terça-feira, 11 de julho de 2023

 

Educação, Arte e Vida

Celso Vallin, 2002



Resumo. Trata-se de um ensaio que analisa o que é arte e sua importância na educação básica. Compara a arte tradicional com as possibilidades que as novas mídias e novas tecnologias apresentam. Fala das representações e do conhecimento em todas as disciplinas, e de como a nova escola pode usar a expressão artística e as novas tecnologias no desenvolvimento de seus alunos.


Representação do Pensamento

A educação a arte e a vida se entrelaçam. A arte como expressão do sentimento humano, mas também como reflexão e expressão pessoal, social e histórica. A arte como fonte histórica e de informação. A representação como apoio ao pensamento. A educação como desenvolvimento do ser, se expressando, se apropriando das expressões dos outros, hoje e antes. A educação como valorização da sensibilidade. A estética e o belo associados à cidadania e ao bem comum.

Descrever e representar o pensamento é uma estratégia importante para o aprendizado. Provoca a reflexão e a organização das idéias. Permite o intercâmbio entre as pessoas e enriquece com a diversidade de pontos de vista.

Hoje é comum que se constate o desinteresse do aluno pela escola. O que se tem, pode variar muito de uma escola para outra, entre particulares e públicas, de um professor para outro, mas de modo geral, segue o esquema fordista. A sociedade copiou as idéias de linha de produção da indústria para a fábrica de pessoas. Castra a humanidade delas. Tem cabido à escola o papel de iniciar as pessoas nessa caminhada de obediência muda para o mercado de trabalho. Aluno e professor são matéria prima e máquina, dentro da fábrica de montar pessoas.

Por que a escola precisa ser carregada de disciplina, transmissão intensa de conhecimentos e esquemas padrão de comportamento e expressão?

Como pode o ser humano ser feliz, sendo obrigado a esquemas desse tipo, dos oito aos dezoito anos, um período tão longo e belo da vida de cada um?

Como pode, o professor ser uma pessoa razoável, dentro de um papel castrador como esse?

Existiria a possibilidade de uma sociedade boa de se viver, fora desse esquema?

Talvez as respostas a outras perguntas possam ajudar no equacionamento destas dúvidas. Pode-se começar pelo entendimento do que é arte e como ela se articula com a vida.


O que é arte?

A arte imita a vida ou a vida imita a arte1? Essa pergunta clássica mostra alguma relação entre a vida e a arte.

A arte é uma forma de expressão. Como forma de expressão é uma comunicação. Alguém está querendo passar alguma coisa para fora de si – para se comunicar com os outros ou para guardar para si mesmo. Normalmente na arte se pretende passar um sentimento, um estado de espírito. O sentimento que se deseja passar através da arte não é qualquer sentimento, não é qualquer expressão. O que caracteriza principalmente uma arte é o fato de se estar comunicando um momento especial, um sentimento sublime. A arte é uma expressão do sublime.

Não é todo dia que se vive um momento sublime. Mas esses momentos são muito especiais e muito curtidos. E pelo fato de não se poder estar sempre curtindo tais momentos é que surge a idéia de eterniza-los, guarda-los. Todos gostariam de estar a vida toda dentro desses momentos especiais. Como isso não é possível, o ser humano tratou de representar tais momentos. Representar um sentimento. Isso é o que leva as pessoas a criarem arte.

Há um outro desejo ou necessidade humana que é passar isso para outros. Assim como uma pessoa tem o maior prazer em viver um momento sublime, ela quer também passar, ou mostrar esses sentimentos para outros.

Quem já tomou consciência da beleza de um momento sublime vivido e já despertou a vontade de mostrá-lo aos outros, terá também a vontade de olhar os sentimentos pelos quais os outros passaram. Isso é o que leva as pessoas a gostarem de arte.

Quem já descobriu a arte não irá gostar de qualquer arte, mas estará sempre interessado em olhar a expressão de outros porque sabe que talvez consiga entendê-la. Nesse caso, de certa forma estará vivendo, ou vivenciando o sentimento do outro e estará experimentando a sensação sublime do outro.

Numa extensão desse pensamento, podemos imaginar alguém querendo eternizar um momento de tristeza, de medo ou qualquer sentimento ruim. Talvez aquele não seja considerado um momento sublime, mas é uma sensação forte, e de alguma maneira as pessoas também gostam de representar esses sentimentos, e lerem esse tipo de arte produzida por outros.

A arte é uma expressão da existência humana mas a boa arte é aquela que mostra a grandeza do ser humano, seus sonhos e suas angústias e não seus momentos pequenos ou de mesquinharia. Há arte grande que mostra a desgraça, a tragédia, a destruição, a corrupção, a escravidão e tantas coisas ruins, mas ela é fruto da grandeza humana na medida em que denuncia a mesquinharia, a pobreza de espírito e as situações de abuso e injustiça.

Arte se cria e se lê. Alguém já disse que, depois de pronta a obra não é mais de seu autor. Isso porque, cada um irá interpretá-la diferentemente. O próprio autor, em cada momento de sua vida, olhando para sua arte, terá sentimentos, despertados em si, que podem não ser os mesmos que tentou representar na criação.

Arte se escreve e se lê. Mas não é como ler um código lógico, como os números ou as palavras corriqueiras. Criar e decifrar arte se faz com o sentimento e não com a lógica do pensamento formal.


A sétima arte.

O cinema é chamado de “a sétima arte”. Naturalmente porque a humanidade, antes do cinema, conseguia identificar seis artes.

Maurício de Souza, o pai da Turma da Mônica e das histórias em quadrinhos apresentou no final de 2001, em São Paulo, sua coleção de pinturas. São telas grandes, pintadas a mão, como as grandes pinturas da história. Uma obra espetacular. Começou a pinta-las em 1988 e só concluiu aquela coleção em 2001. São muitas telas. Ele próprio escreve sobre seu projeto. Seu sonho começou quando, visitando o Museu do Louvre, observou crianças sentadas e copiando a seu modo as pinturas dos grandes mestres. Ele fez o mesmo. Para cada grande obra da história, algumas brasileiras mas a maior parte não, algumas muito antigas e outras mais recentes, para cada uma delas ele fez uma pintura paródia, como chamou. Pintou a seu modo, e, naturalmente, convidou seus personagens de histórias em quadrinhos para serem os personagens de seus quadros. Uma parte muito interessante da exposição foi o registro escrito que apresentou ao lado de cada obra. Um pequeno texto (meia página), onde fala um pouco sobre o autor da obra original, sobre a história daquele quadro e das circunstâncias em que foi pintado, terminando sempre com uma ponta de bom humor, onde fala de como seus personagens se sentiram pousando para aquela pintura paródia.

O que logo vem à mente quando se fala em arte são as pinturas. A dança, a música e o teatro também são formas de arte, talvez menos lembradas mas de igual valor.

Se o cinema é a sétima arte, quais seriam as seis outras artes?

Olhando os museus e as exposições vem a pergunta - por que dão tanta importância às pinturas e pintores da história?

Que critérios a humanidade teria usado para estipular o que é arte? Qual o conceito que tinham em torno dessa palavra? O cinema, a sétima arte, já existe há mais de 100 anos. O que era arte para a humanidade antes disso?

As matérias ensinadas nas escolas medievais eram representadas pelas chamadas artes liberais, divididas em trívio (gramática, retórica e dialética) e quatrívio (aritmética, geometria, astronomia e música). Juntas formavam as sete artes liberais2. Como se pode ver, as sete artes da idade média nada têm a ver com as sete artes do século XX.

Por que nas escolas, quando se fala em aula de Educação Artística ou simplesmente aula de Arte, é tão comum que se estude e trabalhe com pinturas e artes plásticas e tão raro que naquela aula seja dada importância para a DANÇA, o TEATRO, a LITERATURA, a MÚSICA, a FOTOGRAFIA e o CINEMA?

Podemos também lembrar da arte culinária, da arte circense, das artes marciais... Temos as palavras artesão, arquitetura, e artífice que derivam a palavra mãe: arte.

O que poderíamos chamar de arte hoje?

A arte é a expressão do belo ou, simplesmente uma expressão humana qualquer. Assim, por meio das pinturas e outras formas de expressão artística, as pessoas de uma certa época expressaram seus sentimentos e sua maneira de ver as coisas. Por meio das obras que ultrapassaram os séculos, hoje se pode analisar melhor como viviam e como pensavam as pessoas, em cada tempo e lugar. A História, a Literatura e Poesia, e todas as formas de arte de um tempo guardam uma relação, na medida em que nos mostram as angústias e modo de pensar da humanidade naquele tempo.

Considerando que a arte de fazer CINEMA já é explorada pela humanidade há mais de 100 anos, pode-se dizer que este modo de expressão da humanidade já atingiu a maioridade. Definitivamente a humanidade sabe fazer cinema.

Qual a diferença entre cinema e TV? Poderíamos considerar a TV como uma nova forma de arte?

Existiriam outras formas de arte? Seria o RÁDIO, outra forma de arte?

Quais seriam as formas mais interessantes de expressão humana, nestes tempos de novas tecnologias, como o telefone, a TV, o computador, o satélite e as representações digitais?

A mais recente expressão humana é a eletrônica. Pode ser uma página na internet, pode ser um programa de computador. Este tipo de obra, quando é apresentada por meio de uma tela de computador se assemelha à TV mas pode também ser projetada num telão ficando semelhante ao cinema! Os formatos conhecidos hoje são o HTML, o .EXE ou o .COM. Qual a diferença entre um desses programas de computador e uma obra de cinema ou TV?


Arte e Novas Tecnologias.

Qual a importância da arte na formação humana? Que importância a escola dá a ela? Que lugar deveria ser deixado para a arte na escola básica?

Nestes nossos tempos, cada vez é mais importante que a escola seja um palco onde os alunos possam exercitar sua humanidade – criatividade, sensibilidade, solidariedade ... Que não se pense em desenvolver simplesmente um CONSUMIDOR de arte ou uma peça do sistema econômico produtivo. Deseja-se que cada ser humano seja capaz de dialogar com o restante da humanidade através das expressões mais sublimes. Deseja-se que cada um seja capaz de escrever arte além de ler arte.

Alunos de escolas públicas da França, a partir do segundo semestre de 2001, começaram a trabalhar com cinema. O governo daquele país "reafirma as ambições de uma política de artes e cultura na escola" e quer com isso “não mais considerar a arte como um suplemento do sistema educacional” mas “matéria a ser praticada depois de todas as outras” estendendo “o acesso à cultura” e permitindo “à criança combinar sua inteligência racional e sua inteligência sensível".3

Além de valorizar a arte, como expressão humana, os educadores devem se perguntar quais seriam as formas válidas da expressão humana?

Quais seriam as formas mais em acordo com os tempos em que vivemos?

É preciso ser criativo também nisto. Não se pode querer simplesmente reproduzir o que foi feito nos últimos séculos. É preciso saber transitar entre o velho e o novo. É preciso saber olhar, entender ou apreciar as produções artísticas da antiguidade e ao mesmo tempo entender o que seria o equivalente em nossos tempos.

Para entender melhor as possibilidades de expressão humana da atualidade, é preciso distinguir o meio de EXIBIÇÃO, do meio de REGISTRO, do TIPO DE EXPRESSÃO.

O meio de exibição NÃO pode caracterizar o tipo da obra. Um filme feito para o cinema pode ser também exibido na TV. Do mesmo modo, um comercial feito para TV pode ser exibido em cinema. Portanto, o mesmo tipo de expressão pode ser exibido em diferentes meios. Pode-se dizer que uma obra qualquer pode ser exibida em TV, cinema ou vídeo e portanto esses são meios de exibição e não podem caracterizar o TIPO DE EXPRESSÃO.

O meio em que a obra é registrada também NÃO pode caracterizar seu tipo. Uma obra áudio-visual de TV ou cinema pode ser registrada numa fita de cinema, chamada de película ou filme, mas pode também ser registrada em fita magnética de vídeo, daquelas que hoje são alugadas nas vídeo locadoras, mas poderia ser registrada também em DVD que são discos digitais, lidos com o uso de raios laser. Outros meios de registros poderiam ser citados. Eles podem existir ou ainda estarem por ser inventados. O meio de registro também não caracteriza o tipo de obra, já que a mesma obra pode ser armazenada em diferentes meios de registro.

Assim, talvez a sétima arte devesse ser chamada de arte cine-áudio-visual, ao invés de ser chamada de cinema, simplesmente. Quando o cinema foi chamado de sétima arte, a TV ainda engatinhava. As artes plásticas não têm movimento nem som. Definitivamente as pinturas são outro tipo de expressão humana, diferente das cine-áudio-visuais. O radical cine significa movimento.

E as esculturas??? Elas têm 3 dimensões, podem ser vistas sob diversos ângulos, diferentemente das pinturas. Pinturas e esculturas e outras são tradicionalmente classificadas como artes-plásticas. O fato de terem um nome que designe a todas já mostra que foram classificadas como sendo um tipo único.

Seguindo por esse tipo de raciocínio, a fotografia deveria ser encarada como mais uma das formas de arte plástica. Ela não tem movimento, nem som. Além disso, deixando de lado os preciosismos, qualquer pintura poderia ser registrada em forma fotográfica. Podemos olhar ainda a impressa, como outro meio de registrarmos uma obra do tipo estático-visual. Lembremos dos bonitos livros que nos mostram as grandes pinturas, ao lado de explicações e história.

São muitas as possibilidades de expressão e diante da criatividade do ser humano. Porque deveríamos ter somente sete tipos de arte? Esse deve ser um assunto deixado em aberto. Não se deve limitar a visão sobre o assunto.

A linguagem é um TIPO DE EXPRESSÃO que comporta a fala e a escrita. Nela temos a poesia, a literatura e também crônicas e outros tipos de textos. O ser humano usa essa forma para exprimir seu pensamento-lógico. Mesmo assim, consegue exprimir sentimentos sublimes através de subjetivos jogos de palavras, que podem não apresentar sentido lógico, ou dar margem a muitas interpretações, como no caso da poesia. Em relação ao tipo de expressão, podemos dizer que os textos de modo geral, bem como as falas, pessoais, radiofônicas, televisivas ou outras, são tipos de expressão semelhantes.

O rádio é um meio que serve para exibir textos ou falas, mas também música.

Pode-se observar formas mistas de expressão como pinturas associadas a textos, pinturas que “brincam” com letras ou palavras, poesias onde as letras se espalham pelo papel, tentando comunicar visualmente. As próprias músicas cantadas, são também formas mistas. Misturam falas lógicas ou poéticas aos sons. Há naturalmente todo tipo de misturas. Percebendo que pode ser misturado o que se desejar, as expressões podem ser identificadas com mais facilidade.

Prosseguindo nessa linha de raciocínio pode-se perguntar: não seria o teatro o precursor do cinema e das expressões humanas cine-áudio-visuais? Poderíamos olhar o teatro, o cinema e a TV como sendo todos um mesmo tipo de arte?

A dança usa somente o corpo e seus movimentos.

A música explora especificamente a audição humana.

A pintura, a fotografia, slides, bem como as imagens estáticas impressas, em tela de computador ou em qualquer outro meio, exploram a visão humana, de forma estática.

Os textos, as falas, o rádio e a literatura são também semelhantes e exploram mais comumente linguagem e a expressão lógica do pensamento humano.

O teatro é uma encenação da vida como ela é, com todas as suas possibilidades de expressão corporal, musical, visual e textual. O teatro normalmente contém músicas, danças, poesias... O mesmo pode ser dito do cinema e da TV.

Pouco têm sido explorados os sentidos do olfato, do gosto e do tato, nas artes.

A expressão eletrônica, por meio de programas de computador, inaugura uma nova era nas comunicações, uma vez que abre possibilidades para a interatividade. O artista, ou simplesmente o ser humano que se expressa por esse meio, pode criar “ambientes” que tenham todas as características da TV ou cinema, com o diferencial da interatividade. Quem assiste pode participar do que acontece. A obra reage e pode apresentar diferentes reações conforme o comportamento de quem a manipula.

Num filme ou na TV de modo geral, os personagens falam com quem assiste, mas quem assiste não pode falar com a TV. Tudo o que acontece num filme é linear, no sentido de que se uma mesma obra for exibida duas vezes, as imagens e sons se colocarão numa seqüência temporal idêntica.

Um programa de computador, pode ter múltiplos caminhos, e mesmo lógicas e dinâmicas que dependerão da reação e do comportamento de quem está assistindo. Assim, o autor de uma obra desse tipo pode esconder coisas e causar surpresas em quem está assistindo. Duas pessoas diferentes, interagindo com uma obra desse tipo, passarão por pedaços diferentes, assistirão coisas diferentes, escutarão coisas diferentes. Uma mesma pessoa, ao participar pela segunda vez daquela obra (do tipo - programa de computador), terá visões, audições e sensações diferentes. Esse tipo de obra, muitas vezes é chamado de jogo (“game”). Ainda não conheço uma obra desse tipo que interaja com a platéia como um todo, mas isso já é perfeitamente possível.

Tudo é ainda muito novo para se formar opiniões mais definitivas.

O que fica de todo este ensaio é que o ser humano se expressa de formas muito variadas e que os dispositivos cine-áudio-visuais são hoje os mais interessantes, e as novas tecnologias oferecem a possibilidade de existirem obras participativas, onde a expressão possui múltiplos caminhos, coisas escondidas e surpresas durante as participações.

Assim, quando a escola percebe que é importante ser um ambiente aberto à expressão humana, precisa também perceber que a expressão humana em nossos dias pode ter dimensões diferentes como

As cine-áudio-visuais (TV, cinema, vídeo, teatro...)

As interativas (apoiadas por programação e computador)

As artes que exercitam os movimentos do corpo (danças, esportes, teatros...).

Não que se deva dar menores condições às demais artes, mas devem ser dadas condições e possibilidades, abertura e incentivo para que os alunos criem e apresentem nesses meios. É preciso que sejam disponibilizados computadores e câmeras de vídeo, e que professores e alunos se preparem para trabalhar com isso. O movimento e a expressão corporal não podem ser deixados de lado.

A população se concentra cada vez mais nos centros urbanos. A processo de globalização da sociedade, cujo início é apontado por alguns como sendo o período das grandes navegações, se intensificou muito na segunda metade do século XX, com o desenvolvimento das novas tecnologias – Telefone, TV, computador, satélite – representações, gravações, reproduções e transmissões digitais. Vive-se um clima geral de racionalização, otimização e concorrência. A lógica do lucro e da vantagem econômica permeia todas as atividades. Vive-se o tempo da prioridade ao espírito de competição e ao sucesso individual. Olhando para a arte, nesse ambiente, é mais comum que ela seja percebida como um meio de produção mercantilista do que como expressão humana de coisas sublimes.

O maior fluxo de apresentação de obras cine-áudio-visuais é hoje encontrado na TV. Esse fluxo de comunicação se impõe ao ser humano desde a infância, influenciando muito em sua formação. O mesmo vem acontecendo com as obras apoiadas por programação e computadores, ou os chamados jogos eletrônicos.

A escola não pode simplesmente servir à tendência atual da sociedade, nem pode se incompatibilizar com a atualidade. Deve então lidar com as duas coisas. Por um lado, criar espaços e ambientes onde não sejam valorizados a concorrência e o individualismo e sim a cooperação e a solidariedade. Por outro lado, não pode ignorar o ambiente em que os alunos vivem e as influências a que estão sujeitos, até para poder lidar com isso.

A TV e os jogos exercem grande influência na vida e na formação dos alunos e por isso a escola precisa trabalhar com eles e a partir deles.

Qual a importância da TV para a escola?


A TV e a escola.

Alguns momentos da vida podem ser muito interessantes. Pessoas que se apresentam nos meios de comunicação costumam oferecer coisas muito atrativas. Algumas pessoas conseguem, mesmo ao vivo, serem muito interessantes. Todos gostam de consumir esses momentos especiais quando têm essa possibilidade. O ser humano se acostumou, por causa dos meios de comunicação, a receber essas coisas e a selecionar entre uma oferta variada de possibilidades de coisas interessantes. Em geral são comunicações (programas de TV, com os mais diferentes conteúdos e formatos). Mas não se trata daquela comunicação trivial, improvisada. É a comunicação feita de uma forma inteligente, criativa. É uma comunicação com conteúdo. Dessa forma, algumas pessoas aprenderam a transmitir para outras, coisas muito interessantes. Para que isso tudo seja possível existe uma relação, uma razão, entre o tempo que se usa para o preparo de uma obra e o tempo em que ela será transmitida para todos. Quem está preparando, criando, elaborando, precisa de muito mais tempo do que o tempo real. Tempo real aqui, é o tempo em que a comunicação acontecerá. O termo ´tempo real´ é hoje empregado ligado a tecnologias e coisas muito recentes, internet, transmissão de dados via satélite, mas esse fenômeno já acontecia desde a antiguidade.

Pode-se pegar como exemplo um teatro ou mesmo um humorista. Como era o teatro de antigamente, há séculos? Quando as pessoas faziam teatro, e apresentavam na rua, mesmo que não houvesse nenhum texto escrito, existia uma preparação. A preparação levava sempre mais tempo do que a apresentação. Mesmo que fosse uma coisa muito improvisada. A peça seria apresentada uma vez, e conforme a percepção de quem estivesse apresentando, a respeito do que foi agradável e o que não foi, iriam surgir novas idéias e esse espetáculo seria reformulado – ou re-elaborado. Numa segunda vez, ou numa quinta vez, vigésima vez, ele já estaria diferente em relação ao primeiro, e já estaria mais interessante. Nesse caso, pode-se observar dois aspectos importantes dessa dinâmica do espetáculo teatral de rua, mesmo em épocas em que não fosse usada a escrita. Um aspecto é a participatividade. A idéia de que grandes e interessantes coisas são elaboradas em conjunto. A construção de uma idéia começa com um autor solitário mas depois ela é re-elaborada coletivamente. Para isso pesam o resultado, o uso, e as pessoas que estão interagindo com aquela obra, aquele produto, com aquela idéia. A participatividade e a construção coletiva é o que garante a riqueza da elaboração. O coletivo neste exemplo é o olhar dos espectadores, são as falas, as gargalhadas, é a expressão de quem está assistindo que colabora na re-elaboração. Nem sempre é necessário que o coletivo seja com a pessoa dando palpite, analiticamente dizendo “Vamos fazer isso.”, ou “Tive uma idéia.”. Há outras formas mais sutis de se procurar a participação coletiva. E ela é importante.

O segundo aspecto a ser considerado, e que já acontecia desde a antiguidade como pode ser visto nesse exemplo do teatro de rua, é o tempo que se empenha para preparar uma obra. Ele é sempre bastante maior que o tempo que se leva para consumi-la, o tempo que acontece durante seu consumo. E não é só o tempo que importa mas também os recursos. Há várias pessoas participando, trabalhando, colaborando... É a somatória dos esforços de várias pessoas, ao longo do tempo, que irá culminar com aquele momento de apresentação.

Pode-se ver com esse exemplo que, desde os tempos antigos, a humanidade foi descobrindo que podia ser mais interessante, podia cativar os outros, elaborando e re-elaborando, construindo coletivamente, e usando um tempo de preparação para depois ter o momento do espetáculo, o momento da comunicação.

Olhando para as pessoas como espectadores, deixando de focalizar o artista e olhando para o espectador, pode ser visto que ele foi se acostumando, desde aqueles tempos, a receber a oferta de produtos de comunicação que tivessem uma qualidade, um conteúdo, uma possibilidade acima da possibilidade real. A possibilidade dita aqui como real é o banal, aquilo que uma pessoa consegue comunicar a uma outra pessoa no caso de estar criando ou elaborando durante o ato da transmissão.

Como aconteceria essa relação de tempos e recursos no caso de um humorista? O humorista é uma pessoa que sabe recolher no seu passado, na sua memória momentos interessantes vividos e sabe recolocar elementos daquela coleção e segmentos deles, articuladamente, num momento real. A pessoa vai ao longo do tempo colecionando na memória, situações, falas, que percebe que foram interessantes. Copia algumas que foram ouvidas de outras pessoas, é autor de outras que re-elabora a partir do que colheu. O humorista coleciona na memória, e no momento em que percebe que é propício, retoma. De qualquer modo é importante perceber que uma pessoa que é muito engraçada, muito interessante, tem por trás daquela possibilidade de comportamento, um banco de memória, um conjunto de coisas que foram elaboradas ao longo do tempo. Não se costuma parar para pensar nisso, mas as pessoas que são assim sabem selecionar, memorizar e articular esses artifícios.

Essa elaboração toda usou mais tempo e usou colaboração coletiva para poder acontecer. Mesmo quem faz alguma comunicação muito interessante e que aparenta improvisar, não deixa de estar reapresentando algo já pronto ou re-elaborando baseando-se em trabalhos anteriores.

Pode-se perceber essa semelhança entre o exemplo do humorista e o do teatro da antiguidade. Os exemplos antigos foram usados para citar os atuais meios de comunicação. O rádio, a televisão e outros. O ser humano, como espectador, vai criando expectativas em torno das comunicações, em função da possibilidade de consumo dessa oferta múltipla, rica e elaborada. Durante o último século as novas tecnologias permitiram que as obras de comunicação, principalmente as cine-áudio-visuais fossem disponibilizadas cada vez mais para qualquer pessoa da população. Anteriormente só as pessoas com maior poder aquisitivo podiam ir a um teatro ou pagar para ver uma apresentação. Com o advento da TV e popularização do cinema, hoje qualquer pessoa tem acesso a essas obras. Esse acesso geral a obras desse tipo é recente na história. Esse fator altera a formação da criança e de todos na sociedade. A escola ainda não tomou ciência, completamente, dessa novidade que interfere bastante e diretamente com seus alunos. Algumas das obras que são apresentadas diariamente na TV podem e devem ser consideradas obras de arte da atualidade. É uma arte diferente. Produzida coletivamente e com muitos recursos.

Desde criança nossas gerações são condicionadas a receber esses produtos da TV e rádio que podem ser comparados com uma droga. Droga no sentido que trazem até nós uma possibilidade acima da real, uma possibilidade fantasiosa. É real. Mas só é real às custas do esforço coletivo, e só é possível graças ao tempo de preparação que não é o mesmo do tempo real.

Por que as pessoas, mesmo as de baixa renda, têm televisor e rádio? Mesmo custando tão caro. O rádio é menos marcante. A televisão marca mais. Mesmo as antenas parabólicas, que são coisa cara. Quando visitamos uma vila, ou uma construção rural, onde não se consegue ver TV sem uma antena parabólica, elas estão presentes. Mesmo que o pessoal ganhe pouco. Isso mostra a prioridade que as pessoas dão para a TV. Há pessoas que criticam essa atitude. Dizem “O sujeito não tem a cabeça no lugar.” Ou “Onde já se viu dar prioridade para isso ao invés de melhorar sua casa ?!”, “O sujeito não tem bem nem o que comer e tem televisão.” . Deixando de lado as críticas, pode-se perceber que quando os sujeitos colocam a TV como prioridade sobre tantas outras coisas, estão mostrando a importância que essa coisa, a comunicação e a TV, e essas ofertas de possibilidades de comunicação que a TV traz, têm para a pessoa. Se as pessoas optam por isso é porque isso é importante para elas.

Como um império televisivo é uma coisa tão poderosa? Como é que o minuto da Rede Globo às 21h custa tão caro? Custa tão caro, tanto dinheiro gira em torno daquilo porque a sociedade como um todo dá muita importância para isso. Isso é muito importante na vida das pessoas.

E por ser uma coisa tão presente na vida atual, a escola, precisa dar mais importância para isso. Se isso é tão importante para a sociedade, a escola precisa lidar com isso.

Os conceitos mais importantes que podem ser destacados são:


Criação, Participação coletiva.

Tempo de preparação e tempo de apresentação.

Processo de re-elaboração e análise.


Quando o professor ou a escola se apresentam, na maioria das vezes, não conseguem ser tão interessantes quanto essas outras comunicações.

Olhando para isso tudo, percebe-se a importância da reprodução de situações como essas na escola. Deixar os alunos produzirem apresentações e deixa-los viverem os dois tempos: o da preparação de representações e re-elaborações delas, e o tempo da apresentação. Essa pode ser a maneira de ajuda-los a perceber que por trás de cada momento maravilhoso há muito trabalho e esforço. De perceberem que todos podem colaborar, mas ninguém é tão genial de improviso e sozinho.

Complementando esta idéia, a escola deve, em algumas situações, desenvolver propostas e atividades com LOGO, ou outro tipo de linguagem de programação de computadores. LOGO serve para o aluno produzir apresentações do tipo “jogo de computador”, ou “vídeo-game”. Com o uso do LOGO o aluno vai percebendo a montanha de esforço e raciocínio que existe por trás de cada “vídeo-game”. Seu uso pode facilitar para desmitificar este objeto tão presente na sociedade atual, e fazendo analogias, para que criar na idade adulta, um consumidor de programas de computador mais consciente e crítico, além de incentivar talentos para que venham a trabalhar nesta área.

Pode-se mostrar o quanto é importante para algumas pessoas aparecer na TV, relembrando um episódio da série “Brava gente”, da Rede Globo em 2000, no qual um porteiro queria muito aparecer na TV. Ele supunha que com isso poderia despertar a admiração da amada, uma moradora do prédio em que trabalhava. Depois de muitas tentativas sem sucesso, acabou se suicidando na frente das câmaras e, somente assim, conseguiu ir ao ar.

Como pode todo esse interesse em torno da TV ser usado em favor da educação?


Projetos de produção de vídeo.

Faço aqui um chamado para que a escola se abra para estas possibilidades e para esta necessidade, pensando na mais plena humanidade de cada ser. A proposta é lidar com a arte, na escola, mas com um conceito aberto e atual de arte. A arte como criação dos alunos, como forma de expressão pessoal, dentro do exercício da existência. Proponho um olhar atual e aberto sobre as expressões artísticas, com um pé no passado e outro no presente e futuro. Proponho o uso de meios de comunicação atuais – produções cine-áudio-visuais (de cinema, TV, computador, teatro ou instalações), sem pretender excluir ou deixar de lado as expressões menos abrangentes como a linguagem pura (poesia, rádio, literatura...), as imagens estáticas (pinturas, fotografias...), músicas e danças.

Um vídeo pode ser muita coisa, diferente. É importante que professor e alunos definam o que desejam. Um noticiário? Um programa de entrevistas? Um musical? Um romance? Uma novela em capítulos? Um documentário? Um debate? Uma campanha política? Um comercial? Uma vinheta? As possibilidades de vídeo não são todas a mesma coisa. Muitas coisas diferentes podem ser feitas.

É importante que se disponibilize os dois tempos – o das preparações e re-elaborações dessas representações e expressões e os momentos de apresentação. O papel do professor é ajudar a organizar esses espaços e essas atividades, de modo que as pessoas se encontrem, se descubram e sejam vistas.

Os jogos de computador, ou outras obras que sejam apoiadas por programação de computador, obras cine-áudio-visuais-participativas podem e devem ser tratadas da mesma maneira que as produções de obras de vídeo, as cine-áudio-visuais.

A proposta de se trabalhar com a arte na escola casa bem com a proposta de se trabalhar com projetos. O produto final de um projeto pode ser uma obra de arte, elaborada de forma conjunta e cooperativamente. Entenda-se como obra de arte tanto as tradicionalmente aceitas como as que dependem de novas tecnologias como os programas de vídeo e os programas de computador.

Embora os quatro pilares da educação (Educação, 2001) sejam interdependentes, o uso da arte como expressão na escola parece privilegiar o aprender a SER.

A arte e a expressão artística caberiam em sua disciplina? Sua aula teria espaço para essa visão de escola? Você conseguiria aprender a lidar com a arte, estudando e considerando o passado mas também deixando usarem as mais recentes possibilidades que a tecnologia oferece?



Dúvidas importantes? Certezas provisórias? Por onde começar?

1 “A vida imita a arte”, Oscar Wilde

2 www.mundodosfilosofos.com.br/escolastica.htm , 2000.

3 http://www.france.org.br/abr/label/label44/dernier/dernier.html - jan2002

segunda-feira, 3 de julho de 2023

 O GOVERNO

Para fazer referência

VALLIN, Celso. O governo. Publicado em blog na internet. 2023. Disponível em http://celsovallin.blogspot.com/2023/07/fazer-referencia-vallin-celso.html


1. As pessoas costumam colocar o "governo" como responsável por uma série de problemas. Na verdade, falta uma compreensão sobre como se organiza o Estado, qual o papel e responsabilidade, direitos e possibilidades, na (re)construção desse.

2. Como governos, temos 3 executivos - federal, estadual e municipal. Ou, olhando para os vários municípios, temos milhares de executivos. Temos ainda os legislativos e judiciários, que são também responsáveis por muitas coisas que são atribuidas "ao governo". Fazem parte do "governo" as universidades, as escolas de educação básica, o sistema de saúde, a assistência social, empresas como Correios, Petrobras ou Caixa, temos conselhos... As instituições que compõe o governo e o Estado não são uma coisa só, e não existe uma unidade de pensamento e ação. Existem incoerências, contradições, disputas e lutas internas. Dessa forma devemos compreender os governos.

3. A discussão política brasileira é dominada por pessoas (políticas profissionais e outras), pelas mídias (TVs, web, jornais, revistas etc), por mega empresários (que têm o domínio econômico), pelas igrejas etc. O poder econômico mistura-se com a mídia e consegue um domínio sobre quase tudo. Os políticos são somente agentes temporários dos interesses econômicos, que costumam gerar corrupção, sonegação, renúncia fiscal, financiamentos e vantagens financeiras que favorecem ainda mais os mega empresários.

4. A economia não é de todos. Os interesses da classe trabalhadora não são os mesmos da classe empresarial. Os empresários querem menos impostos e menos imposições legais; os mais pobres querem escola pública de qualidade, bom atendimento no SUS, e outras políticas públicas de apoio popular. O modo de pensar no "governo", como uma coisa só, ineficiente, problemática, com foco nas corrupções e defeitos do "governo", abre as portas para a sonegação, para os lobbies, fraudes e para a desresponsabilização. As pessoas passam a se colocar contra os impostos. Para haver justiça social, é preciso ter um Estado forte, rico e atuante. Não queremos privatizações, mas sim controles para a melhoria social. Queremos mais participação social no controle do Estado. Quem defende Estado mínimo são as pessoas que podem pagar escola particular, convênio médico, que andam de carro e não usam o transporte coletivo, moram em condomínios fechados e vivem comprando em shopping centers. 

5. Pensar que "o governo" é responsável único por todos os problemas sociais, sem perceber as diferenças, contradições, poderes, instituições ou grupos irá colaborar para desresponsabilizar as mídias e o poder econômico, e também servirá para desvalorizar setores, pessoas ou grupos que defendem interesses populares. É preciso reconhecer grupos que exercem resistências contra o poder econômico e a favor de conquistas para o povo, os historicamente excluídos. Queremos a igualdade e justiça social.

6. Responsabilizar "o governo" por tudo, colabora para as pessoas estarem mais alienadas e enfraquece as possibilidades de se exercer o controle social das ações e órgãos públicos, e enfraquece a participação política e social.

7. "O governo"... colabora para o povo torcer para um Estado mínimo, e aceitar a ideia de que tudo deveria ser privatizado e que empresários prestariam serviços mais baratos e melhores. 


 APRENDER DÓI


          Hoje, antes das nove horas da manhã, ganhei dois abraços, mas também tive o constrangimento de ver uma estudante chorar. Aquele momento do abraço foi ótimo. Não foi porque a estudante conseguiu uma boa nota. Nem foi alguma brincadeira. Ela fez isso em despedida, porque terminou o período de aulas comigo, e em agradecimento. Eu também agradeci, por poder contar com estudantes que importam-se de verdade com a aprendizagem e com os conteúdos que estudamos juntos. Para mim, havia ali um reconhecimento de que as aulas funcionaram, de que consegui gerar oportunidade para colocação de situações e experiências de vida, em diálogo com os conteúdos de estudo; e que houve como serem estabelecidas relações entre as ideias (teorias) e as realidades conhecidas.

          A moça que chorou teve dificuldades em aprender. Ao constatar isso, pedi que participasse de um processo de recuperação e reforço, em que haveria poucas estudantes, mas ela se sentiu frustrada. 

      O outro abraço foi uma ex-aluna que tem laudo de necessidades especiais. Ela já se formou professora de educação física. Mas depois, passou a fazer trabalho terceirizado na varrição do chão. Veio me contar que acabara de ingressar como estudante de pedagogia. Estava feliz por voltar a estudar. Relembrou dificuldades passadas, leituras e discussões em aula, há alguns anos. Isso foi para mim uma surpresa.

          Não é fácil atuar na docência. Mas talvez por isso seja bom. É um trabalho em que mexemos com a formação das pessoas, com suas possibilidades de vida, seu modo de compreender o mundo... Questionamos as verdades. Eu ainda lembro de antigos e antigas professoras minhas, e até de certas aulas que foram boas e provocadoras. São boas recordações.

           Este blogue é do tempo em que as redes sociais como instagram, tik-tok e outras não existiam. Era mais comum que algumas pessoas escrevessem e publicassem no blogue. Estas notas foram escritas em 2018.

 

quarta-feira, 8 de março de 2023

 Para fazer referência
VALLIN, Celso. Poder e democracia na escola. Publicado em blog na internet. 2004. Disponível em https://celsovallin.blogspot.com/2023/03/poder-e-democracia-na-escola-celso.html


PODER E DEMOCRACIA NA ESCOLA


Celso Vallin, 2004 (9p.)


Ninguém gosta de assumir que se fascina com o poder.


Naquele dia em que a religiosa, amiga, e diretora da escola, disse que um de nossos grandes problemas é que queremos ser Deus, no lugar de estar com Deus, fiquei meio chocado.


Em diversas coisas que fazemos na vida, nosso prazer, nosso gosto, o que nos leva a fazer ou procurar alguma coisa, é o poder. A sensação de poder nos fascina.


Quando a criança fica mexendo no botãozinho da luz, acendendo e apagando, acendendo e apagando, faz isso porque está fascinada com o seu poder de controlar a luz e sua ausência, usando somente a ponta de seu dedinho! O que a atrai é a situação de poder. É semelhante ao que acontece com o adulto ou adolescente, quando usa um controle remoto. Mais do que ter poder sobre a luz, ele tem poder sobre imagens que parecem com situações reais, em que estão contidas pessoas, emoções, e sua própria emoção e prazer. Muitas vezes mexe no controle remoto só pelo prazer de mexer. Ter o controle remoto na mão ajuda a afirmar o poder. O mesmo acontece em relação a um rádio ou um computador, cheios de botões. Ter o mundo na ponta dos dedos, traz a sensação de poder. A pessoa gosta porque consegue com facilidade controlar coisas que fazem parte de sua vida. Tem poder sobre elas.


Dirigir um carro também traz essa sensação de poder. Há pessoas que se transformam quando estão atrás do volante de um automóvel. Tornam-se individualistas e competitivas. Algumas vezes agressivas.


Ter poder e gostar do poder é certo, ou é errado?

Qual é o problema do poder?


Usar o poder passa a ser um problema quando se desrespeita o outro. E esse outro pode ser uma pessoa, um grupo, ou mesmo a natureza e a ordem cósmica.


Em alguns casos, para exercer nosso poder, esbarramos em anseios, possibilidades, ou conquistas, de outras pessoas, e isso pode gerar mal estar e disputas. Mesmo que não haja disputas, pode gerar o bem estar ou o mal estar.


Todo mundo gosta de ser percebido e de ser reconhecido. Muitas vezes fazemos escolhas erradas, em função da vaidade, ou dessa necessidade de auto-afirmação e de superação. Mas quando se olha para a comunidade, local ou global, fica mais fácil encontrar nosso papel. Há mais de dois mil anos que se discute esta idéia. Jesus disse:


Vocês sabem: os governadores das nações têm poder sobre elas, e os grandes têm autoridade sobre elas. Entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês; e quem de vocês quiser ser o primeiro deve tornar-se o servo de vocês. (Bíblia, Mt 20,26-27)


Numa escola o diretor, e pessoas da equipe gestora, devem colocar-se a serviço do coletivo. As pessoas que trabalham na estrutura dos ‘sistemas de ensino’, os dirigentes, supervisores, assessores, ou outros, também estão ali para prestar serviço à coletividade. A opção pela gestão democrática do poder fará a diferença entre gerar conflitos e viver com eles, ou ter prazer no trabalho e gerar admiração, em função do desenvolvimento do potencial pessoal na ajuda à organização do grupo e talentos de seus componentes.


Os ‘agentes externos’ que dão apoio à escola podem ser: da estrutura do ‘sistema de ensino’ (dirigentes, supervisores, assessores...), podem ser da universidade, em parcerias com as escolas, e podem ser contratados para prestação de serviços de formação e outros. A relação dos ‘agentes externos’ com as pessoas da escola deve ser vista como uma relação democrática e não como uma simples relação de subordinação. Isto é, todas as idéias precisam ser apresentadas e discutidas com as pessoas que estiverem nos papéis que se relacionarem com elas, pessoas da escola. E a adesão às idéias deve ser conquistada. Toda teoria é bem aceita pelas pessoas e pela escola desde que seja coerente e pertinente. Quando não é bem aceita, deve-se entender como um indicativo de que as pessoas ainda não estão maduras para usar aquelas idéias, e, o melhor processo para chegar àquelas idéias será buscando novos meios para atingir aquelas pessoas e ajudá-las nesse amadurecimento. Além disso, os ‘agentes externos’ não têm consigo todas as teorias, e nem podem ter a certeza das certezas sobre os assuntos. Assim, devem colocar-se sempre numa posição de igualdade, procurando usar o conhecimento a serviço do grupo e das pessoas, e não como forma de poder ou prestígio. Quando estamos na posição de ‘agente externo’ de escolas, e deparamos com idéias discordantes das nossas, o melhor é aceitá-las como parte do diálogo, argumentando, analisando pontos de vista diferentes e até mesmo nos colocando em dúvida, e saindo à procura de mais informações, observações, reflexões, teorias que nos dêem suporte. Muitas vezes somos incoerentes, e isso não pode ser escondido, mas deve ser tratado. Devemos encarar as incoerências como parte do processo, procurando manter o bom humor e as boas relações com as pessoas.


Até mesmo as diretrizes dos programas, planos ou projetos que estamos a desenvolver, podem precisar ser desconsideradas e reconstruídas, em função do diálogo com as lideranças das escolas, das circunstâncias que a realidade das escolas apresenta e do entendimento que cada um tem da realidade.


A comunidade escolar junto com os ‘agentes externos’ (universidade, prestadores de serviço ou sistema de ensino), valendo-se das possibilidades de diálogo — com presença real, via internet ou por telefone, deve encarregar-se de analisar e refletir sobre suas dificuldades e limites, transformando a si própria, em busca de uma escola cada dia melhor. Uma ação externa, que deseja ser ajuda, não pode ditar regras para a comunidade escolar. Essa postura democrática é a única via para o verdadeiro comprometimento das pessoas com a construção da ‘escola cidadã’.


A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. A gestão democrática da escola é portanto, uma exigência de seu projeto-político-pedagógico. (Gadotti, 2001, p.35)


A busca de relações democráticas de poder entre os papéis gera integração, cooperação e participação. É um instrumento que gera realização, prazer e desafio às pessoas, por tratá-las como seres humanos que são, tirando-as da condição de simples funcionários, alunos obedientes ou pais consumidores. Assim, a postura de intervenção dos ‘agentes externos’, deve evitar formalismos e o distanciamento que muitas vezes existe entre eles (autoridades!) e as pessoas da escola de ‘ensino fundamental e médio’.


Quando se deseja ajudar uma escola, a intervenção deve ser construída e reconstruída durante o processo de acompanhamento, e em conjunto com as pessoas das escolas.


Quando se trabalha com a idéia de gestão democrática de poder, na escola, as intervenções e reflexões também acabam por questionar e ajudar a construir a postura democrática dos outros, nas diversas situações que coexistem dentro da escola. Na situação de aula, a postura democrática levará o professor a tratar o aluno como sujeito de idéias, história e vontades, e a procurar maneiras de seduzi-lo para as atividades propostas, além de oferecer propostas que permitam a autoria, criatividade, diálogo, ajudando a desenvolver a autonomia e criticidade do aluno. Cuidar do respeito e cooperação entre aluno e aluno, durante os trabalhos, também será uma demanda importante para o professor. Outro aspecto a ser considerado na aula, dentro da visão participativa, é que não se pode imaginar todos os alunos fazendo a mesma coisa, o tempo todo. Não se pode imaginar que uma sala seja igual à outra, ou que um ano seja igual ao outro. Cada contexto e momento irá requerer uma reação diferente. A proposta educativa deve “dialogar” com o coletivo de alunos.


Os horários pedagógicos, de trabalho, estudo, diálogo e reflexão entre professores, ou de ‘formação em serviço’, podem ser vistos como se fossem as ‘aulas’ com os professores. Nesses momentos a relação da ‘equipe gestora’ com os professores também precisa ser revista e questionada, pelos mesmos motivos. Deve-se procurar desenvolver a assunção de responsabilidades, o diálogo, a cooperação e o compromisso para todos e por todos, abrindo mão das relações hierárquicas e das ações formais ou convencionais, também chamadas, pejorativamente de burocracia.


É comum que os horários coletivos sejam usados para dar avisos. Ora, os avisos podem ser colocados no mural ou entregues em bilhetes. O horário coletivo é um momento muito rico e necessário para que se o desperdice com coisas que poderiam ser feitas cada um a seu tempo e a seu modo. Ser democrático é, também, saber respeitar o valor dos momentos coletivos.


A relação democrática de poder deve ser buscada em outras relações: entre direção e coordenação pedagógica; entre educadores e alunos, em situações fora de aula; entre educadores e pais; entre professores e funcionários; entre gestores e funcionários; entre funcionários e funcionários; entre professores e professores; enfim, em todas as relações da escola deve-se questionar e procurar construir uma relação democrática de poder.


Respeitar o coletivo é buscar viver esse respeito para com todos os papéis e situações: na aula, nas reuniões, ou mesmo no cafezinho dos professores, no futebol com os alunos ou no portão de entrada da escola.


Ser democrático é respeitar os ritmos, as dificuldades, a linguagem e a cultura de cada um, em suas diferenças. As propostas não podem ser impostas. Precisam ser construídas e reconstruídas com as pessoas envolvidas.


Nas minhas relações com os outros, que não fizeram necessariamente as mesmas opções que fiz, no nível da política, da ética, da estética e da pedagogia, nem posso partir de que devo “conquistá-los”, não importa a que custo, nem tampouco temo que pretendam “conquistar-me”. É no respeito às diferenças entre mim e eles ou elas, na coerência entre o que faço e o que digo, que me encontro com eles ou com elas. É na minha disponibilidade à realidade que construo a minha segurança, indispensável à própria disponibilidade.(Freire, 1996, p. 152 – grifo do autor)


Para isso é necessário que se tenha paciência para o diálogo com o outro. Isso envolve tempo e esforço. Muitas vezes os ‘agentes externos’ imaginam que não dispõem de tempo para isso. O tempo do trato democrático é antagônico com o tempo do trato capitalista/“produtivo”. Este procura racionalizar tudo e não tem tempo a perder. Aquele requer tolerância, solidariedade e gratuidade. Para que possamos exercitar nossa vocação democrática, é preciso deixar de lado a pressa, a cobrança exagerada, as programações de conteúdo, e propostas pouco flexíveis. É preciso cuidar para ter uma agenda não congestionada. Todos tendem a perder a capacidade de ser gentil diante da correria, das agendas lotadas, e dos horários apertados e cheios de atribulações. Ter dois ou três empregos, ou muitos ‘contratos’, ou querer fazer mais do que é possível, dificulta para que se tenha a paciência para o diálogo e a disposição para a reconstrução em função dos diferentes contextos.


Há um sinal dos tempos, entre outros, que me assusta: a insistência com que, em nome da democracia, da liberdade e da eficácia, se vem asfixiando a própria liberdade e, por extensão, a criatividade e o gosto da aventura do espírito. A liberdade de mover-nos, de arriscar-nos vem sendo submetida a uma certa padronização de fórmulas, de maneiras de ser, em relação às quais somos avaliados. (Freire, 1996, p. 128)


Respeitar o coletivo exige que se respeite também o individual, as diferenças e o papel de cada um na escola, mas não é um vale tudo. Não é uma anulação dos papéis e responsabilidades. Ser democrático é saber equilibrar autoridade com liberdade, não recaindo nem no autoritarismo nem na licenciosidade.


É interessante observar como, de modo geral, os autoritários consideram, amiúde, o respeito indispensável à liberdade como expressão de incorrigível espontaneísmo e os licenciosos descobrem autoritarismo em toda manifestação de autoridade. A posição mais difícil, indiscutivelmente correta, é a do democrata, coerente com seu sonho solidário e igualitário, para quem não é possível autoridade sem liberdade e esta sem aquela. (Freire, 1996, p. 122)


O ‘agente externo’ que deseja ser democrático, não pode ter receio de assumir sua autoridade, nos momentos em que cabe. Liberdade e autoridade, ou licenciosidade e autoritarismo, expressam-se também no estabelecimento das propostas e dos conteúdos a serem estudados pelos professores, e até nos projetos que são “enviados” para as escolas.


A programação e conteúdo dos horários pedagógicos, ou as propostas externas de ação para a escola, não podem se constituir de assuntos impostos e tratados de forma alienada e alienante. O programa deve ser aberto, prevendo o diálogo, questionamento crítico e reconstrução coletiva. Os temas e estratégias devem ser estabelecidos na tensão das discussões, problemas e necessidades do coletivo. Os ‘agentes externos’ devem colocar-se como educadores no apoio às escolas.


Não há outra posição para o educador ou educadora progressista em face da questão dos conteúdos senão empenhar-se na luta incessante em favor da democratização da sociedade, que implica a democratização da escola como necessariamente a democratização, de um lado, da programação dos conteúdos, de outro da de seu ensino. (Freire, 1992, p. 113)


As propostas devem ser construídas e reconstruídas COM a participação das escolas. Não podem cair de pára-quedas.


Não penso autenticamente se os outros também não pensam. Simplesmente, não posso pensar pelos outros nem para os outros, nem sem os outros. (Freire, 1992, p. 117)



O diálogo deve desenvolver-se mesmo na tensão das diferenças.


O diálogo tem significado, precisamente porque os sujeitos dialógicos não apenas conservam sua identidade, mas a defendem e assim crescem um com o outro. O diálogo, por isso mesmo, não nivela, não reduz um ao outro. (Freire, 1992, p. 118)


O ‘agente externo’ que se coloca no papel de educador consegue potencializar a ação das pessoas da escola. A resposta deles será de acordo com as intervenções externas.


Se o pensamento do educador ou da educadora anula, esmaga, dificulta o desenvolvimento do pensamento dos educandos, então o pensar do educador, autoritário, tende a gerar nos educandos sobre quem incide, um pensar tímido, inautêntico ou, às vezes, puramente rebelde . (Freire, 1992, p. 119)


Mesmo estando numa posição externa, e colocando-se numa postura democrática e dialogal, é possível exercer grandes influências na organização da escola, como um todo, ajudando-a a transformar a si mesma. É o que descobri em pesquisas com três escolas estaduais (Vallin, 2004).


O projeto CER (Comunidade escolar de Estudo, trabalho pedagógico e Reflexão) foi uma experiência de parceria entre escolas, com o uso de novas tecnologias e que se baseou nos conceitos de espiral da aprendizagem e relações democráticas de poder.


Tendo em vista a intenção de mexer com a escola como um todo, e não com ações e experiências isoladas, sempre procurei respeitar as estruturas e os papéis existentes. Foram respeitadas (e desenvolvidas) a autonomia das escolas e das pessoas em seus papéis, assim como suas características e diferenças. Sempre me policiei para não pensar que a reflexão feita com uma escola seria feita da mesma forma com as outras. Sempre procurava manter meus ouvidos e olhos abertos, nas interações (presenciais, por telefone ou via internet), para perceber a situação de cada escola, as visões e o entendimento de seus educadores.


Em minha intervenção tive o cuidado de provocar as pessoas sem tirar-lhes a autonomia e responsabilidade a respeito dos papéis até então estabelecidos. Assim, ao me colocar ao lado de um professor, me questionava - que bases teóricas poderiam ajudá-lo na formulação e no acompanhamento daquelas práticas de aula? Ao me colocar ao lado de quem coordenava a 'formação em serviço’, me questionava - que metodologia e base teórica poderia usar nos horários pedagógicos (HTPC)? Eu, como pesquisador não poderia, nem deveria assumir a formulação ou condução da ‘formação em serviço’ dos professores, para não anular o papel das pessoas da ‘equipe gestora’. Nem poderia tentar trazer prontas ou traçar as diretrizes para a escola. Muito menos assumir aulas. Por outro lado, era preciso encontrar possibilidades de interferir nesses espaços - coordenação pedagógica e docência. Dessa forma, sempre me coloquei de maneira a provocar a direção, a coordenação, os professores e outras lideranças, para serem sujeitos e não objetos do sistema escolar, mesmo que em alguns momentos alguns deles mostrassem um certo comodismo e falta de comprometimento, clamando por um papel mais instrumental do que de sujeito.


Quando me refiro à atuação como sujeito não penso em sujeitos isolados ou prepotentes. Penso em sujeitos que cooperam entre si e trabalham dentro do coletivo. Embora sempre respeitasse a organização da escola e as responsabilidades de cada papel, desincentivava a simplificação funcional e o isolamento nos papéis que a hierarquia provoca.


Minha ação foi, na maior parte das vezes, no nível da gestão escolar1. Nesse nível eu participava dos planejamentos, análise e avaliação dos HTPC2, e dos Encontros e outras ações que envolviam os professores. Minhas visitas presenciais não tinham regularidade, mas aconteceram perto de duas visitas por mês a cada uma das três escolas. O acompanhamento via internet era diário. A estratégia usada foi sempre uma costura entre contatos por telefone, conversas presenciais e troca de mensagens em grupo pela internet. Pelo telefone eu procurava marcar dia e hora para uma conversa presencial com a direção de uma escola de cada vez; depois, nessa conversa, procurava questionar e interferir na organização dos HTPC. Muitas vezes estive presente aos HTPC (por volta de uma vez por mês). Neles, eu assistia mas procurava não interferir, para não tirar a autoridade e autonomia do papel de quem o estivesse coordenando. Quando interferia procurava fazê-lo como participante, desvestido de qualquer autoridade ou formalidade que normalmente um visitante ou uma pessoa da universidade acaba gerando. No princípio as negociações aconteciam separadamente em cada escola, e depois, conforme foi se dando o amadurecimento das relações com as ‘equipes gestoras’, foram crescendo as possibilidades de encontros e negociações conjuntas. Começando com uma ação isolada, em cada escola, procurava pontos em comum entre elas para, a partir daí, propor ações conjuntas. No início, buscava fortalecer a interrelação de professores dentro da própria escola e depois, e ao mesmo tempo, buscava levar uma escola às outras.


O acompanhamento das ‘equipes gestoras’ (no que dizia respeito à parte pedagógica da escola), e dos professores (nos trabalhos e reflexões coletivas), buscava provocar e auxiliar para que houvesse mais e melhores processos de planejamento, reflexão, registro, análise e avaliação (para formar a “espiral da aprendizagem” – ver figura 2), sempre respeitando o jeito de pensar e de agir de cada um. Precisávamos do comprometimento das pessoas neste processo de estudo, ação e reflexão. As quatro idéias que compuseram as bases do projeto CER (figura 1) são bastante interligadas: (1) a costura entre as interações via internet, por telefone e presencial; (2) a atitude democrática do pesquisador, e a busca de relações mais democráticas dentro da escola; (3) a parceria entre escolas e a busca de relações democráticas ali também; (4) ‘espiral da aprendizagem’, no individual, nas equipes, no geral da escola, e nos momentos conjuntos, na parceria entre escolas.


Buscando que acontecesse o uso da internet na escola, fazia questionamentos, sugestões e acompanhamentos que buscavam manter o bom funcionamento da sala de informática.


Aos poucos as pessoas foram se integrando à comunidade escolar de estudo trabalho e reflexão pedagógica e encontrando novas possibilidades de tempo para o trabalho pedagógico. Mais para frente foi possível trabalhar em conjunto, pesquisador e ‘equipes gestoras’, coletivo de professores das três escolas, planejando novas ações em conjunto, realizando ações conjuntas, refletindo e avaliando o processo em que nos encontrávamos, no coletivo, e em função disso, replanejando e recomeçando, como indica o esquema da figura 2.


Como pesquisador, atuei nas escolas junto às ‘equipes gestoras’, e interferi na ‘formação em serviço’ dos professores, mas não havia um conteúdo anterior ou obrigatório a ser seguido, como costuma haver quando se organizam cursos. Mesmo assim, havia uma intencionalidade minha.

Minha intenção e intervenção nas escolas foram no sentido de: (1) criar novas e melhores oportunidades e condições para que acontecesse uma interrelação pessoal entre professores (e gestores), buscando um diálogo sobre as questões pedagógicas, numa relação democrática entre eles; (2) nesse diálogo, era buscado o funcionamento da ‘espiral da aprendizagem’, individual e coletivamente; ou seja – mais situações de planejamento, mais situações de reflexão sobre a prática pedagógica; mais depuração, ligando as reflexões aos novos planejamentos; e isso tudo intermeado por trocas entre educadores, ligando a ação e reflexão individuais com o coletivo – em pares, em equipes, ou no coletivo geral. Três das bases do projeto (figura 1) podem ser vistas como bases estratégicas: (base 1) ‘grupos via internet’, (base 2) ‘parceria entre escolas’, e (base 4) ‘relações democráticas de poder’. Isso porque servem como estratégia para se conseguir o desejado. Já a ‘espiral da aprendizagem’ foi usada como base teórica e epistemológica (base 3), ou seja a “espiral” traduz o modo como se entendeu que aconteceria a aprendizagem da docência. A base - ‘relações democráticas de poder’ – foi estratégia porque gerou satisfação nas pessoas, libertação, gerando realização e as envolvendo com a escola e a aprendizagem. Mas foi também atitude e objetivo, porque fazia parte das convicções e ideais do pesquisador.


Base 1

Base 2

Base 3

Base 4

Figura 1 – Bases do Projeto CER


Assim, pode-se ver que, no projeto CER, apesar de eu atuar por meio do diálogo democrático, tinha uma clara intencionalidade. Buscava o diálogo pedagógico e o funcionamento da “espiral da aprendizagem” (figura 2).


As ações focalizaram mais o professor, mas as intervenções diretas foram mais no nível dos gestores. Os professores foram provocados a apresentar suas experiências e impressões pedagógicas, e convidados a conversar sobre elas. Entendia-se que isso provocaria o encontro de idéias, que depois geraria uma possibilidade de ajuda, ainda que unilateral; depois, mais adiante, ajuda mútua e até trabalhos conjuntos.




Além das intenções, havia também certos pressupostos. Partiu-se do pressuposto de que a melhoria nessa relação entre professores e o funcionamento da ‘espiral da aprendizagem’, levariam a mudanças no desenvolvimento dos alunos, dos próprios professores, e da ‘equipe gestora’, e até criariam abertura para a melhoria das relações com os pais, e com os demais funcionários, e entre eles. Entendia-se que, a melhoria do diálogo pedagógico e funcionamento da ‘espiral da aprendizagem’, levariam a uma escola mais cidadã, por privilegiarem oportunidades e situações de autoria e reflexão.


Pressupunha-se que fazer a ‘formação em serviço’ de professores nas bases do projeto CER levaria a mudanças na escola como um todo em direção a uma escola mais cidadã. Ou seja, que usando, e bem explorando, a comunicação via grupos-de-diálogo pela internet (base 1 – estratégia), estabelecendo, e bem explorando, a parceria entre escolas (base 2 - estratégia), e praticando e buscando relações democráticas de poder (base 4), na ‘formação em serviço’, no momento em que, a partir da compreensão e motivação das ‘equipes gestoras’ das escolas, fossem melhorados os espaços intersubjetivos de encontro de professores (com disponibilidade de tempo, com dinâmicas coletivas e de equipe, com facilidades e motivações para a comunicação), e esses espaços fossem bem cuidados, no sentido de levarem ao funcionamento da ‘espiral da aprendizagem’ (base 3 – epistemologia), aconteceriam mudanças na escola como um todo, mudança no sentido de se ter gestores, e professores como sujeitos e solidários em suas ações, bem como alunos, pais e funcionários.


Acreditava-se que, ao melhorar esses espaços de interação entre educadores, com a ocorrência de encontros, relatos, trabalhos conjuntos (cooperativos/colaborativos), o professor fosse se colocar mais como sujeito de seu próprio trabalho, solidário aos colegas e não solitário, e o resultado junto aos alunos melhoraria como conseqüência.


Esses eram os pressupostos, e a partir da ação prática e experimental em torno deles, foi possível buscar o objetivo maior da pesquisa: descobrir meios, dentro da complexidade da escola, para conseguir, com o uso de novas tecnologias e com a parceria entre escolas, melhorar as oportunidades e a qualidade da interação entre educadores, despertando hábitos de estudo, trabalho pedagógico e reflexão, individualmente e no coletivo.


No princípio eu imaginava que o grande diferencial das pesquisas do projeto CER fosse o diálogo pela internet, com trocas de mensagens escritas. Isso aconteceu e foi importante, além de ser uma novidade no diálogo entre professores. Mas o que considero que tenha sido o mais importante, aconteceu nas interações presenciais. Os tempos que as escolas participantes dedicaram à ‘formação em serviço’ de professores em 2003 foi quase o dobro do que aquele que acontecia anteriormente. Ou seja: foram abertas novas oportunidades para que o professor estudasse, desenvolvesse seus trabalhos pedagógicos, e refletisse em comunidade, tanto no plano presencial como via internet.


Não foi possível computar o tempo dedicado à escrita e leitura de mensagens para as trocas via internet, porque essas atividades acabaram acontecendo, quase que exclusivamente, fora do ambiente e horário escolar: em casa. Mas no total, foram escritas quase 2000 mensagens nesses mais de dois anos abrangidos pela pesquisa. Mesmo sabendo que muitos não acompanhavam esse diálogo a distância, e que outros, quase só liam e pouco escreviam, essas interações tiveram um peso importante, na reflexão e ação conjunta. Imagine-se: quanto tempo foi voluntariamente dedicado a isso?


Costurando interações a distância e presenciais, num esforço conjunto, pesquisador, ‘equipes gestoras’, e professores, conseguiram mudar muita coisa nas três escolas. O professor passou a:

  • estudar mais, e estudar em conjunto com os colegas de escola;

  • elaborar mais, as suas propostas para a aula;

  • apresentar mais, o que fazia, aos colegas;

  • conhecer melhor o que seus colegas faziam;

  • e alguns até desenvolveram trabalhos em conjunto.


Todos – professores e gestores – passaram a usar mais comumente a ‘espiral da aprendizagem’, com avaliação, com mais registros, com mais interação entre pares, tanto no planejamento como na avaliação/reflexão. Tivemos mais interação entre educadores, até no acompanhamento, durante a ação pedagógica.


Grosso modo, pode-se dizer que foi construída uma parceria entre três escolas públicas. Essa experiência foi coordenada por este pesquisador, mas construída com a ajuda de todos, principalmente com as ‘equipes gestoras’ das três escolas. Construímos uma parceria apoiada:

  • nas trocas de mensagens via internet;

  • nos Encontros de professores;

  • em ações com alunos, planejadas, acompanhadas e avaliadas conjuntamente;

  • na ampliação das oportunidades de interação entre professores;

  • em estudos de teorias relacionadas a desafios práticos do contexto;

  • e na busca de relações democráticas de poder, procurando unidade e respeitando diversidade.



Mesmo dentro das carências, complexidade e dificuldades que vive a escola pública, pode-se perceber que a liderança democrática, o uso criativo das novas tecnologias e a espiral da aprendizagem podem melhorar muita coisa rumo à escola cidadã.



Referências:

BÍBLIA. N. T. Mateus. Português. Bíblia sagrada. Trad. Storniolo, I.; Balancin, E.M. São Paulo: Paulus, 1990. p. 1266


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 7. edição, São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

GADOTTI, Moacir. Projeto Político-Pedagógico da Escola. In: GADOTTI, M.; ROMÃO, J. E. (orgs.) Autonomia da Escola: princípios e propostas. 4. ed. São Paulo: Cortez ou Instituto Paulo Freire, 2001.

VALLIN, Celso. Projeto CER: Comunidade escolar de Estudo. trabalho e Reflexão. São Paulo: PUC-SP. Tese de Doutorado. Disponível em https://tede2.pucsp.br/handle/handle/9525.



1 Gestão escolar = a ‘equipe gestora’ das escolas estaduais em São Paulo é composta por 1 diretor, 1 ou 2 vices, e 1 ou 2 PCPs (Professor Coordenador Pedagógico), dependendo do tamanho da escola.

2 HTPC= horário de trabalho pedagógico coletivo.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

1o de abril mudou de dia

 É triste, mas hoje ouvi gente falando que não aconteceu GOLPE de Estado no Brasil em 1964. 


Nos Estados Unidos, pela lei deles, depois de passados 50 anos, os documentos que eram SECRETOS passam a ser públicos. E já se passaram mais de 50! 


No Brasil ainda  tentam esconder, mas olhando os documentos estadunidenses vemos que a Marinha deles deu apoio concreto ao golpe, com navios porta-aviões que vieram até a costa próxima ao Rio de Janeiro e SP. 


Veja as notícias que explicam:

https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/operacao-brother-sam-golpe-de-64-teve-apoio-dos-eua.htm



A Marinha americana deu apoio aos militares brasileiros para depor o presidente João Goulart.


Mas quem havia dado legitimidade para ele ser PRESIDENTE? 

Os votos do povo. 

O João Goulart foi eleito, junto com Janio Quadros. Depois que Jânio renunciou, Jango passou a ser o presidente. 


E veja: naquele tempo o Vice tinha votação separada. O Jango foi eleito, não porque estava na CHAPA do Jânio, mas porque recebeu votos para se eleger por ele mesmo.



Enfim, pior do que o GOLPE foram as violências que vieram depois. Além de não existir democracia, praticavam a TORTURA. Nunca houve uma lei que autorizasse a tortura. Faziam isso à revelia das leis deles próprios. Era tudo às escondidas. Criminosos de farda.


Tudo uma vergonha. Mas vergonha pior é não sabermos a história do Brasil, ou tentarmos esconder.


Por isso, não há como conversar alguma coisa no dia de hoje, sem falar no GOLPE de 1964. 

1 abril foi quando aconteceu. Até nisso tentam enganar as pessoas. 


É tudo muito triste.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022


 Ontem fui conhecer os acampamentos do MST próximos a Belo Horizonte: Pátria Livre e Zequinha. Existe uma serra ao lado que é marcante. A paisagem é linda. O rio Paraopeba passa em um lugar em que a serra "se abaixa".


Muita gente mora ali, e a terra para cada família é pouca. Não vi plantações muito extensas. Na foto vemos o milho plantado.

A Escola Itinerante Elizabeth Teixeira funcionava com apoio do gov. estadual. A placa mostra o zelo que tiveram e a importância que têm para eles e elas. Ao fundo são vista as salas de aula que construídas pelas pessoas do MST e não pelo estado.

Abaixo as mesmas salas, um pouco mais de longe

Outras salas. São dois prédios com salas. A escola tinha bastante alunos. Funcionava desde a educação infantil até o ensino médio, e tinha também EJA. Funcionava 3 turnos. Com aulas até à noite! 

Lá no fundo,as pinturas mostram o cuidado, zelo, na pintura feita com a participação de muitas pessoas

A biblioteca era com doações, pequena, e foi toda atingida pela enchente da semana passada.

As chuvas trouxeram de novo a lama dos rejeitos da Vale Mineradora, mexendo com as beiradas do
Rio Paraopeba. A enchente foi a maior em 50 anos





A água estragou impressoras , máquinas de costura, e muita coisa


Nesse barraco funcionava uma venda e tinha uma mesa de jogo. Dá para imaginar pessoas confraternizando em volta. 
Uma hora eu ainda voltarei lá, para ver tudo reconstruído, pintado e cheio de vida.