil encontrar nosso papel. Há mais de dois mil anos que se discute esta idéia. Jesus disse:


Vocês sabem: os governadores das nações têm poder sobre elas, e os grandes têm autoridade sobre elas. Entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês; e quem de vocês quiser ser o primeiro deve tornar-se o servo de vocês. (Bíblia, Mt 20,26-27)


Numa escola o diretor, e pessoas da equipe gestora, devem colocar-se a serviço do coletivo. As pessoas que trabalham na estrutura dos ‘sistemas de ensino’, os dirigentes, supervisores, assessores, ou outros, também estão ali para prestar serviço à coletividade. A opção pela gestão democrática do poder fará a diferença entre gerar conflitos e viver com eles, ou ter prazer no trabalho e gerar admiração, em função do desenvolvimento do potencial pessoal na ajuda à organização do grupo e talentos de seus componentes.


Os ‘agentes externos’ que dão apoio à escola podem ser: da estrutura do ‘sistema de ensino’ (dirigentes, supervisores, assessores...), podem ser da universidade, em parcerias com as escolas, e podem ser contratados para prestação de serviços de formação e outros. A relação dos ‘agentes externos’ com as pessoas da escola deve ser vista como uma relação democrática e não como uma simples relação de subordinação. Isto é, todas as idéias precisam ser apresentadas e discutidas com as pessoas que estiverem nos papéis que se relacionarem com elas, pessoas da escola. E a adesão às idéias deve ser conquistada. Toda teoria é bem aceita pelas pessoas e pela escola desde que seja coerente e pertinente. Quando não é bem aceita, deve-se entender como um indicativo de que as pessoas ainda não estão maduras para usar aquelas idéias, e, o melhor processo para chegar àquelas idéias será buscando novos meios para atingir aquelas pessoas e ajudá-las nesse amadurecimento. Além disso, os ‘agentes externos’ não têm consigo todas as teorias, e nem podem ter a certeza das certezas sobre os assuntos. Assim, devem colocar-se sempre numa posição de igualdade, procurando usar o conhecimento a serviço do grupo e das pessoas, e não como forma de poder ou prestígio. Quando estamos na posição de ‘agente externo’ de escolas, e deparamos com idéias discordantes das nossas, o melhor é aceitá-las como parte do diálogo, argumentando, analisando pontos de vista diferentes e até mesmo nos colocando em dúvida, e saindo à procura de mais informações, observações, reflexões, teorias que nos dêem suporte. Muitas vezes somos incoerentes, e isso não pode ser escondido, mas deve ser tratado. Devemos encarar as incoerências como parte do processo, procurando manter o bom humor e as boas relações com as pessoas.


Até mesmo as diretrizes dos programas, planos ou projetos que estamos a desenvolver, podem precisar ser desconsideradas e reconstruídas, em função do diálogo com as lideranças das escolas, das circunstâncias que a realidade das escolas apresenta e do entendimento que cada um tem da realidade.


A comunidade escolar junto com os ‘agentes externos’ (universidade, prestadores de serviço ou sistema de ensino), valendo-se das possibilidades de diálogo — com presença real, via internet ou por telefone, deve encarregar-se de analisar e refletir sobre suas dificuldades e limites, transformando a si própria, em busca de uma escola cada dia melhor. Uma ação externa, que deseja ser ajuda, não pode ditar regras para a comunidade escolar. Essa postura democrática é a única via para o verdadeiro comprometimento das pessoas com a construção da ‘escola cidadã’.


A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. A gestão democrática da escola é portanto, uma exigência de seu projeto-político-pedagógico. (Gadotti, 2001, p.35)


A busca de relações democráticas de poder entre os papéis gera integração, cooperação e participação. É um instrumento que gera realização, prazer e desafio às pessoas, por tratá-las como seres humanos que são, tirando-as da condição de simples funcionários, alunos obedientes ou pais consumidores. Assim, a postura de intervenção dos ‘agentes externos’, deve evitar formalismos e o distanciamento que muitas vezes existe entre eles (autoridades!) e as pessoas da escola de ‘ensino fundamental e médio’.


Quando se deseja ajudar uma escola, a intervenção deve ser construída e reconstruída durante o processo de acompanhamento, e em conjunto com as pessoas das escolas.


Quando se trabalha com a idéia de gestão democrática de poder, na escola, as intervenções e reflexões também acabam por questionar e ajudar a construir a postura democrática dos outros, nas diversas situações que coexistem dentro da escola. Na situação de aula, a postura democrática levará o professor a tratar o aluno como sujeito de idéias, história e vontades, e a procurar maneiras de seduzi-lo para as atividades propostas, além de oferecer propostas que permitam a autoria, criatividade, diálogo, ajudando a desenvolver a autonomia e criticidade do aluno. Cuidar do respeito e cooperação entre aluno e aluno, durante os trabalhos, também será uma demanda importante para o professor. Outro aspecto a ser considerado na aula, dentro da visão participativa, é que não se pode imaginar todos os alunos fazendo a mesma coisa, o tempo todo. Não se pode imaginar que uma sala seja igual à outra, ou que um ano seja igual ao outro. Cada contexto e momento irá requerer uma reação diferente. A proposta educativa deve “dialogar” com o coletivo de alunos.


Os horários pedagógicos, de trabalho, estudo, diálogo e reflexão entre professores, ou de ‘formação em serviço’, podem ser vistos como se fossem as ‘aulas’ com os professores. Nesses momentos a relação da ‘equipe gestora’ com os professores também precisa ser revista e questionada, pelos mesmos motivos. Deve-se procurar desenvolver a assunção de responsabilidades, o diálogo, a cooperação e o compromisso para todos e por todos, abrindo mão das relações hierárquicas e das ações formais ou convencionais, também chamadas, pejorativamente de burocracia.


É comum que os horários coletivos sejam usados para dar avisos. Ora, os avisos podem ser colocados no mural ou entregues em bilhetes. O horário coletivo é um momento muito rico e necessário para que se o desperdice com coisas que poderiam ser feitas cada um a seu tempo e a seu modo. Ser democrático é, também, saber respeitar o valor dos momentos coletivos.


A relação democrática de poder deve ser buscada em outras relações: entre direção e coordenação pedagógica; entre educadores e alunos, em situações fora de aula; entre educadores e pais; entre professores e funcionários; entre gestores e funcionários; entre funcionários e funcionários; entre professores e professores; enfim, em todas as relações da escola deve-se questionar e procurar construir uma relação democrática de poder.


Respeitar o coletivo é buscar viver esse respeito para com todos os papéis e situações: na aula, nas reuniões, ou mesmo no cafezinho dos professores, no futebol com os alunos ou no portão de entrada da escola.


Ser democrático é respeitar os ritmos, as dificuldades, a linguagem e a cultura de cada um, em suas diferenças. As propostas não podem ser impostas. Precisam ser construídas e reconstruídas com as pessoas envolvidas.


Nas minhas relações com os outros, que não fizeram necessariamente as mesmas opções que fiz, no nível da política, da ética, da estética e da pedagogia, nem posso partir de que devo “conquistá-los”, não importa a que custo, nem tampouco temo que pretendam “conquistar-me”. É no respeito às diferenças entre mim e eles ou elas, na coerência entre o que faço e o que digo, que me encontro com eles ou com elas. É na minha disponibilidade à realidade que construo a minha segurança, indispensável à própria disponibilidade.(Freire, 1996, p. 152 – grifo do autor)


Para isso é necessário que se tenha paciência para o diálogo com o outro. Isso envolve tempo e esforço. Muitas vezes os ‘agentes externos’ imaginam que não dispõem de tempo para isso. O tempo do trato democrático é antagônico com o tempo do trato capitalista/“produtivo”. Este procura racionalizar tudo e não tem tempo a perder. Aquele requer tolerância, solidariedade e gratuidade. Para que possamos exercitar nossa vocação democrática, é preciso deixar de lado a pressa, a cobrança exagerada, as programações de conteúdo, e propostas pouco flexíveis. É preciso cuidar para ter uma agenda não congestionada. Todos tendem a perder a capacidade de ser gentil diante da correria, das agendas lotadas, e dos horários apertados e cheios de atribulações. Ter dois ou três empregos, ou muitos ‘contratos’, ou querer fazer mais do que é possível, dificulta para que se tenha a paciência para o diálogo e a disposição para a reconstrução em função dos diferentes contextos.


Há um sinal dos tempos, entre outros, que me assusta: a insistência com que, em nome da democracia, da liberdade e da eficácia, se vem asfixiando a própria liberdade e, por extensão, a criatividade e o gosto da aventura do espírito. A liberdade de mover-nos, de arriscar-nos vem sendo submetida a uma certa padronização de fórmulas, de maneiras de ser, em relação às quais somos avaliados. (Freire, 1996, p. 128)


Respeitar o coletivo exige que se respeite também o individual, as diferenças e o papel de cada um na escola, mas não é um vale tudo. Não é uma anulação dos papéis e responsabilidades. Ser democrático é saber equilibrar autoridade com liberdade, não recaindo nem no autoritarismo nem na licenciosidade.


É interessante observar como, de modo geral, os autoritários consideram, amiúde, o respeito indispensável à liberdade como expressão de incorrigível espontaneísmo e os licenciosos descobrem autoritarismo em toda manifestação de autoridade. A posição mais difícil, indiscutivelmente correta, é a do democrata, coerente com seu sonho solidário e igualitário, para quem não é possível autoridade sem liberdade e esta sem aquela. (Freire, 1996, p. 122)


O ‘agente externo’ que deseja ser democrático, não pode ter receio de assumir sua autoridade, nos momentos em que cabe. Liberdade e autoridade, ou licenciosidade e autoritarismo, expressam-se também no estabelecimento das propostas e dos conteúdos a serem estudados pelos professores, e até nos projetos que são “enviados” para as escolas.


A programação e conteúdo dos horários pedagógicos, ou as propostas externas de ação para a escola, não podem se constituir de assuntos impostos e tratados de forma alienada e alienante. O programa deve ser aberto, prevendo o diálogo, questionamento crítico e reconstrução coletiva. Os temas e estratégias devem ser estabelecidos na tensão das discussões, problemas e necessidades do coletivo. Os ‘agentes externos’ devem colocar-se como educadores no apoio às escolas.


Não há outra posição para o educador ou educadora progressista em face da questão dos conteúdos senão empenhar-se na luta incessante em favor da democratização da sociedade, que implica a democratização da escola como necessariamente a democratização, de um lado, da programação dos conteúdos, de outro da de seu ensino. (Freire, 1992, p. 113)


As propostas devem ser construídas e reconstruídas COM a participação das escolas. Não podem cair de pára-quedas.


Não penso autenticamente se os outros também não pensam. Simplesmente, não posso pensar pelos outros nem para os outros, nem sem os outros. (Freire, 1992, p. 117)



O diálogo deve desenvolver-se mesmo na tensão das diferenças.


O diálogo tem significado, precisamente porque os sujeitos dialógicos não apenas conservam sua identidade, mas a defendem e assim crescem um com o outro. O diálogo, por isso mesmo, não nivela, não reduz um ao outro. (Freire, 1992, p. 118)


O ‘agente externo’ que se coloca no papel de educador consegue potencializar a ação das pessoas da escola. A resposta deles será de acordo com as intervenções externas.


Se o pensamento do educador ou da educadora anula, esmaga, dificulta o desenvolvimento do pensamento dos educandos, então o pensar do educador, autoritário, tende a gerar nos educandos sobre quem incide, um pensar tímido, inautêntico ou, às vezes, puramente rebelde . (Freire, 1992, p. 119)


Mesmo estando numa posição externa, e colocando-se numa postura democrática e dialogal, é possível exercer grandes influências na organização da escola, como um todo, ajudando-a a transformar a si mesma. É o que descobri em pesquisas com três escolas estaduais (Vallin, 2004).


O projeto CER (Comunidade escolar de Estudo, trabalho pedagógico e Reflexão) foi uma experiência de parceria entre escolas, com o uso de novas tecnologias e que se baseou nos conceitos de espiral da aprendizagem e relações democráticas de poder.


Tendo em vista a intenção de mexer com a escola como um todo, e não com ações e experiências isoladas, sempre procurei respeitar as estruturas e os papéis existentes. Foram respeitadas (e desenvolvidas) a autonomia das escolas e das pessoas em seus papéis, assim como suas características e diferenças. Sempre me policiei para não pensar que a reflexão feita com uma escola seria feita da mesma forma com as outras. Sempre procurava manter meus ouvidos e olhos abertos, nas interações (presenciais, por telefone ou via internet), para perceber a situação de cada escola, as visões e o entendimento de seus educadores.


Em minha intervenção tive o cuidado de provocar as pessoas sem tirar-lhes a autonomia e responsabilidade a respeito dos papéis até então estabelecidos. Assim, ao me colocar ao lado de um professor, me questionava - que bases teóricas poderiam ajudá-lo na formulação e no acompanhamento daquelas práticas de aula? Ao me colocar ao lado de quem coordenava a 'formação em serviço’, me questionava - que metodologia e base teórica poderia usar nos horários pedagógicos (HTPC)? Eu, como pesquisador não poderia, nem deveria assumir a formulação ou condução da ‘formação em serviço’ dos professores, para não anular o papel das pessoas da ‘equipe gestora’. Nem poderia tentar trazer prontas ou traçar as diretrizes para a escola. Muito menos assumir aulas. Por outro lado, era preciso encontrar possibilidades de interferir nesses espaços - coordenação pedagógica e docência. Dessa forma, sempre me coloquei de maneira a provocar a direção, a coordenação, os professores e outras lideranças, para serem sujeitos e não objetos do sistema escolar, mesmo que em alguns momentos alguns deles mostrassem um certo comodismo e falta de comprometimento, clamando por um papel mais instrumental do que de sujeito.


Quando me refiro à atuação como sujeito não penso em sujeitos isolados ou prepotentes. Penso em sujeitos que cooperam entre si e trabalham dentro do coletivo. Embora sempre respeitasse a organização da escola e as responsabilidades de cada papel, desincentivava a simplificação funcional e o isolamento nos papéis que a hierarquia provoca.


Minha ação foi, na maior parte das vezes, no nível da gestão escolar1. Nesse nível eu participava dos planejamentos, análise e avaliação dos HTPC2, e dos Encontros e outras ações que envolviam os professores. Minhas visitas presenciais não tinham regularidade, mas aconteceram perto de duas visitas por mês a cada uma das três escolas. O acompanhamento via internet era diário. A estratégia usada foi sempre uma costura entre contatos por telefone, conversas presenciais e troca de mensagens em grupo pela internet. Pelo telefone eu procurava marcar dia e hora para uma conversa presencial com a direção de uma escola de cada vez; depois, nessa conversa, procurava questionar e interferir na organização dos HTPC. Muitas vezes estive presente aos HTPC (por volta de uma vez por mês). Neles, eu assistia mas procurava não interferir, para não tirar a autoridade e autonomia do papel de quem o estivesse coordenando. Quando interferia procurava fazê-lo como participante, desvestido de qualquer autoridade ou formalidade que normalmente um visitante ou uma pessoa da universidade acaba gerando. No princípio as negociações aconteciam separadamente em cada escola, e depois, conforme foi se dando o amadurecimento das relações com as ‘equipes gestoras’, foram crescendo as possibilidades de encontros e negociações conjuntas. Começando com uma ação isolada, em cada escola, procurava pontos em comum entre elas para, a partir daí, propor ações conjuntas. No início, buscava fortalecer a interrelação de professores dentro da própria escola e depois, e ao mesmo tempo, buscava levar uma escola às outras.


O acompanhamento das ‘equipes gestoras’ (no que dizia respeito à parte pedagógica da escola), e dos professores (nos trabalhos e reflexões coletivas), buscava provocar e auxiliar para que houvesse mais e melhores processos de planejamento, reflexão, registro, análise e avaliação (para formar a “espiral da aprendizagem” – ver figura 2), sempre respeitando o jeito de pensar e de agir de cada um. Precisávamos do comprometimento das pessoas neste processo de estudo, ação e reflexão. As quatro idéias que compuseram as bases do projeto CER (figura 1) são bastante interligadas: (1) a costura entre as interações via internet, por telefone e presencial; (2) a atitude democrática do pesquisador, e a busca de relações mais democráticas dentro da escola; (3) a parceria entre escolas e a busca de relações democráticas ali também; (4) ‘espiral da aprendizagem’, no individual, nas equipes, no geral da escola, e nos momentos conjuntos, na parceria entre escolas.


Buscando que acontecesse o uso da internet na escola, fazia questionamentos, sugestões e acompanhamentos que buscavam manter o bom funcionamento da sala de informática.


Aos poucos as pessoas foram se integrando à comunidade escolar de estudo trabalho e reflexão pedagógica e encontrando novas possibilidades de tempo para o trabalho pedagógico. Mais para frente foi possível trabalhar em conjunto, pesquisador e ‘equipes gestoras’, coletivo de professores das três escolas, planejando novas ações em conjunto, realizando ações conjuntas, refletindo e avaliando o processo em que nos encontrávamos, no coletivo, e em função disso, replanejando e recomeçando, como indica o esquema da figura 2.


Como pesquisador, atuei nas escolas junto às ‘equipes gestoras’, e interferi na ‘formação em serviço’ dos professores, mas não havia um conteúdo anterior ou obrigatório a ser seguido, como costuma haver quando se organizam cursos. Mesmo assim, havia uma intencionalidade minha.

Minha intenção e intervenção nas escolas foram no sentido de: (1) criar novas e melhores oportunidades e condições para que acontecesse uma interrelação pessoal entre professores (e gestores), buscando um diálogo sobre as questões pedagógicas, numa relação democrática entre eles; (2) nesse diálogo, era buscado o funcionamento da ‘espiral da aprendizagem’, individual e coletivamente; ou seja – mais situações de planejamento, mais situações de reflexão sobre a prática pedagógica; mais depuração, ligando as reflexões aos novos planejamentos; e isso tudo intermeado por trocas entre educadores, ligando a ação e reflexão individuais com o coletivo – em pares, em equipes, ou no coletivo geral. Três das bases do projeto (figura 1) podem ser vistas como bases estratégicas: (base 1) ‘grupos via internet’, (base 2) ‘parceria entre escolas’, e (base 4) ‘relações democráticas de poder’. Isso porque servem como estratégia para se conseguir o desejado. Já a ‘espiral da aprendizagem’ foi usada como base teórica e epistemológica (base 3), ou seja a “espiral” traduz o modo como se entendeu que aconteceria a aprendizagem da docência. A base - ‘relações democráticas de poder’ – foi estratégia porque gerou satisfação nas pessoas, libertação, gerando realização e as envolvendo com a escola e a aprendizagem. Mas foi também atitude e objetivo, porque fazia parte das convicções e ideais do pesquisador.


Base 1

Base 2

Base 3

Base 4

Figura 1 – Bases do Projeto CER


Assim, pode-se ver que, no projeto CER, apesar de eu atuar por meio do diálogo democrático, tinha uma clara intencionalidade. Buscava o diálogo pedagógico e o funcionamento da “espiral da aprendizagem” (figura 2).


As ações focalizaram mais o professor, mas as intervenções diretas foram mais no nível dos gestores. Os professores foram provocados a apresentar suas experiências e impressões pedagógicas, e convidados a conversar sobre elas. Entendia-se que isso provocaria o encontro de idéias, que depois geraria uma possibilidade de ajuda, ainda que unilateral; depois, mais adiante, ajuda mútua e até trabalhos conjuntos.




Além das intenções, havia também certos pressupostos. Partiu-se do pressuposto de que a melhoria nessa relação entre professores e o funcionamento da ‘espiral da aprendizagem’, levariam a mudanças no desenvolvimento dos alunos, dos próprios professores, e da ‘equipe gestora’, e até criariam abertura para a melhoria das relações com os pais, e com os demais funcionários, e entre eles. Entendia-se que, a melhoria do diálogo pedagógico e funcionamento da ‘espiral da aprendizagem’, levariam a uma escola mais cidadã, por privilegiarem oportunidades e situações de autoria e reflexão.


Pressupunha-se que fazer a ‘formação em serviço’ de professores nas bases do projeto CER levaria a mudanças na escola como um todo em direção a uma escola mais cidadã. Ou seja, que usando, e bem explorando, a comunicação via grupos-de-diálogo pela internet (base 1 – estratégia), estabelecendo, e bem explorando, a parceria entre escolas (base 2 - estratégia), e praticando e buscando relações democráticas de poder (base 4), na ‘formação em serviço’, no momento em que, a partir da compreensão e motivação das ‘equipes gestoras’ das escolas, fossem melhorados os espaços intersubjetivos de encontro de professores (com disponibilidade de tempo, com dinâmicas coletivas e de equipe, com facilidades e motivações para a comunicação), e esses espaços fossem bem cuidados, no sentido de levarem ao funcionamento da ‘espiral da aprendizagem’ (base 3 – epistemologia), aconteceriam mudanças na escola como um todo, mudança no sentido de se ter gestores, e professores como sujeitos e solidários em suas ações, bem como alunos, pais e funcionários.


Acreditava-se que, ao melhorar esses espaços de interação entre educadores, com a ocorrência de encontros, relatos, trabalhos conjuntos (cooperativos/colaborativos), o professor fosse se colocar mais como sujeito de seu próprio trabalho, solidário aos colegas e não solitário, e o resultado junto aos alunos melhoraria como conseqüência.


Esses eram os pressupostos, e a partir da ação prática e experimental em torno deles, foi possível buscar o objetivo maior da pesquisa: descobrir meios, dentro da complexidade da escola, para conseguir, com o uso de novas tecnologias e com a parceria entre escolas, melhorar as oportunidades e a qualidade da interação entre educadores, despertando hábitos de estudo, trabalho pedagógico e reflexão, individualmente e no coletivo.


No princípio eu imaginava que o grande diferencial das pesquisas do projeto CER fosse o diálogo pela internet, com trocas de mensagens escritas. Isso aconteceu e foi importante, além de ser uma novidade no diálogo entre professores. Mas o que considero que tenha sido o mais importante, aconteceu nas interações presenciais. Os tempos que as escolas participantes dedicaram à ‘formação em serviço’ de professores em 2003 foi quase o dobro do que aquele que acontecia anteriormente. Ou seja: foram abertas novas oportunidades para que o professor estudasse, desenvolvesse seus trabalhos pedagógicos, e refletisse em comunidade, tanto no plano presencial como via internet.


Não foi possível computar o tempo dedicado à escrita e leitura de mensagens para as trocas via internet, porque essas atividades acabaram acontecendo, quase que exclusivamente, fora do ambiente e horário escolar: em casa. Mas no total, foram escritas quase 2000 mensagens nesses mais de dois anos abrangidos pela pesquisa. Mesmo sabendo que muitos não acompanhavam esse diálogo a distância, e que outros, quase só liam e pouco escreviam, essas interações tiveram um peso importante, na reflexão e ação conjunta. Imagine-se: quanto tempo foi voluntariamente dedicado a isso?


Costurando interações a distância e presenciais, num esforço conjunto, pesquisador, ‘equipes gestoras’, e professores, conseguiram mudar muita coisa nas três escolas. O professor passou a:

  • estudar mais, e estudar em conjunto com os colegas de escola;

  • elaborar mais, as suas propostas para a aula;

  • apresentar mais, o que fazia, aos colegas;

  • conhecer melhor o que seus colegas faziam;

  • e alguns até desenvolveram trabalhos em conjunto.


Todos – professores e gestores – passaram a usar mais comumente a ‘espiral da aprendizagem’, com avaliação, com mais registros, com mais interação entre pares, tanto no planejamento como na avaliação/reflexão. Tivemos mais interação entre educadores, até no acompanhamento, durante a ação pedagógica.


Grosso modo, pode-se dizer que foi construída uma parceria entre três escolas públicas. Essa experiência foi coordenada por este pesquisador, mas construída com a ajuda de todos, principalmente com as ‘equipes gestoras’ das três escolas. Construímos uma parceria apoiada:

  • nas trocas de mensagens via internet;

  • nos Encontros de professores;

  • em ações com alunos, planejadas, acompanhadas e avaliadas conjuntamente;

  • na ampliação das oportunidades de interação entre professores;

  • em estudos de teorias relacionadas a desafios práticos do contexto;

  • e na busca de relações democráticas de poder, procurando unidade e respeitando diversidade.



Mesmo dentro das carências, complexidade e dificuldades que vive a escola pública, pode-se perceber que a liderança democrática, o uso criativo das novas tecnologias e a espiral da aprendizagem podem melhorar muita coisa rumo à escola cidadã.



Referências:

BÍBLIA. N. T. Mateus. Português. Bíblia sagrada. Trad. Storniolo, I.; Balancin, E.M. São Paulo: Paulus, 1990. p. 1266


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 7. edição, São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

GADOTTI, Moacir. Projeto Político-Pedagógico da Escola. In: GADOTTI, M.; ROMÃO, J. E. (orgs.) Autonomia da Escola: princípios e propostas. 4. ed. São Paulo: Cortez ou Instituto Paulo Freire, 2001.

VALLIN, Celso. Projeto CER: Comunidade escolar de Estudo. trabalho e Reflexão. São Paulo: PUC-SP. Tese de Doutorado. Disponível em https://tede2.pucsp.br/handle/handle/9525.



1 Gestão escolar = a ‘equipe gestora’ das escolas estaduais em São Paulo é composta por 1 diretor, 1 ou 2 vices, e 1 ou 2 PCPs (Professor Coordenador Pedagógico), dependendo do tamanho da escola.

2 HTPC= horário de trabalho pedagógico coletivo.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

1o de abril mudou de dia

 É triste, mas hoje ouvi gente falando que não aconteceu GOLPE de Estado no Brasil em 1964. 


Nos Estados Unidos, pela lei deles, depois de passados 50 anos, os documentos que eram SECRETOS passam a ser públicos. E já se passaram mais de 50! 


No Brasil ainda  tentam esconder, mas olhando os documentos estadunidenses vemos que a Marinha deles deu apoio concreto ao golpe, com navios porta-aviões que vieram até a costa próxima ao Rio de Janeiro e SP. 


Veja as notícias que explicam:

https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/operacao-brother-sam-golpe-de-64-teve-apoio-dos-eua.htm



A Marinha americana deu apoio aos militares brasileiros para depor o presidente João Goulart.


Mas quem havia dado legitimidade para ele ser PRESIDENTE? 

Os votos do povo. 

O João Goulart foi eleito, junto com Janio Quadros. Depois que Jânio renunciou, Jango passou a ser o presidente. 


E veja: naquele tempo o Vice tinha votação separada. O Jango foi eleito, não porque estava na CHAPA do Jânio, mas porque recebeu votos para se eleger por ele mesmo.



Enfim, pior do que o GOLPE foram as violências que vieram depois. Além de não existir democracia, praticavam a TORTURA. Nunca houve uma lei que autorizasse a tortura. Faziam isso à revelia das leis deles próprios. Era tudo às escondidas. Criminosos de farda.


Tudo uma vergonha. Mas vergonha pior é não sabermos a história do Brasil, ou tentarmos esconder.


Por isso, não há como conversar alguma coisa no dia de hoje, sem falar no GOLPE de 1964. 

1 abril foi quando aconteceu. Até nisso tentam enganar as pessoas. 


É tudo muito triste.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022


 Ontem fui conhecer os acampamentos do MST próximos a Belo Horizonte: Pátria Livre e Zequinha. Existe uma serra ao lado que é marcante. A paisagem é linda. O rio Paraopeba passa em um lugar em que a serra "se abaixa".


Muita gente mora ali, e a terra para cada família é pouca. Não vi plantações muito extensas. Na foto vemos o milho plantado.

A Escola Itinerante Elizabeth Teixeira funcionava com apoio do gov. estadual. A placa mostra o zelo que tiveram e a importância que têm para eles e elas. Ao fundo são vista as salas de aula que construídas pelas pessoas do MST e não pelo estado.

Abaixo as mesmas salas, um pouco mais de longe

Outras salas. São dois prédios com salas. A escola tinha bastante alunos. Funcionava desde a educação infantil até o ensino médio, e tinha também EJA. Funcionava 3 turnos. Com aulas até à noite! 

Lá no fundo,as pinturas mostram o cuidado, zelo, na pintura feita com a participação de muitas pessoas

A biblioteca era com doações, pequena, e foi toda atingida pela enchente da semana passada.

As chuvas trouxeram de novo a lama dos rejeitos da Vale Mineradora, mexendo com as beiradas do
Rio Paraopeba. A enchente foi a maior em 50 anos





A água estragou impressoras , máquinas de costura, e muita coisa


Nesse barraco funcionava uma venda e tinha uma mesa de jogo. Dá para imaginar pessoas confraternizando em volta. 
Uma hora eu ainda voltarei lá, para ver tudo reconstruído, pintado e cheio de vida.









sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

 

ENTENDENDO O ATAQUE ÀS LEIS TRABALHISTAS


Celso Vallin, 21/06/2017


Dizem que "quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro". Existe uma lógica geral que estrutura a sociedade que valoriza mais as pessoas que conseguem fazer negócios do que as que trabalham. E os negócios envolvem o trabalho de pessoas. Quando uma empresa contrata empregados está comprando o trabalho da pessoa. Grandes fortunas não vieram do trabalho, mas de boas negociações e de esquemas que se aproveitaram de oportunidades, nem sempre dignas, nem sempre completamente dentro das leis. O capitalismo é o mundo dos negócios! Os negócios maiores apoiam-se nos menores, e esses sempre apoiam-se no trabalho das pessoas. Não há como sustentar um negócio, ou empresa, que não seja apoiando-se no trabalho das pessoas, que dedicam diretamente seu esforço corporal, seu conhecimento, e habilidades manuais e intelectuais.

A CLT é de 1943, e foi resultado de lutas da classe trabalhadora, apesar de Getúlio Vargas representar um governo burguês. As leis trabalhistas asseguram direitos à classe trabalhadora e limitam o poder de quem contrata o trabalho de pessoas, e faz negócios com o produto do trabalho.

Sabemos que, cada vez mais, temos pessoas que trabalham sem carteira assinada. Algumas trabalham na informalidade, sem direitos. Outras trabalham por contrato e negociam algumas condições, mas não têm os plenos direitos da lei trabalhista. Por ai se percebe que a lei atual não consegue assegurar todas as relações de trabalho. Protege algumas.

Em 2017, quando essa reflexão foi escrita, o governo e congresso tentavam aprovar projetos para alterar as leis trabalhistas e da previdência. No livro "Adeus ao Trabalho?", em 1995, Ricardo Antunes estudou o tema e agora volta ao tema dizendo que a sociedade estava:


penetrando numa era de precarização estrutural do trabalho em escala global. O que naquele momento era uma relativa exceção - o trabalho precário, informal, terceirizado - tenderia a se tornar a regra. E a regra - o trabalho contratado, regulado, com direitos - tenderia cada vez mais a se tornar a exceção. A tragédia é que esse quadro se consolidou (ANTUNES, 2017)’


Esse movimento de precarização das condições do trabalho não é algo que dependa só da lei, nem algo que acontece só no Brasil. Vem acontecendo na China, Ìndia, EUA e tantos países ao longo das últimas décadas. A mudança das leis brasileiras é parte desse movimento internacional, desse jeito de pensar, dessas intenções que, em geral, derivam de interesses de empresários e desfavorecem a classe trabalhadora.

Quem está olhando do ponto de vista do negócio, espera poder contratar pessoas que trabalhem somente nos momentos e situações em que precisa, e que tenha certeza de que ganhará bem, contratando trabalho e vendendo seu produto.

Por outro lado, quem trabalha quer estabilidade e condições subjetivas e objetivas para poder trabalhar em paz. Assim, se a sociedade quiser favorecer o trabalho, e as pessoas que vivem do trabalho, precisa assegurar condições que permitam que a pessoa tenha uma vida digna, tanto por receber por seu trabalho o suficiente para sustentar a vida sua e de seus dependentes, como porque não estará arriscando-se a acidentes, a adoecer-se pelo trabalho, nem perder sua dignidade. Outro dia eu estava num supermercado e ouvi duas funcionárias conversando. A moça do caixa pediu à encarregada se poderia ir ao banheiro. A resposta foi não, porque já havia outra funcionária lá. Isso nos dá uma ideia de condições que podem tirar a dignidade de alguém. Antunes fala de uma escravidão do século XXI. Vejamos:


É evidente que não estamos voltando ao trabalho escravo de 1500, estamos falando de uma escravidão inclusive digital, do trabalho terceirizado, precarizado, informal, do trabalho sem direitos, de uma dependência do sistema perverso de metas, que tem levado a suicídios e adoecimentos do trabalho. Nós estamos em 2017, comemorando 100 anos da Greve Geral de 1917, e se esse processo não for obstado vamos regredir à condição vigente de trabalho antes de 1917. (ANTUNES, 2017)


Mesmo numa universidade pública, há pessoas contratadas por terceirização. Essas, são vistas por muitas, e por elas mesmas, como se fossem inferiores, e que por isso deveriam trabalhar caladas.

Se diz, na grande mídia, que a reforma trabalhista irá permitir que as férias da pessoa sejam divididas em até três vezes, que poderá ser negociada a ampliação da jornada de trabalho para 12h diárias, e ainda que, no lugar de pagar horas-extra, haverá um banco de compensação de horas. Dizem que todas essas medidas seriam negociadas com quem trabalha.

Então, qual seria o problema?

Acontece que existe um desequilíbrio de forças entre o empresariado e a pessoa contratada. Quem trabalha em empresa sabe que se não concordar com as condições impostas, a pessoa será demitida. Na maior parte dos casos as pessoas concordam com as condições impostas pela empresa, se submetem, por recearem a demissão, por saberem que se "criarem caso" serão as primeiras a serem demitidas logo que isso for conveniente para a empresa. É comum que exista uma alta taxa de turn over: em um momento promovem demissões e em outro fazem novas contratações. Isso colabora para a fragilidade de quem está num posto de trabalho. E sabemso que empresas não querem trabalhadores/as que as questionem. Quando isso aconttece, logo dão um jeito de dispensarem tais pessoas. Por isso é importante o sindicato. A CLT protege quem trabalha para o Sindicato. Essas pessoas protegidas por lei podem então atuar na negociação com o patronato, pelos direitos de todos/as. Por isso a proposta de reforma quer extinguir a obrigatoriedade da contribuição ao sindicato. Com isso irão enfraquecer os sindicatos e fortalecer o empresariado. Essas são medidas que enfraquecem quem trabalha e fortalecem a burguesia, que vive de negócios a partir do trabalho de outras pessoas. Antunes diz:


É claro que esse cenário todo, que é profundamente ideológico, é muito poderoso. Na empresa, você tem um trabalhador contra o outro, um não pode conversar com o outro e as resistências e ações sindicais são combatidas. O salário é individualizado. Só ganha quando produz e quem produz mais ganha mais. E quem produz menos, perde o lugar. É o reino da competição selvagem. Isso macula a classe trabalhadora. (ANTUNES, 2017)


Precisamos ter condições para valorizar e fortalecer o trabalho e não o negócio, ou o oportunismo. Isso envolve a consciência de classe. Para termos força nas lutas que procuram valorizar quem trabalha, e para dar boas condições de vida e de trabalho a quem se dedica ao trabalho, é preciso enfraquecer os dispositivos que estimulam a concorrência entre pares. Precisamos que pessoas de diferentes situações e empresas, de diferentes tipos de contratação se vejam como pares, que se unam, que percebam que são exploradas de formas diferentes, e que lutem para que a sociedade dê mais valor ao trabalho, e menos ao oportunismo e às jogadas que, tantas vezes, invadem as ilegalidades, usam acordos secretos e inconfessáveis para se dar bem. Finalizamos com Antunes:


O trabalho que estrutura o capital desestrutura a humanidade. O trabalho que estrutura a humanidade - porque o trabalho é uma atividade vital - é imcompa-tível com o trabalho que o capital quer nos impor. É o enigma do século XXI. Por isso é que é ficção a ideia de fim do trabalho. Como é um horror uma sociedade em que só se trabalha. O trabalho deve ser fundado em ser uma atividade vital, que produza coisas úteis, de acordo com o tempo socialmente disponível. E isso é um imperativo categórico para a sociedade do século XXI. (ANTUNES, 2017)


ANTUNES, Ricardo. Na escravidão o trabalhador era vendido. Na terceirização, é alugado... 17 maio 2017 Revista Carta Capital. Na internet https://www.cartacapital.com.br/sociedade/201cna-escravidao-o-trabalhador-era-vendido-na-terceirizacao-ele-e-alugado201d/.

 

Li e assisti à entrevista de Chomsky que é muito interessante e importante.

Noam Chomsky entrevistado pela RTP. 14 Maio 2015. 27min.
Disponível em vídeo em https://www.rtp.pt/noticias/mundo/noam-chomsky-entrevistado-pela-rtp_v828624

Ele questiona sobre comunidade. O que é uma comunidade? O que precisaria acontecer para considerarmos uma vida em comunidade? Talvez seja cada dia mais difícil encontrarmos ou vivermos uma comunidade.

Cada pessoa vive em contato com SUA rede social de uma forma individualista. Não se trata de um grupo, mas muitas malhas que se sobrepõe. Não estamos de alguma forma reunidos. O que nos reune e orienta nosso comportamento é a institucionalidade geral da sociedade. Nesse caso existem os governos, municipal, estadual, federal, o poder legislativo, o judiciário, e mais algumas instituições que são fora dessas estruturas, como os conselhos, os movimentos sociais , ongs, partidos... E existem os meios de comunicação em massa que interferem no geral. Por outro lado a participação da população, em geral, na política e nas decisões que a afetam é pequena, quase nula ( 8 min).

Na América do Sul tem havido esforços de descolonização mas são anulados. A cooperação entre países é importante.

O programa neoliberal não é bem liberal, mas é forçado. E os mais ricos (uma minoria de 2%), forçam os mais pobres (a grande maioria). Existem ilegalidades, imoralidades, guerras, ações terroristas secretas e coisas assim que são usadas para assegurar e manter o poder dessa minoria.

Em quase toda parte (17min) as populações são atingidas. Quando começou o neoliberalismo (após os anos 1970), qual era o contexto mundial? Havia jovens desiludidos com o "progresso" que destrói a natureza e desrespeita as pessoas. Hippies na França, Inglaterra, EUA fazem protestos.

O poder econômico(21min) controla o sistema político: votos, congressistas...

Final: fala do Estado Islâmico e sobre o "terrorismo".

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

DEPENDÊNCIA OU SOBERANIA SOCIAL

Jan 2021 - Celso Vallin


Quero analisar como uma região territorial pode se tornar dependente, ou ganhar autonomia. São dois processos sobre os quais vamos refletir. Muitas vezes vemos uma região em que as pessoas são pobres e têm muita dificuldade para cuidar da vida. Ficamos pensando sobre: o que poderia mudar aquela situação? De outro lado, temos também regiões muito ricas, com tudo muito bonito, onde a vida é fácil. O que poderia colaborar para transformar uma situação de pobreza? Será possível e viável?

Para refletir, começo pela descrição de uma situação real que conheço. Uma amiga tinha uma terra que foi, há muitos anos, uma fazenda produtiva, de seu avô, bisavô, e depois de seu pai. Mas ela morava na cidade grande e a terra estava lá, abandonada, fazia tempo. Embora tivesse boas lembranças, e saudades, da vida de criança na fazenda, não se sentia em condições para recuperá-la. A fazendo estava parada. Tinha até vontade de fazê-la voltar a funcionar, e sonhava em viver nela, no lugar de viver na cidade, mas não se sentia capaz. Mesmo assim, vivia a dúvida, e considerava que na fazenda poderia, talvez, ter uma vida melhor do que estava tendo na cidade. Até que um dia apareceu uma proposta de uma empresa para plantar eucalipto naquelas terras. E mesmo morando longe, a proposta se tornou viável. Bastou assinar um contrato, para que fizessem tudo o que fosse necessário. Dessa forma ficou muito fácil. A empresa plantou mudas compradas aos milhares, mas antes preparou a terra. Durante o crescimento das árvores, algo perto de seis anos, a empresa cuidou de tudo. Em certa época foi feito um controle para as formigas não atacarem, em outra época cortaram certos galhos, para o crescimento ser do modo esperado, fizeram adubação química... E quando os pés de eucalipto já estavam grandes, a própria empresa deu um jeito de serem cortados, a madeira foi preparada para ser transportada por caminhões, que vieram e levaram para venda. Então, não foi necessário fazer nada. Só foi preciso declarar parceria, por meio do contrato, com aquela empresa. A pessoa entra com a propriedade da terra e a empresa colabora com todo esse trabalho. Mas não se pode dizer que essa empresa faça os trabalhos, porque tudo é subcontratado. São várias outras empresas menores que são contratadas para cada fase do empreendimento, e existe um custo para cada serviço prestado. As empresas contratadas para os serviços nem são do local, mas se deslocam de outros municípios, algumas vezes vêm de longe, para realizar tais trabalhos. Um banco financia tudo, tendo como garantia a propriedade da terra. A pessoa não precisa ter dinheiro nenhum. Quando chega no final, e a madeira é vendida conforme o preço de mercado, as contas são acertadas. De tudo o que for recebido, descontam-se as despesas que houve durante a produção, e mais uma taxa de lucro para a empresa que cuidou do negócio, e o restante fica para a dona da terra. Esse esquema de produção parece muito interessante. Mas quero comentar que isso pode fazer parte de uma situação que vai seduzir pessoas que vivem numa região, e, embora pareça ser uma facilidade e uma vantagem, ao longo do tempo, esse esquema acaba gerando dependência. Quero refletir ainda sobre o problema de se gerar dependência. Nesse caso que tomei para exemplo, minha amiga, já não morava mais na terra há anos, por outros motivos. Aquela pessoa já tinha ido embora para a cidade grande, buscar outros meios de vida. Mas muitas pessoas acabam entrando nesse mesmo esquema, como uma alternativa a outros modos de produção e subsistência, porque não estão conseguindo bons rendimentos de outra forma, ou porque não precisar trabalhar, é mais fácil, mais seguro... E qual seria o problema? Inicialmente parece uma boa opção. Mas vamos problematizar, mostrando que isso não é bom para a região, que passa a perder autonomia e soberania.

Eduardo Galeano, em Veias Abertas da América Latina, mostra como os europeus, espanhóis e outros, vieram aqui para a América do Sul, e para a América Latina, México, Caribe... E, com o passar do tempo, todo o sistema de vida dos indígenas, que eram os maia, os astecas, e os incas, além dos indígenas brasileiros, acabaram perdendo sua capacidade de organização, trabalho autônomo e sustentação da vida. Galeano fala que o modo de agir dos colonizadores mudou toda a vida do povo que, inicialmente era bem organizado e que tinha uma boa produção, com milhões de habitantes, sabedoria, e muitas realizações. A situação os transformou em pobres e incapazes. As regiões também se tornaram pobres. As regiões de mineração de ouro, prata e mercúrio, tiveram períodos de grande riqueza, que até hoje chamam atenção pela grandiosidade, pela história, e pelo que ficou em igrejas, monumentos, objetos de arte... Tudo muito maravilhoso, mas na época havia uma desigualdade grande, e depois, toda essa riqueza acabou se transformando em pobreza. E as cidades diminuíram e vivem hoje com monumentos fechados, abandonados, pouca produção, e cheios de problemas para conseguir se sustentar e viver. Olhando para essa história, percebemos que o que determina uma boa vida, um bem estar social, não é a riqueza natural, nem a tecnologia, o conhecimento e o progresso. Vemos que antes daquele período, os indígena não conheciam a roda, nem usavam cavalo, não conheciam o ferro, nem a pólvora, mas tinham plantações com irrigação artificial, que criaram, tinham grandes plantações de milho, mandioca, feijão, amendoim, batata-doce, além da organização social. E por serem povos muito numerosos, e pelas obras que deixaram, podemos saber que tinham sucesso. Depois, apesar dos europeus trazerem consigo novos conhecimentos, novas tecnologias, o que acabou resultando naquelas regiões foram cidades com menos gente, e abandonadas. Aquilo foi um projeto de desmanche. No trecho que mostramos a seguir, podemos ver detalhes da riqueza, e de como os indígenas, habitantes originais, eram mal tratados.

O padre Marmolejo descrevia mais tarde a cidade de Guanajuato, atravessada pelas pontes, com jardins que tanto se pareciam com os de Semíramis na Babilônia, e os templos deslumbrantes, o teatro, a praça de touros, a arena de galos e as torres e as cúpulas alçadas contra as verdes encostas das montanhas. Mas este era "o país das desigualdades", e Humboldt pôde escrever sobre o México "Em lugar algum a desigualdade é tão espantosa (...) a arquitetura dos edifícios públicos e privados, a finura do enxoval das mulheres, o ar da sociedade: tudo anuncia um esmero extremado que se contrapõe à nudez, à ignorância e à rusticidade do populacho". Os socavões [da mineração] engoliam homens e mulas nas encostas das cordilheiras; os índios, "que viviam apenas para sobreviver ao dia", padeciam de fome endêmica, e as pestes os matavam como moscas. Num só ano, 1784, uma onda de enfermidades provocadas pela falta de alimentos, resultante de uma geada arrasadora, ceifou mais de oito mil vidas em Guanajuato. (GALEANO, 2020, p. 62)

Essa descrição de Galeano, de um processo de desmanche que durou mais de século, e que é muito amplo, atingindo países inteiros, causou males que duram até hoje. A empresa de eucaliptos, e os europeus com sua mineração de ouro, prata e mercúrio, em diferentes medidas e escalas, ambos causam a dependência e até o desmanche de uma estrutura social e econômica de soberania. Mas pode acontecer o inverso também. Um bom exemplo foi mostrado numa reportagem do Globo Rural em 03/01/2021. Mostram pessoas no Vale do Jequitinhonha, nos municípios de Francisco Badaró e Jenipapo de Minas Gerais, que têm uma vida muito pobre, mas que por meio de projetos sociais e parceria, com universidade e ONGs, estão conseguindo uma boa renda, em função de seus bordados, tecelagens, poesias e cultura local. Ali se percebe um projeto de desenvolvimento social. A reportagem é toda bonita, poética, musical, com imagens e roteiro muito bem construídos. Importante perceber que a TV produziu um vídeo muito bonito, mas a realidade retratada foi construída e sustentada por projetos sociais. Um deles é da UFMG, chamado Projetos do Polo Jequitinhonha (https://www.ufmg.br/polojequitinhonha/projetos-do-polo-jequitinhonha/). Também fundaram uma ONG, chamada Ajenai, que foi fundada em 1999. Em suas páginas podemos ver que o processo não é tão imediato. A TV construiu a imagem, o roteiro, e conta a história de uma forma muito bonita e até mágica, romântica. Sugiro que antes de terminar a leitura, você faça acesso ao endereço internet que está no final, para ver. A reportagem nos permite perceber duas comunidades que se desenvolvem. É o contrário do que aconteceu com os povoados indígenas, e do que acontece nas regiões tomadas pelo eucalipto. Certamente projetos sociais podem influenciar toda uma comunidade pobre e insustentável, com vida difícil, tornando o território, um lugar de mais vida, mais beleza, e melhor economia e bens de vida. Poderíamos citar outros projetos sociais que deram certo.

Finalmente, podemos questionar: que relações existem entre a história do eucalipto, dos indigenas contada pelo Galeano, e essa comunidade rural que é mostrada na reportagem da TV? O que pode-se observar é que do mesmo modo que um projeto muito bem pensado e apoiado por agentes externos, e articulado com agentes locais, um projeto assim pode criar fartura onde havia pobreza, como na situação do Jequitinhonha mostrada pela TV. Da mesma forma existem projetos de exploração predatória, como o que aconteceu quando os europeus vieram para as Américas, ou o que a empresa de eucalipto desenvolve, que são empreendimentos e organizações internacionais que geram dependência. Isso porque essa empresa tira sua vantagem em cima de um grupo que abrange vários municípios, vários territórios de um país. Não gera soberania. Acaba caçando a soberania desses povos.

Para finalizar podemos comparar esses projetos, que acabam com a soberania, com a situação de um passarinho que é tirado da natureza e colocado numa gaiola. Trata-se de uma analogia para ilustrar as ideias. Quando um passarinho é caçado na natureza e depois alimentado e tratado na gaiola, de início, o passarinho pode até gostar de não precisar mais ficar buscando comida por ai. Ele irá ganhar comida na boca todos os dias. Mas depois de um certo tempo, o animal se acostumará a viver na gaiola e ganhar a comida na boca. Se acontecer alguma mudança, que faça com que a pessoa não queira mais dar comida ao pássaro, mesmo que ele tenha liberdade para voar e estar na natureza, terá muita dificuldade para encontrar sua comida, podendo morrer antes que consiga reestruturar seu modo de vida. Ele terá perdido as estratégias e o dinamismo que tinha em sua vida para buscar o alimento. O mesmo, em comparação, pode acontecer com uma comunidade, ou pessoas, que cedam seus terrenos para o eucalipto, e o mesmo acontece para outros tipos de produção. São situações que geram dependência. Anteriormente, o território e as pessoas poderiam ter articuladas uma série de estratégias e uma diversidade de produções. Os sujeitos que ali estavam desenvolviam a economia e o sustento da vida com muitas atividades, que interagiam entre si. A comunidade tinha uma dinâmica. Quando vem uma empresa externa, que oferece uma coisa vantajosa e que vai gerando dependência, desarticula toda a soberania que a região tem. Em função disso, a região fica na mão da empresa, que gerou a dependência.

Existe um problema grave: o capitalismo se apoia sempre em esquemas como esse do eucalipto. Quase sempre, as grandes empresas, com controle internacional, embora se digam liberais, o objetivo maior delas é gerar uma situação de hegemonia no setor em que atuam. Querem e trabalham com todas as forças para ter um campo de domínio da cadeia produtiva inteira. A esse respeito tenho uma reflexão (VALLIN, 2019) que fala da cadeia produtiva do café, e como se dá a exploração econômica, apoiando-se em estudo de Dowbor (2014).

Como dizíamos, as corporações internacionais buscam estabelecer um campo de domínio no setor em que atuam. Esse domínio abrange a cadeia produtiva inteira. O domínio internacional sobre um setor de produção consegue controlar os preços, tanto do produto final, quanto das fases e serviços intermediários da produção. Esse controle é o que permite que os pagamentos aos participantes da cadeia produtiva sejam pequenos em relação ao grande lucro de quem está no controle. Ou seja: essas cadeias produtivas com dependência centralizada são uma forma de gerar e manter a desigualdade.

Por que geram tal desigualdade? Seria alguma perversidade, ou maldade do capitalismo? Não se trata disso, mas é a própria lógica do capitalismo, que faz parecer legítimo que todos lutem, e disputem, para se tornarem dominadores e com isso terem suas vantagens e seus benefícios. A lógica do capitalismo não é atingir a igualdade e a justiça social. A lógica é competir e ganhar. Por isso as grandes empresas internacionais, e seus investidores, que detém o domínio e lucro dessas empresas, se consideram vitoriosos, ou consideram que estão atingindo seus objetivos quando conseguem tirar um lucro máximo. Nessas circunstâncias é importante notar que existe muito mais pessoas envolvidas nos trabalhos do que na especulação, na propriedade e controle de empresas.

Dessa forma conseguem que o trabalho seja menos remunerado ou valorizado do que o negócio e a dominância. O trabalho é subalternizado. O negócio, ou seja, a esperteza, ou o controle e hegemonia, em dado setor de produção, irá gerando o sucesso. De novo ressaltamos que isso é o contrário da liberdade, reivindicada pelos que se dizem liberais. O domínio de poucos vai tirando a liberdade de uma parte muito grande de pessoas. Em última análise, essas pessoas que têm o controle, a propriedade, e a hegemonia em dado setor, constituem-se num grupo pequeno de pessoas que tem vantagens sobre os outros. Essas pessoas acabam tendo uma vida cheia de regalias, em função do ganham a partir da exploração do trabalho de outras pessoas, em geral. Esse é o problema que procuramos evitar e combater. Essa lógica é uma trama complicada e precisa ser compreendida. Da mesma forma é complicado agir, de modo a evitar, ou, ao menos, não fortalecer essas lógicas. É preciso criar resistência, perceber onde existem projetos que geram dependência, que tiram autonomia de um território, de um povo, para se contrapor, não aceitar, não colaborar inocentemente. E também ao contrário, é preciso perceber quais projetos fortalecem a comunidade, as pessoas que trabalham, e esses podem ser valorizados para que avancem.

Nessa perspectiva não existe nada contra o avanço do conhecimento e da tecnologia, desde que não sejam usados para gerar dependência. Muito ao contrário. A novidades tecnológicas podem ajudar a resolver problemas e melhorar a vida das pessoas. Nesse projeto citado, do Vale do Jequitinhonha, as pessoas passaram a usar tecnologia mais do que antes, o que está sendo bom para elas. E mesmo olhando para a produção de madeira, ou de café, e todas as situações de trabalho e produção, sempre é bom contar com o conhecimento e a tecnologia, tomando só o cuidado para perceber quando há situações valorizam o trabalho, ou que, ao contrário, tiram autonomia de um território, geram dependência, e tiram a soberania de um povo.



REFERÊNCIAS

GALEANO, Eduardo H. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre, RS. L&PM, 2020 (1a. Ed. em 1971).

GLOBO RURAL. Bordado, tecelagem e poesia: projetos resgatam tradições de comunidades rurais de MG. Globo Play. 24 min. Exibição em 3 jan 2021. Disponível em https://globoplay.globo.com/v/9148896/. Acesso em 4 jan 2021.

VALLIN, Celso. Sorria, ame e abrace. Reflexão postada no Blogue do Professor Celso. 2019. Disponível em http://celsovallin.blogspot.com/2019/. Acesso jan 2021.

DOWBOR, Ladislau. Produtores, Intermediários e Consumidores: o enfoque da cadeia de preços. Rev. Econ. NE, Fortaleza, v. 45, n. 3, p. 7-16, jul-set, 2014. Disponível em <https://ren.emnuvens.com.br/ren/article/view/115/94>. Acesso em 2019.10.19

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Política : princípios ou alianças?

Dez 2020 (escrita em revisão) - Celso Vallin


Será possível atuar na política de uma forma neutra?

Para responder isso, é preciso pensar: o que estão chamando de neutro?

As pessoas entendem neutralidade de diversas formas. Poderia ser o equilíbrio, ponderação, e justiça social? Mesmo que seja, isso não é algo simples. Algumas pessoas entendem que ninguém é neutro, porque sempre existem preferências e interesses e, mesmo que não se perceba, nossas decisões são afetadas. Nesse modo de pensar, as pessoas que se dizem neutras estariam enganadas, enganando, ou sem perceber que há interesses.

Por outro lado, quando temos a intenção de usar a justiça social para orientar certa decisão, dependeremos do entendimento de cada situação, e da interpretação das relações sociais. A justiça social pode ser um bom parâmetro, mas não existe um modo único de ver o que é justo, ou injusto, socialmente.

Princípios são ideias e ideais que orientam nossa ação, nossas decisões. Mesmo uma instituição tem princípios. Para analisar melhor uma dada situação, podemos usar princípios ou ideias que foram construídas ao longo da vida, ou da história, e que se basearam em acontecimentos e análises anteriores. Um princípio pode ser uma construção coletiva, e algo muito sólido. Nesse caso, ser neutro pode ganhar a conotação de agir conforme princípios, e não conforme nossos impulsos ou interesses mais imediatos, que podem estar escondidos, serem muito particulares, ou mesmo desconhecidos.

O problema da tomada de decisões, de forma socialmente justa, fica mais complicado quando lembramos que existem alianças. Estabelecemos alianças com pessoas, com instituições, e das instituições das quais participamos com outras instituições. Quando se tem alianças, em geral, é porque muitos princípios, ideias e ideais são coincidentes. Mas é quase impossível que duas pessoas, ou duas instituições tenham os mesmos princípios para tudo, e os mesmos entendimentos. Sempre haverá situações em que a vontade ou necessidade de um aliado nos pedirá para agir contra algum princípio que temos.

Num caso assim, uma primeira possível providência é verificar se aquela pessoa, ou instituição, tem seus princípios declarados e conhecidos. Se tiver, analisamos se a decisão desejada está de acordo, ou se contraria algum, ou alguns, dos princípios que temos, e que a outra tem. Se houver contrariedade, podemos tentar esclarecer, com questionamentos, discussões e reflexões, e procurar chegar a acordos que respeitem tais princípios.

Certamente outro caminho possível é contrariar a aliança e fazer valer o princípio, e nesse caso será bom se pudermos mostrar a razão para isso. Mas alianças são importantes e não é bom ignorar, desfazer. Algumas vezes, certa aliança é tomada como muito importante, e nesse caso os princípios são deixados de lado, ou despercebidos. Se tomarmos uma decisão para privilegiar uma aliança, seja com pessoa ou instituição, não teremos como justificar tal decisão por meio dos princípios. Acabamos por decidir algo que vai contra certas ideias que defendíamos, em função algum pedido, ou para agradar ou favorecer alguém ou alguma instituição.

A quem deveríamos dar primazia: às alianças ou aos princípios? Por que favorecer uma aliança, mesmo quando a situação contraria nossos princípios?

Algumas vezes nossos princípios não estão muito claros, nem para nós. Não ter clareza de quais são nossos princípios, é quase o mesmo que não ter princípios. Mas agir a favor de alguma situação que contraria nossos princípios também é quase o mesmo que não ter princípios. Ainda vale perguntar: por que os princípios são contrariados?

Algumas vezes as contrariedades não são tão claras. Não é fácil decidir, pois os princípios costumam ser isolados, enquanto que a realidade da sociedade e da vida, nos apresenta situações e condições com necessidades da natureza, e ciência, que não são simples, mas complexas, por envolver muitos e até desconhecidos fatores que se interpõe e interagem. Dai, muitas vezes vale ampliar a discussão, vale demorar a decidir, em função de pedir que mais gente possa refletir, trazer informações e análises que nos ajudarão na decisão. Vale deixar mais claro onde estão as contrariedades e quais princípios estão envolvidos.

Por que valorizamos as alianças?

Alianças envolvem confiança e poder. A confiança é uma construção histórica. Pode ser comparada uma uma pilha de peças que vão sendo colocadas umas sobre as outras, e que vai subindo e crescendo. Cada ato histórico que temos a nosso favor é uma peça dessa pilha, que constitui a confiança. Só confiamos em pessoas que, ao longo do tempo, tiveram posicionamentos que são coerentes, e que nos levam a crer que, por trás dos posicionamentos,  existem princípios. Não adianta a pessoa declarar seus princípios. É preciso que o tempo mostre que as ações de realidade seguem aqueles princípios,  para que possamos ter confiança que são considerados importantes. Essa sequência temporal concretiza os princípios. Mas, como as peças empilhadas, basta que uma só ação seja incoerente, e contrarie o que vinha sendo feito, para que a confiança seja perdida, e destruída. Uma ação contrária é suficiente para gerar insegurança na relação.

Do mesmo modo que dissemos de alianças com pessoas, valem as ideias para alianças com instituições. A história vai gerando confiança, pela sequência de fatos coerentes com princípios, mas a incoerência derruba a segurança.

As alianças são importantes? Por que?

Quando construímos alianças, temos mais força. Sem força, não conseguimos fazer quase nada. As alianças podem ser condição para certas realizações. De que adianta ter boas ideias, princípios firmes, se nada podemos? De que adianta se somos fracos, socialmente, e quase nada realizamos?

Para construir alianças, nós também precisamos do tempo histórico, para demonstrar nossa respeitabilidade. Sim, porque as pessoas e instituições não confiarão em nós, ou em nossa instituição, se não dermos motivos. Precisamos que as pessoas e instituições confiem em nós, ou em nossa instituição. Portanto, é preciso tempo, e coerência nas ações.

Nesse campo de alianças existe, muitas vezes, uma política de favorecimentos mútuos. Apoiamos alguém, e quando for preciso teremos seu apoio. Nessa lógica, os princípios não ficam em primeiro plano.

Como pessoa, quando apoiamos outras pessoas, ganhamos amizade. Quando existe amizade, tudo o que a outra pessoa faz é visto com certa condescendência, certa boa vontade. Por exemplo, quando uma pessoa amiga nos dá um tapa no ombro. Logo supomos que se trata de uma brincadeira. Mas se alguém, que não gostamos, nos dá um tapa no ombro, nossa reação pode ser imediata, dizendo coisas horríveis, ou revidando. Nossa reação negativa pode ser mais grave do que o próprio tapa inicial. O pior, é que aquela pessoa, que não gostamos, poderia ter dado o tapa por acidente, sem querer. Outro exemplo de boa e má vontade, poderia ser o caso de quando ouvimos dizerem que uma pessoa amiga cometeu um assassinato. Logo tentaremos encontrar justificativas, ou imaginamos quais seriam as condições extremas que teriam levado a pessoa a tal ato. Mas ao contrário, se dizem que uma pessoa, da qual não gostamos, cometeu um assassinato, podemos até não nos envolver, mas ficaremos imaginando, e querendo informações sobre a sordidez do ato. Enfim, nosso olhar, e nossos posicionamentos dependem bastante de nossa relação com a outra pessoa. A boa vontade pode gerar protecionismo. A má vontade cria obstáculos. O mesmo pode acontecer entre instituições: reações boas com algumas, e reações não tão boas com outras. Com isso queremos mostrar que a troca de apoios não é algo tão inesperado. Vimos que o julgamento que fazemos dos atos de outras instituições, ou pessoas, pode ser tendencioso, e pode levar a ações não tão ponderadas. Tentamos mostrar que a ação com justiça, e equilibrada, pode não ser tão imediata, ou simples.

Cultivar a boa vontade dos outros em relação a nós, ou à nossa instituição, é importante. Sempre gostamos de contar com o apoio de outras pessoas ou instituições, porque a boa vontade nos fará bem, nos ajudará. Por isso pessoas e instituições cuidam de sua imagem.

 Para concluir, podemos dizer que não existe dilema entre princípios e alianças. Mas é preciso equilibrar alianças e princípios porque ambos são positivos. Queremos os dois. O problema é que tantas vezes um contraria o outro, é diante dessa contrariedade é preciso clareza para se fazer uma boa escolha.

Assim é a política: de um lado podemos estar soberanos em nossos princípios mas fracos em alianças; de outro podemos ter grande potência devido à construção de uma teia de alianças, e com mais dificuldades para manter um respeito absoluto aos princípios.

A solução não é simples, ou mágica, mas com esta reflexão queremos chamar a atenção para o tensionamento entre esses dois lados: alianças e princípios, pois sabendo disso, é mais fácil buscar ter mais clareza sobre o que está por trás de cada decisão, quais são os princípios envolvidos, e o que está em jogo em cada aliança.

Finalizamos lembrando que pessoas e instituições mudam; mesmo os princípios podem, e devem, ser reconstruídos ao longo do tempo. A consciência da transitoriedade nos dará ainda maior paciência com algumas pequenas incoerências.